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ATUALIZAÇÃO ÀS SEXTAS

 

 

UM MUNDO ABENÇOADO

Hoje estou encerrando minha participação no espaço deste jornal. Outras tarefas me chamam, e embora me agrade muito esse contato semanal com o leitor, não devo assumir mais coisas do que posso dar conta. Agradecendo o carinho de todos durante esses poucos meses em que aqui estive, quero aproveitar para compartilhar com vocês a idéia de que vivemos em um mundo abençoado, e que temos ao alcance de cada um de nós os meios para transformar a nossa vida em algo belo, prazeroso e cheio de significado. Um desses meios é aquilo que chamo de reencantamento do mundo, tema que defendo aqui desde os meus primeiros artigos.

Para compreender melhor isso que quero dizer, imagine que, nos tempos primitivos, o ser humano vivia em estreita comunhão com a natureza. Para ele, todo o mundo natural, mundo do qual ele fazia parte, tinha vida, espírito, e era povoado de deuses, deusas, duendes, fadas e poderes não humanos, que nada mais eram do que a projeção das suas esperanças, medos e fantasias. Lugares especiais eram dotados de características mágicas e neles se construíam santuários, igrejas e templos. Os eventos naturais, como as mudanças de estação que ocorriam por ocasião dos solstícios e equinócios, fases da Lua e outros acontecimentos relacionados à semeadura e à colheita também eram comemorados com rituais mágicos e religiosos.

Até a Idade Média ainda predominava essa percepção, de uma Natureza dotada de alma, de espírito, constituindo o que chamamos de animismo. Depois, com o advento da Ciência, em um processo que começou no século XVIII e que se estende até os dias de hoje, o mundo natural foi despojado da sua sacralidade e disseminou-se a idéia segundo a qual a Natureza deveria ser obrigada a entregar seus segredos ao Homem, que tinha o direito de submetê-la e dobrá-la à sua vontade. Essa idéia foi instalada como esteio de todo o progresso científico e tecnológico do qual desfrutamos hoje em dia.

O mundo perdeu, então, o seu caráter sagrado. Tudo passou a ser explicado pela via da Ciência e sumetido a controle mediante a Tecnologia. A Natureza passou a ser uma coisa morta, inanimada, sem vida própria, ali colocada para que o homem se servisse dela da maneira que lhe aprouvesse. Mas quando o homem, valendo-se do pensamento científico, na tentativa de tudo saber e tudo explicar, iluminou o mundo com a luz da Razão, transformou esse mundo num deserto. Conhecido, sim, explicado e desvendado, mas árido, sem sombras, e despojado do mistério.

O homem tem sede do mistério. Este é um impulso atávico da alma humana e a busca do mistério está na raiz da filosofia, através da qual o ser humano reflete sobre sua natureza, sua origem e seu destino. Despojado do mistério, da possibilidade do oculto, o homem se sente perdido. Num mundo sem mistério, sem a experiência viva das coisas do espírito, o indivíduo torna-se presa fácil das ideologias, que parecem ser uma forma deturpada do mito tão necessário como alimento do psiquismo humano.

Num mundo sem mistério, os oráculos, que desvendam diante do indivíduo as posssibilidades da existência, permitindo que ele use o livre arbítrio para exercer o controle da sua vida, são substituídos pelos dogmas e regulamentos, que deixam a vida mais estreita e mais pobre. Os xamãs são considerados loucos e internados em hospitais psiquiátricos, enquanto os ditadores, os partidos e os impostores travestidos de gurus controlam corações e mentes.

O que nos salva é que esses trezentos anos de ditadura do cientificismo não foram suficientes para despojar essa deslumbrante Natureza do seu caráter sagrado. Vivemos, qual seres eleitos, nesse mundo mágico e misterioso, que apesar de tudo não perdeu seu encanto. O nosso olhar sobre ele é que se desencantou. Nós é que temos vivido como sonâmbulos numa existência de brumas. Olhamos sem ver, escutamos sem ouvir, falamos sem dizer, tocamos sem sentir. Vivemos fechados para a Revelação que nos é oferecida a todo minuto. A voz do Universo está sempre ao nosso alcance, mas só pode ser ouvida quando desligamos a televisão e nos sentamos quietamente em algum lugar procurando apenas viver o presente.

A grande Magia do Cotidiano está aí. Transformar este mundo em um Paraíso, reencantando-o, voltando a ouvir a sua voz, é a nossa tarefa e está ao alcance de cada um de nós. Fazendo isso, teremos então recuperado a nossa pureza original e completado a grande tarefa mágica a cargo da Humanidade: transformar o mundo às custas da nossa própria transformação pessoal.

Desejo a todos sorte e sucesso nessa grandiosa tarefa, e me despeço com a esperança de nos encontrarmos novamente. Até um dia.