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Walter Fonsêca

Desde o último dia 9, Mossoró se transformou na capital nacional das universidades estaduais e municipais, com a posse do reitor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), José Walter da Fonsêca como presidente da Associação Brasileira dos Reitores de Universidades Estaduais e Municipais (ABRUEM). Com isso, Mossoró passará a ser interlocutora e sede política dos principais assuntos relacionados às instituições de nível superior do País.

Nesta entrevista, Walter Fonsêca fala um pouco sobre alguns aspectos da associação, que engloba universidades de toda as regiões brasileiras, algumas do porte da Universidade de São Paulo (USP), Universidade de Campinas (UNICAMP), entre outras. Apaixonado convicto pela política, Walter também não descarta a hipótese de disputar algum mandato eletivo a partir do momento em que se encerrar o seu último mandato como reitor. Além disso, ele pretende se aposentar para se dedicar a uma de suas maiores paixões, que é a aviação experimental.

LUÍS JUETÊ - Da Redação
universo@omossoroense.com.br

O MossoroenseComo o senhor vê a escolha do seu nome para conduzir a Associação Brasileira dos Reitores de Universidades Estaduais e Municipais?

Walter Fonseca – Na verdade, vejo com imensa alegria. Às vezes questionamos se realmente fiz por onde receber essa deferência, mas, ao analisar mais profundamente, acredito que seja um reconhecimento do crescimento da Uern. Tanto dentro das fronteiras do Estado do Rio Grande do Norte, como nos fóruns nacionais e internacionais. Pela nossa posição, a nossa capacidade de articulação que desenvolvemos em organismos como o Conselho de Reitores, Organização Universitária Interamericana, da própria Abruem, acredito que isso só abriu essa credencial. E nesse gesto de generosidade dos membros da entidade, a unanimidade para conduzir a Abruem nos próximos dois anos. O Brasil possui hoje cerca de 139 universidades. São mais de mil faculdades. Desse número de universidade, 39 são estaduais e municipais, a mesma quantidade são federais e as demais ou são particulares ou comunitárias. Esses quatro segmentos juntos formam o que seria, mais ou menos, a confederação dos reitores, que é o Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras, que é formado pela Abruem, pelas associações das universidades federais, das comunitárias, pela associação das particulares. São quatro segmentos que representam todo o universo de reitores de universidades brasileiras. A abruem é um deles, e representa cerca de 25 do conselho de reitores, tanto em número de universidades, como em número de professores, assim como em número de vagas ofertadas.

OM – Qual o critério para a escolha do presidente da associação?

WF – Os critérios são políticos. Há um critério que não está escrito, mas é consignatário, aceito por todos, e que diz que o presidente representa uma região e o vice outra. No mandato seguinte há uma inversão. No mandato atual o presidente é do sul/sudeste, que é o reitor Roberto Frederico Mery, que é reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa, no Paraná.

OM – E para Mossoró, o que representa o reitor Walter Fonsêca como presidente da Abruem?

WF – Representa, em primeiro lugar, ocupação de um espaço nacional. Ela representa universidades espalhadas em 19 Estados do Brasil, do Rio Grande do Sul ao Amazonas. Não são todos, mas nós temos universidades estaduais e municipais em todas as regiões do País. Em segundo lugar, porque isso traz para Mossoró durante os próximos dois anos a interlocução de importantes segmentos das universidades brasileiras. Do dia 9 de maio para cá somos o interlocutor oficial dessas 39 universidades, junto aos ministérios, junto ao governo federal, junto aos conselhos estaduais de educação, a quem cabe regulamentar essas universidades. O interlocutor passa a ser o presidente, que é o reitor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. A sede administrativa está em Brasília, junto ao Conselho de Reitores, mas a sede política está junto ao reitor-presidente.

OM – E existe algo definido no calendário da sua gestão?

WF – Em agosto, nós teremos o primeiro congresso sob a minha presidência, que será realizado na Universidade do Maranhão, em São Luiz, que, na última reunião, em Goiás, credenciou o seu nome e foi aprovado.

OM – Como o senhor vê o avanço das universidades particulares no País?

WF – Normal dentro do quadro atual, do processo globalizante. É normal que a educação agora atinja patamares que deveria ter atingido há três ou quatro décadas. Hoje, pela mutação constante e rápida da empregabilidade, o emprego tradicional está mudando. O emprego, hoje, muitas vezes está calcado na informalidade. Você passa a trabalhar na sua própria casa através da prestação de serviços. Muitas vezes, um certo segmento da economia que perde um pouco a sua importância. Por exemplo, os bancários estão passando por uma modificação completa com a automatização. A requalificação é importante porque passa pelas universidades. Em alguns países, como a Grã-Bretanha, cerca de 5 a 6% do seu PIB está sendo levantado através de serviços educacionais no mundo todo. Espero que o Brasil e outros países se levantem contra isso. Seria uma temeridade, tentando transformar os serviços educacionais em um produto comercial como outro qualquer, sem nenhuma proteção nacional, sem que haja qualquer barreira. Dentro desse processo globalizante, digo que é importante que tenhamos novas possibilidades, novas alternativas de faculdade, mas sempre com qualidade. Não pode ser apenas na busca do lucro. E aqui eu repito uma frase do reitor Martins Pinto, primeiro reitor da Universidade do Estado do Ceará, quando membro do Conselho Nacional de Educação, que diz que a pior das escolas será sempre melhor que a melhor das casas de prostituição.

OM – O senhor concorda que existam as fábricas de diplomas?

WF – É provável que isso aconteça. Veja bem, o mundo está cada vez mais desregulado do ponto de vista da legislação. Na verdade, o que nós tivemos foi uma desregulamentação nas economias e nos serviços. Com isso, há uma abertura muito grande. O controle de qualidade fica muito difícil, quando se tem um número muito grande de atividades para poder fazer essa fiscalização e observância. Basta ver as questões de meio ambiente e mesmo aquelas previstas no Código do Consumidor. É natural que com essa profusão de cursos também apareçam as fábricas de diplomas. O que espero é que a sociedade construa mecanismos eficazes para defender a qualidade. Isso não acontecendo, o próprio mercado será regulador, disso eu não tenho dúvida. Existem algumas instituições que hoje chegam ao Rio Grande do Norte e interior e de outros estados através de sublocação de entidades estaduais, com a conivência de algumas instituições até certo ponto respeitáveis, mas isso em pouco tempo estará exposto e a sociedade encontrará caminhos e formas de continuar vigilante.

OM – O que o senhor pretende fazer quando terminar esse seu último mandato como reitor da Uern?

WF – Me aposentar, voltar a fazer aquilo que gostava e o tempo não me permite, que é voar de ultraleve. Fazer valer o meu prazer da aviação experimental, que é um hobby que eu adoro fazê-lo. Obviamente, com a experiência que espero ter adquirido ao longo desses praticamente 35 anos de educação superior e um pouco mais, porque comecei com 17 anos na educação secundária. Espero que haja outras possibilidades de continuar trabalhando, porque eu não quero me aposentar e cruzar os braços. Eu vou me aposentar do serviço público, mas estarei aí buscando novas formas de estar contribuindo com a educação brasileira e, principalmente, para com a produção de uma sociedade mais justa e igualitária.

OM – E a política, é um hobby ou paixão?

WF – É uma paixão, sem duvida, mas, sobretudo, um compromisso. Eu acho que o verdadeiro cidadão precisa estar antenado, sintonizado com as questões políticas da sua província. Charles Chaplin já dizia, em sua genialidade, que a vida é um aspecto local. Esteja em sintonia com as coisas políticas da sua província, mas também do seu país. Também recordo Bertold Breacht, que dizia que o maior analfabeto é o analfabeto político.

OM – O senhor disputaria um cargo eletivo?

WF – Eu não gosto de trabalhar com hipóteses. A única vez que pareceu factível isso foi há muitos anos, quando eu estava inclusive em uma militância político-partidária através do meu partido, à época o PMDB, e trabalhando também a questão do Observador Político juntamente com o deputado Laíre Rosado. Surgiu uma oportunidade para disputar a condição de um mandato na Câmara Municipal de Mossoró. Mas o meu perfil, tanto naquele momento quanto agora, estava muito preso à questão educacional e não dava para misturar as coisas. E eu fiz uma opção pela política universitária. Eu não posso dizer dessa água não beberei. Eu diria que não está nos meus planos imediatos.

OM – Como o senhor está vendo o quadro sucessório estadual?

WF – Eu acho que o quadro carece ainda de uma melhor definição. Temos três candidaturas postas e os próprios números das pesquisas eleitorais demonstram que um grande contingente do eleitorado ainda não se definiu. Há uma proposta de mudanças nas postulações. O chamamento do deputado Henrique Eduardo Alves para compor a chapa da coligação PMDB-PSDB, na condição de vice-presidente, é uma colocação honrosa para o Estado. Caso isso venha a acontecer, coroa a vida pública de um deputado jovem que certamente honrou todos os seus mandatos parlamentares e daí o seu espaço nacional conquistado. Com certeza, mudará o quadro por completo. O governador Fernando Freire, recém-assumido, demonstrou ao longo dos sete anos e meio uma capacidade imensa de articulação. Mostrou que conta com a sua diplomacia, que lhe peculiar, mas com a firmeza de propostas, de compromissos. Merece a confiança da coligação da qual faz parte. Acredito que isso venha a trazer modificações sensíveis no quadro, assim como os outros postulantes, o senador Fernando Bezerra, que tem uma vida de êxito, tanto na vida profissional quanto na empresarial e na vida política. Afinal de contas, até bem pouco tempo foi ministro de Estado e hoje é presidente da CNI. Há também a ex-prefeita Wilma de Faria, que demonstrou uma coragem muito grande, mas que lhe falta estrutura e um quadro de formação de chapa de vice-governador, de senadores e deputados. Parece-me que isso reduz bastante as suas possibilidades de sucesso. Mas política é como futebol, é uma caixinha de surpresas. Política não tem lógica, mas também não tem segredos. Talvez, depois que os atores recebam os seus papéis, fique mais fácil fazermos uma análise mais aprofundada sobre o quadro.

OM – O espaço está aberto para as sua considerações finais.

WF – Agradecimento a esse espaço concedido, em primeiro lugar para a universidade, que é o nosso maior lema. Em segundo, a Abruem, que está dando essa dimensão nacional a Uern e à minha pessoa enquanto seu reitor.