O polêmico Zero

Relutei bastante em comentar o programa de Lula Fome Zero. Indesejava falar sobre um assunto do qual ainda não tinha clareza para fazê-lo. Embora, desde seu lançamento considerasse uma idéia oportuna e generosa pelos seus objetivos. E também achava desnecessário meu palpite, se toda a mídia ultimamente tem abordado o tema diuturnamente, dando-nos a oportunidade de colhermos um maior volume de informações a respeito do mesmo.

O Fome Zero, na minha opinião, é o desdobramento do projeto do saudoso Betinho, irmão de Henfil, de combate à fome que atinge milhões de brasileiros pelo país afora, tanto nas periferias das grandes cidades quanto no sertão nordestino especialmente. Bastava essa finalidade portanto, para justificar o programa, pois a pessoa faminta, dias e mais dias sem ter o que comer, não pode ter nenhum interesse em polêmica ou discussão sobre teoria ou ideologia sobre a questão, se é assistencialista ou coisa do gênero, quer é sair do seu estado de inanição, de torpor, sobreviver enfim. O mais é conversa para boi dormir, miolo de pote.

Além do mais, a concepção ora posta em prática pelo governo inclui ações em outras frentes essenciais à solução definitiva do problema a partir da educação, saúde e desenvolvimento econômico que gerem emprego. Quer dizer, são várias atitudes paralelas à distribuição de alimentos, dessa maneira, o Fome Zero não poderá ser taxado de assistencialista, assim penso.

 Temos visto muitas críticas a respeito, algumas válidas, outras nem tanto e tantas outras completamente precipitadas e equivocadas. Ainda há pouco, li na coluna do jornalista Adilson Damasceno, a quem tenho o maior respeito, publicada na Gazeta do Oeste no último dia 31, dizer: “Esse famigerado programa Fome Zero”. Fiquei atônito, achei a adjetivação muito forte para uma proposta tão magnânima, apesar dos erros que possam estar sendo cometidos no início de sua implantação. A meu ver a crítica se perdeu pelo termo usado, a não ser que Damasceno tenha empregado um dos sentidos que têm a palavra “famigerado” que, segundo o dicionário de português de Houaiss, tanto pode ser algo que “tem muita fama” ou “tristemente afamado”. Será que o caro jornalista considerou foi a segunda definição? Eis minha dúvida.

De qualquer maneira, não se pode nem se deve deixar de exercer o direito de crítica, essencial para a democracia e seu aperfeiçoamento. Ninguém é dono da verdade, isso não existe.   

 

RUBENS COELHO
EMAIL: rubens_coelho@zipmail.com.br

60, é cearense de Milagres, formado em Geografia e Ciências Sociais pela PUC-SP, foi fundador do Sindicato dos Hotéis Bares e Similares de Mossoró.

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Mossoró-RN, sábado, 8 de fevereiro de 2003