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Josivan
Barbosa
De família humilde,
Josivan Barbosa Menezes Feitosa, 45 anos, traz uma história
de vida marcada por sofrimento e superação. Natural
da localidade rural de Apanha Peixe, Caraúbas/RN, veio
para Mossoró no ano de 1975. Uma vez instalado na cidade,
chegou a trabalhar como camelô, embalador em supermercado
e faxineiro na então Escola Superior de Agricultura
de Mossoró (ESAM), atual Universidade Federal Rural
do Semi-Árido (UFERSA) onde hoje atua como reitor. Acolhido
por Mossoró, Josivan formou família, é casado com a
advogada Maria Ariget Menezes e tem dois filhos, Bruno
e Renata, de 14 e 17 anos, respectivamente. Nesta entrevista
acompanhe o relato de uma vida difícil, mas lapidada
com estudo e perseverança.
ADRIANA MORAIS
adriana.morais20@hotmail.com
O Mossoroense -
O senhor tem uma bonita história de vida. Soube que
começou na Escola Superior de Agricultura de Mossoró
(ESAM) como faxineiro. Poderia nos contar como foi essa
vivência desde a sua infância até se tornar reitor de
uma instituição federal?
Josivan Barbosa
- Nasci numa família de onze filhos e meu pai era
bóia-fria, e como todos sabem um bóia-fria não tem um
metro quadrado de terra e presta serviço só quando aparece
alguma coisa. Já a minha mãe fazia vassoura de palha
para vender. Nossa situação financeira era muito difícil
e a minha família não era apenas pobre, ela era extremamente
pobre. Morávamos num pedacinho de terreno numa casa
de taipa, que tinha as portas e janelas de talo de carnaúba.
OM - Quando veio
para Mossoró?
JB - Vivi com
meus pais até os nove anos de idade em Apanha Peixe,
na cidade de Caraúbas.
Tive a sorte de uma
irmã minha vir para Mossoró. Depois de se formar e casar,
ela me convidou para morar com ela. Para se ter uma
idéia de como nossa situação era difícil, para vir embora
para Mossoró, eu e minha mãe andamos 18 km para chegarmos
em Apodi e pedirmos dinheiro ao meu padrinho para ele
me dar uma muda de roupa.
OM - Ao chegar aqui,
o senhor começou logo a estudar?
JB - Chegando
aqui eu fui estudar no Mobral, antigo Movimento Brasileiro
de Alfabetização. Lá só estudavam pessoas adultas e
apenas uns três dias. Depois disso, fui estudar com
uma professora particular, no bairro Boa Vista. Cheguei
aqui em setembro de 1985 e fiquei com essa professora
até o final do ano. No ano seguinte fui estudar no Educandário
Presidente Kennedy e em seguida no Colégio Estadual
de Mossoró, onde concluí os estudos e prestei vestibular
para Agronomia na Esam.
Mas, no ano anterior
para fazer o vestibular eu não tinha renda alguma e
fui trabalhar de camelô, no Mercado Central. Como não
ganhava muito dinheiro lá, fui trabalhar em um supermercado.
Passei umas semanas por lá e pedi no colégio para estudar
com horário intermediário, das 10h às 14h. Chegava cedinho,
às 5h da manhã todos os dias para arrumar, embalar e
entregar e ficava até a hora de ir para a escola. Às
14h, eu voltava para o supermercado e ficava até 10
horas da noite. Mas, eles lá não aceitaram e disseram
que só estuda quem tem condições e quem não tem vai
trabalhar. Saí de lá e fui trabalhar vendendo malha
para poder pagar um cursinho para mim. Estudei, passei
no vestibular para Agronomia na Esam e fui morar na
vila acadêmica, mas mesmo assim não tinha dinheiro para
me manter.
OM - Foi quando
começou a trabalhar como faxineiro?
JB - Sim. Fui
pedir ajuda ao diretor da época, Vingt-un Rosado. E
ele me conseguiu uma bolsa, onde eu ganhava o valor
de 50 reais para varrer, arrumar e ficar responsável
para fechar e abrir a diretoria acadêmica. Eu executava
tarefas numa espécie de zelador e vigia. Permaneci um
ano nessa situação. Quando foi no segundo ano do curso,
fiz concurso para ser monitor de Química e em seguida
fui estagiar num colégio do Estado.
OM - O que o senhor
fez quando terminou o curso?
JB - Quando
terminei o curso de Agronomia, passei quinze meses estudando
para fazer o concurso para professor de Química na Esam,
em 1987. Assim que passei para ser docente, tive como
meta fazer mestrado. Ainda passei dois anos lecionando
e saí para fazer mestrado em Minas Gerais. Retornei
a Mossoró e logo depois fui fazer doutorado também em
Minas Gerais, onde terminei com um tempo mais curto,
de dois anos e meio. Voltei a Mossoró em 1996 e fui
convidado pelo diretor da época, João Weine, para colaborar
com a administração dele. Primeiramente como coordenador
do curso de mestrado e depois como coordenador de pesquisa
e pós-graduação. Fiquei nessa função até 2003, quando
me candidatei a diretor da Esam e fiquei até 1° de agosto
de 2005. Neste ano, conseguimos transformar a Esam em
Universidade e fiquei como diretor e reitor pro tempore
até dia 4 de agosto deste ano, quando fui nomeado reitor
da Ufersa.
OM - Recentemente,
um candidato oposicionista da última eleição entrou
na Justiça para tentar impugnar sua posse como reitor
da Ufersa. Como se deu esse impasse?
JB - Esse foi
um momento triste dentro da administração da Universidade,
pois esperávamos que nossos colegas opositores tivessem
espírito democrático, respeitassem o resultado das urnas,
mas me surpreendi quando um candidato que ficou em segundo
lugar fez de tudo pedindo a um juiz que tirasse meu
nome da lista e colocasse o dele. Até então, a gente
tinha impressão de que ele tinha espírito democrático,
mas não, ele tinha era sede de poder. É muito difícil
você assumir os órgãos públicos quando se tem sede de
poder. Você tem que ter sede para prestar um bom serviço
à sociedade. Um reitor é um servidor como qualquer outro
numa instituição.
OM - Em apenas três
anos a Ufersa passou por grandes avanços. Primeiramente
deixou de ser Escola Superior com a oferta de apenas
dois cursos para se tornar Universidade Federal e já
disponibiliza 11 cursos. O senhor, como reitor pro tempore
e agora iniciando o primeiro mandato como reitor, fez
parte desse processo. Qual sua avaliação desse impulso
repentino?
JB - A Ufersa
tem só três anos de existência e está em construção.
Eu consegui conscientizar a comunidade acadêmica de
que ela tinha que ampliar seu raio de atuação. Até então,
ela só tinha atividade na área de ciências agrárias
e agora ela já abarca as áreas de engenharia e sociais
aplicadas. Tenho lutado muito junto ao Conselho Universitário
para aprovar esses projetos de criação de novos cursos
de graduação, mestrado e doutorado. Nós temos dentro
da Universidade uma oposição que é contínua e é contra
a expansão, o crescimento. Temos lutado e graças a Deus
temos tido sucesso e quem ganha com isso é a sociedade.
Antes a Ufersa oferecia 220 vagas por ano e agora já
vamos oferecer cerca de 1.500 vagas por ano. Já é um
quantitativo razoável, mas pretendemos aumentar ainda
mais essa oferta. Porém, é um trabalho que deve ser
feito paulatinamente para não haver precipitação.
OM - Como está sendo
essa expansão nos outros municípios?
JB - Estamos
concluindo agora a construção do campus de Angicos e
este é o primeiro prédio de expansão da Universidade
no Estado. É importante lembrar que o dinheiro da construção
da sede de Angicos não é o mesmo destinado ao campus
de Mossoró. Como a verba não é dividida, então dá para
você crescer ao mesmo tempo. Nós vamos correr atrás
dessa verba junto ao governo federal, assim como pretendemos
adquirir verba para os campi de Apodi, Limoeiro do Norte
(CE), Pau dos Ferros e Ceará-mirim.
OM - O curso de
Direito, que foi recentemente aprovado pelo MEC, será
implantado brevemente na Ufersa. Como está esse processo?
JB - Eu já fui
sabatinado com relação a esse curso de Direito em pelo
menos 10 instâncias e as perguntas são muito parecidas.
A que os construtores da OAB em Brasília fizeram foi:
Como o senhor explica ter três cursos de Direito em
Mossoró e ainda querer criar outro? A resposta que eu
dei foi a mesma que acontece em Natal: Quantos cursos
de Direito tem a capital? Ela tem pelo menos 10 cursos
uma população de 800 mil habitantes.
Além disso, a demanda
para um outro curso de Direito em instituição pública
é grande. Na Uern pelo menos 35 jovens concorrem a uma
vaga, e 34 ficam de fora. O que vamos fazer é dividir
por dois essa concorrência. Outro aspecto é que o curso
da Ufersa não vai competir com o da Uern. Na verdade,
ele vai ser um complemento para a formação dos nossos
jovens naquelas áreas que não tem potencial na Universidade,
como direito internacional, ambiental, digital, petróleo,
agrário. No momento estamos apenas aguardando a publicação
da portaria pelo ministro e dependemos de uma revista
do MEC a nossas instalações.
OM - Como está a
relação da Ufersa com instituições de outros países?
JB - A internacionalização
de uma universidade só se concretiza se ela tiver qualidade.
Os alunos precisam de mobilidade dentro do seu país
e entre países. Além disso, há uma mobilidade bastante
flexível dos nossos professores nas instituições de
todo o mundo. Daqui a pouco nossos técnicos administrativos
estarão com relações entre universidades também (risos).
Recentemente, a Ufersa criou uma assessoria própria
para trabalhar com os convênios e conexão com outros
países.
OM - Diante de uma
vida tão difícil, qual o segredo para ter chegado onde
o senhor chegou?
JB - O segredo?
Bem, o segredo eu acredito que seja a persistência.
Parece que o sofrimento se transforma numa marca que
ajuda você a lutar. Eu já disse a muitas pessoas que
o filho do homem mais rido lá de Apanha Peixe chamava-se
Bobó, e quando eu não tinha o que comer eu ia para a
casa dele. Hoje, ele é mototaxista. Eu encontro muitos
colegas meus de infância que são carroceiros, flanelinhas.
Isso é uma coisa muito complicada. Você ter que presenciar
essas diferenças. Muitos já vieram aqui me visitar ou
pedir emprego. E me sinto como um batalhador, mas nunca
deixei que minha situação financeira e as dificuldades
que enfrentei pudessem sobrepor com orgulho às outras
pessoas.
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