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Cineclube
Mossoró retoma atividades após empecilhos para manter
exibições na Biblioteca Municipal
LEILANE ANDRADE leilanesandrade@hotmail.com
Em 2003, após uma época
sem atuar, os grupos cineclubistas do País voltaram
à ativa. No começo do ano passado, o professor do curso
de Comunicação Social, da Universidade do Estado do
Rio Grande do Norte (UERN), Giovanni Rodrigues, entrou
em contato com algumas pessoas da cidade que tinham
interesse em cinema e fomentou a idéia de criar o Cineclube
Mossoró. Desde o início as exibições eram realizadas
no auditório da Biblioteca Municipal Ney Pontes Duarte,
até a interrupção das atividades em 12 de abril deste
ano com a exibição do lendário “Duelo de Titãs”.
Até então, Mossoró
contava apenas com esta atividade na propagação da cultura
cinematográfica, pois o Cine Pax já havia fechado definitivamente
suas portas em janeiro do corrente ano, para desagrado
daqueles que contavam com o espaço para seu próprio
lazer.
No entanto, por motivos
até então entalados na garganta dos participantes do
Cineclube, não se sabia ao certo a causa que levou o
fim das sessões daquele grupo ávido pelos filmes da
indústria cinematográfica dos últimos tempos.
De acordo com o idealizador
do Cineclube Mossoró, professor Giovanni Rodrigues,
os motivos que levaram o fim das exibições foram infortúnios
provocados pela classe política atuante. A primeira
dificuldade imposta pela Biblioteca Municipal foi em
relação à taxa de manutenção cobrada pelo Cineclube.
"Nós estabelecemos uma taxa de um real para cada
dia de filme, pois os equipamentos necessários para
as exibições eram adquiridos pela diretoria do grupo
e claro que não tinha fins mercadológicos, porém, a
direção da Biblioteca dizia que isso ia contra seus
regulamentos. No cineclube Natal cobra-se dois reais
e isso nunca causou problema".
Essa foi apenas a primeira
implicação. Em outras ocasiões, as sessões que eram
realizadas aos sábados à noite a cada quinze dias, em
pelo menos duas vezes tiveram que ser canceladas, pois
ao chegarem lá no horário marcado, havia uma outra atividade
sendo promovida no local.
O estopim para a insatisfação
do grupo e a decisão para o fechamento do Cineclube
foram motivados por outra dificuldade imposta pela administração
da Biblioteca. Dessa vez em relação ao horário, pois
diziam que as exibições não poderiam ser mais aos sábados
à noite, uma vez que não tinha ninguém para abrir o
auditório e que ficasse responsável pelo local.
Tudo isso causou desmotivação
ao grupo, que foi percebendo a série de dificuldades
colocadas pela Biblioteca e que culminou com a interrupção
daquela atividade. O estranho de tudo isso, segundo
Giovanni Rodrigues, foi a promessa de incentivo no início
da criação do Cineclube por parte da classe política
atuante, inclusive com divulgação na imprensa local.
"Ao contrário do que foi anunciado, pareceu até
que não havia mesmo interesse. É preciso que revejam
essa questão e abram mais as portas para entidades como
essa e não provocar insatisfação", ratificou.
Em janeiro deste ano,
próximo ao dia em que completaria 65 anos, o Cine Pax
de Mossoró pôs fim às suas atividades. À época, o proprietário
Luiz Pinto, afirmou que o Corpo de Bombeiros havia feito
uma série de exigências para que o cinema pudesse continuar
a funcionar, como a implantação de um sistema de pára-raios,
portas com destravamentos, iluminação de emergência,
disposição de extintores, regulação do distanciamento
de cadeiras laterais e uma escada de emergência de dois
metros de altura.
Muitas dessas reivindicações
foram atendidas. No entanto, o problema com as escadas
não foi possível ser solucionado. "Não tínhamos
como modificar um projeto de 65 anos, projetado pelo
maior engenheiro do mundo", declarou Luiz Pinto.
Ademais, outros motivos
também corroboraram para a decadência do cinema da cidade,
que foi a concorrência desleal da pirataria e a onda
de violência que Mossoró vem enfrentando nos últimos
tempos.
Atualmente, Mossoró
está sem cinema e a única forma de expressão da cultura
cinematográfica está sendo promovida através do Cineclube.
"É bom lembrar que o Cineclube é diferente de um
cinema, pois é um lugar onde os participantes debatem,
discutem idéias, experiências e criações. Na verdade,
ele é um dinamizador da vida cultural".
O Cineclube Mossoró
retomou suas atividades na última sexta-feira, com exibição
gratuita no Mossoró West Shopping do curta-metragem
"Vida Maria" e da comédia policial "Chumbo
Grosso". Para os organizadores da entidade, foi
uma satisfação muito grande ter recebido dois convites,
quase ao mesmo tempo, para voltarem a atuar na cidade.
De acordo com Jônatas
Andrade, o primeiro deles surgiu de uma rede de hotelaria
localizada no centro da cidade, que provavelmente em
duas semanas, será palco das atividades do Cineclube
Mossoró. Há duas semanas, quando a parceria com o novo
espaço já estava definida, o Mossoró West Shopping fez
a proposta que também foi acatada pelos organizadores.
"Foi muito bom
para a gente ter duas opções para desenvolver as atividades
do Cineclube, principalmente depois dos problemas que
enfrentamos. As sessões no shopping ainda não estão
definidas se vão ser semanais ou quinzenais. Ainda temos
algumas pendências para resolver, mas o importante é
que o Cineclube Mossoró está de volta", salientou
Jônatas Andrade.
ENTREVISTA
O Mossoroense -
Como você avalia a cultura praticada na cidade atualmente?
Giovanni Rodrigues
- Mossoró vive no marasmo de uma cultura oficial, que
só acontece em determinadas épocas do ano e é muito
institucional. É preciso que a sociedade civil possa
se manifestar culturalmente também, sem que haja um
controle de suas atividades. Não se pode exercer a cultural
num local sob a tutela de alguém. Isso é um paradoxo,
porque a cultura por si só tem que ser livre para suscitar
a reflexão, com debate de idéias em espaços públicos
disponíveis para as pessoas difundirem sua cultura.
Eu não vejo modernidade
nenhuma na cultura praticada pela cidade, muito pelo
contrário, vejo um grande atraso tanto dos governos
quanto da própria população que se omite diante desse
controle.
O Mossoroense -
De que forma essa realidade pode ser melhorada?
Giovanni Rodrigues
- A parte da política cultural oficial do município
precisa abrir mais possibilidades, incentivando, sem
com isso restringir as atividades. É necessário utilizar
os cofres públicos de maneira responsável, de modo a
contribuir para que a sociedade tenha mais possibilidade
de criar e desenvolver a cultura. A cidade de Mossoró
ainda está muito isolada. É estranho vê-la com essa
pujança econômica e riqueza toda e não ter um cinema.
Há aqui uma esterilidade cultural muito grande, porque
fora a cultura oficial, não existe outros tipos de manifestações.
Mossoró enfrenta um
problema seriíssimo. Temos o Teatro Lauro Monte fechado
quase o ano todo, um auditório excelente na Biblioteca
Municipal Ney Pontes Duarte que não se pode usar e outros
prédios que se encontram inativos. Os poderes públicos
têm deveres e obrigações para com a sociedade. Acho
muito questionável essa política onde tudo é percebido
ou manipulado por aqueles que estão no poder.
Está mais do que na
hora das autoridades públicas virem discutir publicamente
com os interessados em propagar a cultura, dizendo com
que maneira elas pretendem atender a demanda cultural
da cidade. Essa é uma questão que espero que elas se
manifestem e as respondam.
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