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O
motim das mulheres buchudas
LÍRIA NOGUEIRA ALVINO
Enfermeira da Casa de Saúde Dix-sept Rosado
Há duas semanas fui a um
banco. Peguei um fila razoável. Razoável também é o tamanho de minha
barriga carregando um bebê com cinco meses. Tudo bem. Ninguém se
manifestou nem eu senti-me no direito de adiantar-me para o caixa.
Esperei... Esperei...
Lá para as tantas, entre
uma sentadinha e outra para driblar o cansaço, um senhor chegou perto de
mim e disse com voz amável que eu, "naquele estado", deveria
dirigir-me direto ao caixa e ser atendida antes dos outros:
– Não vê a placa?
Preferência para idosos, gestantes e deficientes. Pode ir.
Foi o que disse o senhor.
Energizada pelas palavras dele, dei uns passos à frente e encontrei uma
gestante que vinha de lá para cá com uma expressão de poucos amigos, de
quem não estava gostando da situação. Continuei. Postei-me como sendo a
próxima a ser atendida na boca do caixa.
Caro leitor, você não
imagina o constrangimento que me afligiu naqueles minutos. Foram uns
minutinhos de nada e talvez até nem tenham valido tanto, mas, como já
estava encabulada por passar na frente seja por qual fosse a situação,
encarei tudo da pior maneira possível. Primeiro foram os suspiros.
Aqueles suspiros agoniados de quem está na fila há horas e não se
mostra nem um pouquinho contente por ter mais uma pessoa a lhe tomar o
lugar. Depois foram as reclamações, discretas, mas estavam lá.
Inquietei-me. Chamei o
vigia-organizador-de-fila que estava a poucos passos de mim e perguntei
alto:
– Como é, seu guarda,
eu posso passar ou não? Se não puder, volto para o meu lugar na fila...
– Pode.
Também só disse pode.
Um pode seco, sem mais delongas, um pode assim como quem quer dizer, pode
porque é o jeito, mas não é nada bom ter alguém passando na sua
frente. Uma palavra com quatro letrinhas tão carregadas de explicações.
Fiquei na frente ouvindo um montão de "assim não vai",
"assim não dá", "ô Mossoró para ter mulher buchuda"
e coisas do tipo. Diziam baixinho, olhando para outro lado, mas eu, como
já disse, no limiar da sensibilidade, minha percepção auditiva estava a
mil.
Saí do banco querendo
acreditar que esse incidente não era geral.
Dias depois, lá estava
eu no supermercado. Sábado pela manhã, cedinho mesmo. Depois de pegar o
que queria, dirigi-me ao caixa, agora do supermercado, só para testar,
não o estabelecimento, mas o comportamento das pessoas. Lá fui novamente
para o caixa que dizia numa placa branca, grande: ESTE CAIXA ATENDE
PREFERENCIALMENTE A GESTANTES, IDOSOS E DEFICIENTES. Uns cinco carrinhos
todos devidamente bem carregados se colocavam nessa fila. Desses, nenhum
era de gestantes, idosos, deficientes ou similares.
Avistei em outras filas
idosos e gestantes a esperar em seus caixas não-preferenciais. Por que
essa placa indicando essa preferência, se nada é respeitado? Postei-me
na tal fila para gestantes de propósito e esperei. Muito. Ninguém me
abordou oferecendo a frente, nem para mim nem para as outras grávidas.
Para não dizer que não fui abordada, uma senhora chegou com uma
embalagem pequena de alguma material de limpeza e quis saber se eu me
incomodaria se ela passasse "só com esse pacotinho"?
– Me incomodo, minha
senhora... Passa, não.
E apontei a placa de
caixas rápidos para poucos volumes quem também estava lotada de clientes
com carrinhos com pacotes além da cota sugerida como rápida.
Mas nesta Mossoró em que
nasci e fui criada, onde os motoristas não esperam dois segundo depois
que o sinal verde abre e vão logo se estressando com a mão na buzina,
nesta Mossoró que ainda não está acostumada em dar a vez ao pedestre, o
que queria eu esperando gentilezas nas filas? Só por causa da barriga?
Besteira.
Interessante é que são
as mesmas pessoas que foram ontem ao centro da cidade comprar presentes
pra suas mães, como prova de valorização à maternidade. Está certo,
eu acho lindo, mas as gentilezas não devem se restringir aos muros de
nossas casas, e atenção é uma coisa que não precisa ser comprada no
centro da cidade, é de graça e disponível no dia que se quer
oferecê-la.
Vou sugerir à minha
prima Sandrinha, grávida de Tammy, e a tantas outras que eu encontrar por
aí que, para evitar constrangimentos, da próxima vez leve alguém para
lhe guardar o lugar na fila, num processo inverso do que se espera ser
feito.
Aliás, Feliz Dia das Mães e até
domingo que vem.

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10 anos de
Mossoró
CAIO CÉSAR MUNIZ
Presidente da Poema – Poetas e Prosadores de Mossoró
Era um 15 de maio de
1992, Dia das Mães daquele ano. Os tempos não eram os melhores para a
minha família. Naquele dia, num instante de desespero que determinadas
ocasiões nos trazem, resolvi dar de presente à minha mãe a dor da minha
ausência. Disse-lhe: vou embora! E vi naqueles olhos, tão meus quanto
dela, as lágrimas rolarem.
Foi pelas mãos de Carlos
Negreiros (o Carlito), filho do mestre Enéas Negreiros, que a graça de
uma esperança nova surgiu em minha vida. E parti da minha doce Iracema
para Mossoró. Já havia estado aqui no ano de 1985, numa passagem
rápida, a cidade me era ainda um oceano desconhecido.
Chegamos num final de
tarde na terra de Santa Luzia – ruas estranhas, aquele frio na barriga
que só o desconhecido nos traz, me deixavam incomodado com tudo. Fiquei
uns instantes no lar aconchegante de Seu Enéas, à beira do rio Mossoró,
já poluído naquele tempo, calmo ou triste, não sei. Depois, fui levado
à minha primeira residência em Mossoró, no bairro Abolição IV, onde
fui recebido por minha irmã Ângela e meu cunhado-irmão Valdir.
Àquela época, eu trazia
na mochila um punhado de sonhos, que não pretendia colocar pra fora
naquele momento, e o peso do desemprego, que pedia urgência em tirar das
costas. E Mossoró parecia me sorrir desde aqueles primeiros instantes.
Não demorou muito e, logo nos primeiros dias, a influência dos Negreiros
me ofertou o primeiro trabalho nesta terra.
Era no Hotel Sol, onde
hoje funciona a Câmara Municipal. A função era a de mensageiro. Agarrei
a chance como se fosse a única da minha vida... E talvez fosse naquela
época. Foram mais ou menos sete meses de felicidade. Mas, de repente,
tive que começar tudo outra vez: o hotel foi arrendado. Nessa época eu
já havia sido promovido à recepcionista. Pouco tempo depois, estive
pelas oficinas da Rádio Difusora. Alguns testes na Redação, algumas
aulas com Aglair Abreu, um primeiro aprendizado na imprensa, mas não fui
muito longe, sempre tive uma paixão muito grande pela hotelaria e fui
chamado para o Hotel Thermas – que grande escola aquele empresa me foi!
É uma pena que, em quase
todas as empresas, existam sempre algumas "ervas-daninhas",
pessoas que não suportam ver o crescimento das outras e procuram de todas
as formas impedir este crescimento. Mas ali, ainda hoje, tenho amigos
pelos quais tenho um carinho de irmão verdadeiro, porque ainda é desta
forma que sou tratado quando visito aquele oásis potiguar.
Nas noites em que
trabalhava no Thermas, levava meu caderno de ilusões e passava a limpo os
meus poemas. Era uma forma de não dormir em serviço, coisa que nem
sempre dava certo. Eu imaginava que, um dia, pudesse publicar um livro.
Ainda não conhecia a Coleção Mossoroense. Foram bons tempos aqueles.
Nessa época, meus irmãos Júnior e Henes também haviam deixado a nossa
casa em Iracema e estavam em Fortaleza, procurando ajudar aos que ficaram.
Na verdade, acho que eles sempre ajudaram mais que eu.
Saí do Thermas num dia
de dezembro de 1994, não lembro bem, e, meio que agoniado por estar
novamente desempregado, corri em busca de trabalho no mesmo dia. Qual foi
a minha satisfação quando procurei Cláudia Pinto (Hotel Imperial)
naquele mesmo ensejo em que eu saíra do Thermas e ela me devolveu de
volta a alegria me colocando na recepção da sua Casa maravilhosa. Não
tive um só dia de folga, comecei no mesmo instante.
Foram outros tempos
maravilhosos, graças a Deus e aos ensinamentos de Seu Pedro Muniz e Dona
Marinete, meus pais. Por onde tenho passado, sempre procuro deixar motivos
para ser bem recebido, num possível retorno, em qualquer tempo. Ainda
hoje sinto saudade do Imperial e, às vezes, ainda entro no seu quadro de
funcionários nos meus sonhos.
Pois bem. Algum tempo
depois, saí dali e fui servir a outro hotel, o Ouro Negro, comandado por
Seu Pedro, um dos homens mais inteligentes e competentes que conheci
nestas terras. Já estamos no ano de 1996. Naquele período, passei a
colaborar com o "Caderno 2" do jornal O Mossoroense. É a época
em que conheci Cid Augusto, Marcos Ferreira, Rogério Dias e Genildo
Costa, época em que começamos a brincar de ser poetas de verdade, época
em que conheci a sabedoria e a bondade de Vingt-un.
Neste tempo lanço na
área do hotel Ouro Negro o meu primeiro livro, "E Na Solidão
Escrevi". De lá pra cá, minha vida deu voltas intermináveis, como
a de todos nós, nas mais variadas direções. De lá pra cá, ganhei
outros irmãos, na vida e no verso (Rubens Coelho, Kydelmir Dantas,
Francisco Nolasco, Ricarte Balbino, Laércio Eugênio, Antônio
Francisco), tantos, tantos, que não caberiam em toda esta página.
De lá pra cá, consegui
trazer grande parte da minha família para dividir minhas conquistas e
minhas derrotas, aqui mesmo, em Mossoró. Alguns não puderam ficar, foram
embora, expulsos pela sanha que invade as cidades grandes, pela
truculência policial, que, infelizmente, macula a imagem de uma grande
fatia desta classe de profissionais comuns, como eu e você. Deixemos pra
lá, o tempo se encarregará de fazer justiça.
Talvez o caro leitor
esteja sentindo falta de algum comentário sobre os amores ocorridos ao
longo destes dez anos. Não falo dos amores em respeito a eles, em
respeito a tudo que foi vivido em todas as fases de minha vida. Se assim
não fosse, estaria sendo desonesto com a minha forma de amar, mais do que
talvez já tenho sido. Então, que cada um julgue o seu tempo e avalie da
melhor forma o que foi passado.
Há dois ou três anos,
entrei para a maior universidade de Mossoró – a companhia de Vingt-un e
dos seus entes queridos. Ao lado deles, tenho aprendido sobre a história
desta terra, desta região e até sobre a história do nosso próprio ser.
Tenho aprendido com a experiência que brota dos poros do mestre Vingt-un,
com as palavras suaves de América, com a gentileza de Dix-sept, de
Isaura, de Maria Lúcia, de Leila, de Lúcia Helena e de todos que rodeiam
esta casa – netos, bisnetos, etc.
É desta universidade que
falo. Sinto-me formado, graduado, doutorado. Esta aproximação de
Vingt-un é, para mim, como que a coroação destes 10 anos nesta terra
que me adotou como seu. Nada mais peço, tenho tudo e, se ainda me falta
algo, não me falta o ar mossoroense, que me inspira a lutar para buscar
novas conquistas. Não me falta o carinho dos irmãos desta terra, que me
seguram quando tropeço e que me ajudam a levantar... Não me falta mais
nada. Se falta, tenho certeza, as ruas de Mossoró, os dias e as noites de
Mossoró ainda hão de me dar.
Desta terra somente desejo sair para um
lugar tranqüilo no chão querido de minha Iracema. Obrigado por tudo,
Mossoró.
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