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Porre feminino

MÁRCIO ALEXANDRE
Da Redação

Imaginável até bem pouco tempo, a presença do alcoolismo entre as mulheres vem crescendo a cada dia. A preocupação é grande, já que o internamento de uma pessoa do sexo feminino causado por álcool em clínicas para reabilitação de drogados já vem se tornando freqüente.

A Casa de Saúde São Camilo de Lellis, especializada no atendimento psiquiátrico, conta atualmente com 300 pacientes. Destes, 5% são de pessoas com problemas de alcoolismo e 1% é de mulheres.

Micheline Fernandes, assistente social, e Tatiana Fernandes, psicóloga, mostram-se preocupadas com o crescimento da presença do álcool entre as mulheres. "Os grandes problemas do alcoolismo é que os doentes não seguem o tratamento e poucos são os que o consideram como uma doença que realmente é", destacam.

O impacto do alcoolismo é maior entre pessoas do sexo feminino por conta do preconceito. "Alguns aspectos são anotados. "A nossa sociedade é muito machista e geralmente na família quem bebe é o homem; e nos casos de pais separados, geralmente quem fica com os filhos é a mãe", analisam.

Para a família, o fato de o alcoólatra ser mulher não aumenta ou diminui o sofrimento. "Nem mesmo com os filhos o impacto é maior. Apenas o preconceito é maior e aí podem surgir outras complicações", atesta a psicóloga e assistente social.

Tatiana revela que o alcoolismo pode ser oriundo da associação entre questões biológicas, psicológicas e sociais, onde em determinado caso um desses aspectos pode ser preponderante ou não.

Se entre os jovens do sexo masculino a entrada no vício do álcool ocorre às escondidas, entre as garotas o sigilo é ainda maior. Para muita gente, um rapaz beber e fumar é sinal de que ele está ficando homem. No caso da mulher, o preconceito fala mais alto.

Não há um fator comum para que todos os alcoólatras iniciem no vício. O certo é que, na maioria das vezes, começa na adolescência. "Eventos sociais, amigos juntos, os jovens buscando auto-afirmar-se e encontram no álcool uma referência para isso", diz Tatiana Fernandes.

"O alcoolismo não tem cura". A afirmativa, em tom de tristeza, é da assistente social Micheline Fernandes. "Não podemos considerar como cura se o alcoólatra não pode ficar perto de bebidas, se é preciso que ele se abstenha do consumo. Há uma dependência química muito grande".

Exemplo disso é que uma das pacientes a ser entrevistadas pela reportagem de O Mossoroense já vinha num estágio de recuperação muito grande e, no dia agendado para a conversa, quarta-feira passada, ele voltou ao hospital, após uma recaída.

Tatiana Fernandes acredita que o fato de ser uma droga lícita contribui para que o álcool seja bastante consumido. "O incentivo ao consumo entre nós é muito grande. Por onde a gente olha há propaganda de bebida, em qualquer evento que se realize a bebida está presente, numa comemoração familiar, num jogo de futebol, enfim, em quase todos os locais", define a psicóloga.

O alcoolismo é um problema que gera outros grandes problemas. "Quando há um alcoólatra, a família toda adoece. Todos passam a sentir os seus efeitos, sem, contudo, ter acesso ao prazer que ela proporciona apenas a quem está alcoolizado", argumenta Micheline Fernandes.

A psicóloga e a assistente social ressaltam a importância da família estar junta e unida para ajudar ao dependente químico, seja drogado ou alcoólatra. "Essas pessoas têm uma carência muito grande e dificuldades de convivência, por isso é preciso que se tenha paciência com elas", aconselham.

Outro fato que ajuda na recuperação é a pessoa buscar a crença num deus. "Não é a busca por uma religião, mas a crença num ser superior, independente da religião que se escolha",

 

   

Filhos saem de casa e professora abandona o vício

Foi necessário que uma ameaça se tornasse realidade para que a professora Maria (nome fictício), 50 anos, se desse conta que o álcool estava destruindo a sua vida. Em todos os sentidos.

Maria bebeu a primeira vez aos 18 anos. Poucos goles, mas o suficiente para despertar a necessidade inconsciente de ingestão, anos mais tarde, de doses cada vez maiores de álcool.

Em 1990, quando perdeu o pai – um pouco depois de perder o marido – a professora passou a buscar refúgio na bebida. Toda vez que lembrava da perda, ficava triste e bebia. "Bebia escondido, já que tenho dois filhos e tinha medo que eles descobrissem", lembra.

Como os porres foram ficando cada vez mais freqüentes, tornou-se impossível manter o segredo por muito tempo. "Quando eu já estava me tornando alcoólatra e bebendo sempre mais, meus filhos começaram a ficar tristes, a enfrentar problemas. Eles tinham vergonha até de me apresentar às suas namoradas", rememora.

Um dia, porém, Maria acordou e teve uma triste notícia. Garrafa de cachaça ao lado da cama e um bilhete. Os filhos, que ameaçam ir para a casa dos avós caso ela continuasse bebendo, cumpriram a promessa. "Essa foi a pior coisa que o álcool trouxe para mim. Não cheguei ao chamado fundo do poço porque não bebia em bares, por exemplo, mas isso me marcou bastante", afirma.

A professora tem um irmão que bebe desde adolescente. Um dia, uma equipe do Alcoólicos Anônimos (AA) foi à sua casa oferecer ajuda para o seu irmão. "Me interessei e passei a freqüentar. Hoje, me sinto muito bem e alerto as pessoas para que nunca tomem o primeiro gole", afirma, convicta. Há 8 anos Maria não bebe. Não deverá beber mais. Uma certeza ela tem: não é o álcool que lhe oferecerá o conforto necessário na hora das perdas.