Mossoró-RN, domingo 14 setembro de 2008

Cineclube Mossoró retoma atividades após empecilhos para manter exibições na Biblioteca Municipal

LEILANE ANDRADE
leilanesandrade@hotmail.com

Em 2003, após uma época sem atuar, os grupos cineclubistas do País voltaram à ativa. No começo do ano passado, o professor do curso de Comunicação Social, da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), Giovanni Rodrigues, entrou em contato com algumas pessoas da cidade que tinham interesse em cinema e fomentou a idéia de criar o Cineclube Mossoró. Desde o início as exibições eram realizadas no auditório da Biblioteca Municipal Ney Pontes Duarte, até a interrupção das atividades em 12 de abril deste ano com a exibição do lendário “Duelo de Titãs”.

Até então, Mossoró contava apenas com esta atividade na propagação da cultura cinematográfica, pois o Cine Pax já havia fechado definitivamente suas portas em janeiro do corrente ano, para desagrado daqueles que contavam com o espaço para seu próprio lazer.

No entanto, por motivos até então entalados na garganta dos participantes do Cineclube, não se sabia ao certo a causa que levou o fim das sessões daquele grupo ávido pelos filmes da indústria cinematográfica dos últimos tempos.

De acordo com o idealizador do Cineclube Mossoró, professor Giovanni Rodrigues, os motivos que levaram o fim das exibições foram infortúnios provocados pela classe política atuante. A primeira dificuldade imposta pela Biblioteca Municipal foi em relação à taxa de manutenção cobrada pelo Cineclube. "Nós estabelecemos uma taxa de um real para cada dia de filme, pois os equipamentos necessários para as exibições eram adquiridos pela diretoria do grupo e claro que não tinha fins mercadológicos, porém, a direção da Biblioteca dizia que isso ia contra seus regulamentos. No cineclube Natal cobra-se dois reais e isso nunca causou problema".

Essa foi apenas a primeira implicação. Em outras ocasiões, as sessões que eram realizadas aos sábados à noite a cada quinze dias, em pelo menos duas vezes tiveram que ser canceladas, pois ao chegarem lá no horário marcado, havia uma outra atividade sendo promovida no local.

O estopim para a insatisfação do grupo e a decisão para o fechamento do Cineclube foram motivados por outra dificuldade imposta pela administração da Biblioteca. Dessa vez em relação ao horário, pois diziam que as exibições não poderiam ser mais aos sábados à noite, uma vez que não tinha ninguém para abrir o auditório e que ficasse responsável pelo local.   

Tudo isso causou desmotivação ao grupo, que foi percebendo a série de dificuldades colocadas pela Biblioteca e que culminou com a interrupção daquela atividade. O estranho de tudo isso, segundo Giovanni Rodrigues, foi a promessa de incentivo no início da criação do Cineclube por parte da classe política atuante, inclusive com divulgação na imprensa local. "Ao contrário do que foi anunciado, pareceu até que não havia mesmo interesse. É preciso que revejam essa questão e abram mais as portas para entidades como essa e não provocar insatisfação", ratificou.    

Em janeiro deste ano, próximo ao dia em que completaria 65 anos, o Cine Pax de Mossoró pôs fim às suas atividades. À época, o proprietário Luiz Pinto, afirmou que o Corpo de Bombeiros havia feito uma série de exigências para que o cinema pudesse continuar a funcionar, como a implantação de um sistema de pára-raios, portas com destravamentos, iluminação de emergência, disposição de extintores, regulação do distanciamento de cadeiras laterais e uma escada de emergência de dois metros de altura.

Muitas dessas reivindicações foram atendidas. No entanto, o problema com as escadas não foi possível ser solucionado. "Não tínhamos como modificar um projeto de 65 anos, projetado pelo maior engenheiro do mundo", declarou Luiz Pinto.

Ademais, outros motivos também corroboraram para a decadência do cinema da cidade, que foi a concorrência desleal da pirataria e a onda de violência que Mossoró vem enfrentando nos últimos tempos.

Atualmente, Mossoró está sem cinema e a única forma de expressão da cultura cinematográfica está sendo promovida através do Cineclube. "É bom lembrar que o Cineclube é diferente de um cinema, pois é um lugar onde os participantes debatem, discutem idéias, experiências e criações. Na verdade, ele é um dinamizador da vida cultural".

O Cineclube Mossoró retomou suas atividades na última sexta-feira, com exibição gratuita no Mossoró West Shopping do curta-metragem "Vida Maria" e da comédia policial "Chumbo Grosso". Para os organizadores da entidade, foi uma satisfação muito grande ter recebido dois convites, quase ao mesmo tempo, para voltarem a atuar na cidade.

De acordo com Jônatas Andrade, o primeiro deles surgiu de uma rede de hotelaria localizada no centro da cidade, que provavelmente em duas semanas, será palco das atividades do Cineclube Mossoró. Há duas semanas, quando a parceria com o novo espaço já estava definida, o Mossoró West Shopping fez a proposta que também foi acatada pelos organizadores.

"Foi muito bom para a gente ter duas opções para desenvolver as atividades do Cineclube, principalmente depois dos problemas que enfrentamos. As sessões no shopping ainda não estão definidas se vão ser semanais ou quinzenais. Ainda temos algumas pendências para resolver, mas o importante é que o Cineclube Mossoró está de volta", salientou Jônatas Andrade.   

ENTREVISTA

O Mossoroense  - Como você avalia a cultura praticada na cidade atualmente?

Giovanni Rodrigues - Mossoró vive no marasmo de uma cultura oficial, que só acontece em determinadas épocas do ano e é muito institucional. É preciso que a sociedade civil possa se manifestar culturalmente também, sem que haja um controle de suas atividades. Não se pode exercer a cultural num local sob a tutela de alguém. Isso é um paradoxo, porque a cultura por si só tem que ser livre para suscitar a reflexão, com debate de idéias em espaços públicos disponíveis para as pessoas difundirem sua cultura.

Eu não vejo modernidade nenhuma na cultura praticada pela cidade, muito pelo contrário, vejo um grande atraso tanto dos governos quanto da própria população que se omite diante desse controle.     

O Mossoroense  - De que forma essa realidade pode ser melhorada?

Giovanni Rodrigues - A parte da política cultural oficial do município precisa abrir mais possibilidades, incentivando, sem com isso restringir as atividades. É necessário utilizar os cofres públicos de maneira responsável, de modo a contribuir para que a sociedade tenha mais possibilidade de criar e desenvolver a cultura. A cidade de Mossoró ainda está muito isolada. É estranho vê-la com essa pujança econômica e riqueza toda e não ter um cinema. Há aqui uma esterilidade cultural muito grande, porque fora a cultura oficial, não existe outros tipos de manifestações.

Mossoró enfrenta um problema seriíssimo. Temos o Teatro Lauro Monte fechado quase o ano todo, um auditório excelente na Biblioteca Municipal Ney Pontes Duarte que não se pode usar e outros prédios que se encontram inativos. Os poderes públicos têm deveres e obrigações para com a sociedade. Acho muito questionável essa política onde tudo é percebido ou manipulado por aqueles que estão no poder.

Está mais do que na hora das autoridades públicas virem discutir publicamente com os interessados em propagar a cultura, dizendo com que maneira elas pretendem atender a demanda cultural da cidade. Essa é uma questão que espero que elas se manifestem e as respondam.

 

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