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Sobre o inferno

Obra de Salvador DaliJosé Osimar Gomes de Lima

As imagens e conteúdos que os sujeitos fazem do mundo social refletem, particularmente, o modo como se mantêm coesas formas inusitadas de agir e sentir. É claro que o temor de ir para o inferno deixa muita gente inquieta e predisposta a se classificar como um dos eleitos para o paraíso. O mundo carece do paraíso que, para Jesus, estava dentro de nosso íntimo: amor, dignidade e senso de proporção no mundo. O paraíso, esse lugar ou não-lugar (para empregar a noção do antropólogo Marc Augé), sempre representou o dilema mais angustiante para aqueles ávidos em levar uma vida de pureza e caridade. Por outro lado, o conteúdo mítico do inferno deteve, a partir do renascentismo italiano entre os séculos XIII e XIV, outras abstrações e sentidos que figuravam embates políticos distintos.

A noção de inferno significou o ponto de combate nas lutas por poder durante a Itália renascentista. O seu maior representante é o florentino Dante Alighieri (1265-1321) que escreveu uma trilogia dos temas que mais preocupava a existência humana, o purgatório, o paraíso e o inferno. Mas qual o porquê de tais temas? Por que em tais obras figura a presença, o amor platônico por Beatriz?

Temas religiosos na preocupação de um intelectual orientaria Dante ao combate contra os micropoderes que se estabeleciam na Itália: o papa e o sagrado império romano. O ambiente político e social da Itália não eram integrados, pois havia muitas lutas internas entre famílias e grupos políticos dissidentes (os guelfos negros, radicais, defendiam o apoio do papa contra as ambições do imperador, que era apoiado pelos guibelinos, e os guelfos brancos, moderados, respeitavam o papado, mas opunham à sua interferência na política da cidade). Esse atrito terá como efeito para Dante (que fora eleito governante na época) a acusação de irresponsabilidade administrativa, corrupção e oposição ao poder papal sendo obrigado a pagar multa e a sair da cidade. Sua resposta será através da literatura através de seu tratado Da monarquia, onde defende a total separação entre a Igreja e o Estado. A Divina Comédia lhe consumiu 14 anos e reflete as condições infernais para se poder estabelecer uma nova vida de paz, prosperidade, felicidade e liberdade.

A Divina Comédia, portanto, é uma biografia social de sua época contada pelas suas memórias que ruminam através do amor, desejo e salvação gloriosa através das lembranças de sua amada Beatriz. A viagem onírica que Dante faz ao lado do filósofo Virgílio o faz ver o inferno, um lugar no qual se encontram aqueles sujeitos que pecaram e não se arrependeram dos seus atos: mataram, roubaram, mentiram, traíram e outras misérias que se transformariam, mais tarde, os setes pecados capitais. Para a Idade Média (que já sabia da existência da Ásia, África e Europa), o inferno estava localizado, geograficamente, no centro da terra onde o rei das trevas devorava os pecadores. A alegoria do portal do inferno como bem apresenta a Bíblia é a de uma porta larga e fácil de entrar. Aquele que entra deve estar pronto para encontrar o desafio de superar a dor e os pecados humanos. A inscrição na entrada do inferno, conforme Dante, faz o seguinte alerta "que aqui se afaste toda a suspeita, que neste lugar se despreze todo o medo". Ainda viva, a alma pode escolher que destino poderá ter: o céu ou o inferno. Uma vez morta, perde a razão e o senso de responsabilidade por seu destino. Toda a tenebrosa aventura de Dante ocorre, inusitadamente, na sexta-feira da paixão e é um desafio, pois ele está vivo e tem os requisitos da vida humana: escolha do destino e consciência da responsabilidade. Existe, claro um anti-inferno, lugar para os que em vida ficaram em cima do muro. E por essa razão, sua covardia e neutralidade em vida têm como castigo o fato de serem obrigados a correrem por um caminho que não os leva a um lugar algum. De acordo com Dorothy Sayers, as imagens assustadoras que se refletem no inferno "não são diabos ou almas perdidas, mas as imagens de apetites pervertidos, e vivem nos círculos apropriados à sua natureza.".

O inferno é o lugar daqueles que, em vida, transformaram o mundo humano em um não-lugar de convivência e de perfeição. Para Dante, portanto, o inferno é o lugar do pagamento daqueles que por vaidade, egoísmo ou paixão desmedida por causa própria foram incapazes de equilibrar a fé (representada por Beatriz) e a razão (representada por Virgílio) para uma "alma digna". A morte de Beatriz, e logo depois a obrigação em ter que sair de sua cidade, foi a própria experiência do inferno para Dante. Vejamos o que ele diz no canto I: "Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida não mais seguia o caminho certo".

A visão mítica do inferno, em tese, é a daquele lugar inóspito, de trevas e cheio de dores e desesperanças. Causas provocadas pela vaidade, desonestidade, falta de fé, virtude, honra e indecisão. Em meio à crise que vela Dante, durante a passagem do purgatório até o inferno, ele descobre a saída no paraíso como lugar de gozo e realização da humanidade e esse fio de esperança encontra-o na memória "viva" de Beatriz. Assim, uma boa parte de intelectuais da alta Idade Média via o amor como o molde ideal para a perfeição paradisíaca do homem. O inferno seria, assim, o castigo para quem não consegue ser capaz de alcançar a plena satisfação das dádivas que o céu proporciona. Portanto, a viagem mítica de Dante pelos lugares eternos só é possível se a razão cede espaço para a fé. Sem honra, esperança e temperança a vida tende a se tornar o pior dos lugares, ou seja, um verdadeiro inferno.

SOBRE O AUTOR:
É professor de Ciências Políticas no Departamento de Ciências Sociais da Uern e pesquisador na linha da Antropolítica e Complexidade.