O SONHO DE CONSUMO
DE FHC E A REALIDADE
Cada um de nós tem um sonho de
consumo em determinado momento da vida. O atual sonho de consumo do
presidente FHC -- além é claro de se tornar imortal na
Academia Brasileira de Letras -- é imaginar que ele
possibilitou aos brasileiros aumentar o consumo no dia-a-dia. E que
esse fato, por si só, representaria substancial melhora na distribuição
de renda no país...
Baseado no fato do Censo/2000 ter constatado aumento no consumo global e
também alargamento do fosso das desigualdades econômicas entre
os habitantes, Fernando Henrique usou o primeiro para tentar contestar a
o segundo dado, colocando em dúvida o levantamento do IBGE.
Ora, senhor
presidente o consumo pode aumentar, como de fato aumentou, sem que isso
signifique necessariamente melhoria na distribuição da renda! Ao contrário,
no caso tupiniquim o que os números indicam é que os ricos ganharam
muito mais e passaram a consumir muito mais. Já a classe média e os
pobres ganharam menos, pagaram mais impostos, muitas categorias não
tiveram sequer reajuste anual de salário e o pior: muitos passaram a
recolher imposto de renda por conta do congelamento de 7 anos nas
tabelas do leão. Conseqüentemente, na melhor da melhor das hipóteses,
essas famílias conseguiram estagnar seu consumo. Aumentar, jamais .
Aqui um parênteses, o presidente da República contestou os dados
do Censo realizado pelo IBGE, que é um órgão do governo federal.
Imaginem só se fossem dados de alguma instituição independente ?? E
justiça seja feita, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas
apesar de ser estatal, tem credibilidade e realiza um trabalho
extremamente sério. Seja na coleta de dados, com todas as dificuldades
de um país imenso como o nosso; seja na tabulação e cruzamento das
bilhões de informações, seja na divulgação sempre criteriosa dos
resultados, independentemente se eles agradem ou não os governantes. A
função do IBGE é radiografar e revelar, em números, a realidade
socioeconômica no Brasil.
E a análise destes números é
suficiente para colocar por terra as "dúvidas" palacianas e
atestar que realmente a distribuição de renda piorou: 1/4 da população,
ganha menos que do que 1 Salário Mínimo. Apenas 3% dos brasileiros
ganham acima de 20 salários Mínimos, ou 4 mil reais por mês. Na outra
ponta, contrastando negativa e perversamente com esse quadro, 65% de
toda riqueza nacional está concentrada nas mãos de apenas 1% .
Trocando em miúdos, o "resto" da população, 99%,
cerca de 168 milhões de brasileiros, tem que dividir os 35% da renda
que sobra...
Nem é preciso avançar
muito na comparação de dados para se perceber que as disparidades de
rendimento são massacrantes. Só miopia política proposital é que não
deixa alguém enxergar a verdade. Mas vale ainda comentar outro
argumento usado por FHC para "provar" que teria havido
melhoria na distribuição de renda no país: o aumento do número de
carros por família. Francamente, até 95 não existiam automóveis
populares, de menor potência em compensação com preços, 10/11/12 mil
reais, e prazos de pagamento em até 5 anos, que permitem a milhares de
famílias de classe média adquirir um segundo carro para a
esposa/filhos. Mas espremer o orçamento doméstico para pagar uma nova
prestação também não quer dizer que a renda melhorou.
Assim como bolsões de aumento de consumo identificados
pelos Censo em determinadas faixas mais pobres não representam melhoria
salarial ou distribuição mais eqüitativa das riquezas nacionais.
O que acontece é que a estabilização da moeda e o controle da
inflação fizeram surgir centenas, milhares de novas marcas e produtos
baratos, sobretudo nas gôndolas dos supermercados. Muitos de qualidade
péssima ou duvidosa, que nem sempre cumprem com eficiência o que
prometem. Porém, em contrapartida, se encaixam dentro da minguada renda
familiar . E, em volume, jamais em qualidade, engordam as estatísticas
de consumo !
E já que nosso presidente -- como bem garantem os
caros comerciais na TV dos 8 anos de seu governo -- está
mesmo convencido de que a massa salarial teria aumentado, determinou
ao ministro Pedro Malan que compense a "perda" na arrecadação
com a interrupção da CPMF, cortando 1
bilhão de reais do Fundo de Combate à Pobreza. Pobres
dos pobres !!
Uma
boa semana para todos -- o
reino cor-de-rosa de FHC, mais do que sonho de consumo é sonho de uma
noite de verão. Daquelas em que a gente acorda suado, vai ao banheiro e
volta para continuar sonhando gostosamente, em alguns casos fugindo da
realidade --
quinta-feira (23/05)
eu volto.
Traduzindo a Economia para o seu dia-a-dia!