CLÁUDIO MONTEIRO
 
 ATUALIZAÇÕES ÀS QUINTAS
 


Caern desrespeita consumidores 

O caso que vou relatar aconteceu e acontece freqüentemente em Natal, mas não é muito diferente de casos que também ocorrem em Mossoró e região. O cidadão é tratado pela companhia concessionária de distribuição de água, com absoluto descaso e falta de respeito. A Caern – Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte – é administrada pelo Estado e o governo recém-empossado já nomeou um novo presidente para o órgão, Jaime Calado. Esperemos que ele modifique o atual quadro de desrespeito aos consumidores. 

Em minha residência, tenho um consumo médio, e histórico, de 12 m3, correspondentes a 12 mil litros, de água por mês. Como outros cidadãos, mesmo não consumindo sou obrigado a pagar 20 m3, a título de “tarifa mínima”, mais 50% do valor por uso da rede de esgoto, o que dá um total mensal de 38 reais. Até aí tudo bem. Na conta do mês de dezembro fui surpreendido com um valor de 140 reais, com um registro de consumo completamente irreal de 51 mil litros de água. Irreal, sobretudo, levando-se em conta que são apenas duas pessoas em casa!

Antes de formalizar uma reclamação, pesquisei com vizinhos: entre eles, famílias de 4 a 6 pessoas, consomem entre 10 e 24 m3, ou seja 10 a 24 mil litros por mês, com valores de conta variando entre 25 e 45 reais. Até mesmo algumas pousadas têm contas menores da que me foi cobrada. Uma com 11 quartos paga entre 70 e 80 reais, outra com 10 quartos entre 80 e 90 reais. No dia 20/12, uma sexta-feira, fui ao escritório da Caern do meu bairro (Ponta Negra), conforme orientado na própria conta. Estava fechado desde as 14h por “motivo de confraternização”. O comunicado na porta indicava também que sábado não há expediente e que segunda-feira (23) o funcionamento seria “normal” até 17h30 e na terça (24) como era véspera de Natal, que o funcionamento seria somente até 11h30. Muito bem, resolvi voltar segunda-feira. Atravesso a cidade e qual não é minha surpresa, bati com a porta na cara: às 16h o escritório já estava fechado... Como se o tempo e o suado dinheiro do cidadão fossem brinquedos de palhaço. 

No dia 30/12, logo cedo, voltei ao escritório e finalmente o encontrei aberto. Fui atendido pelo funcionário, Sr. Edvan da Costa, fiz o relato e solicitei o ressarcimento do valor e a troca do hidrômetro, que evidenciava estar com defeito. Depois de muita desconfiança ele disse “é difícil a companhia ressarcir o valor (pago religiosamente através de débito automático no banco) porque se o medidor marcou é porque a água passou”.

Absurdamente, para um órgão público do qual toda a população é consumidora-compulsória, a Caern não tem um formulário específico em que o cidadão preencha de punho sua reclamação e fique com uma via protocolada do que está reclamando. “A reclamação é verbal, não tem problema”. Revoltado, pedi para falar com o chefe do escritório: “Ele só volta depois das festas de ano-novo”.  A muito custo, consegui que o funcionário anotasse minhas queixas e carimbasse, no verso de um protocolo que serve para quem solicita uma nova ligação ou serviço. Dois funcionários foram então enviados e vasculharam meu modo de vida e todas as instalações hidráulicas. Caixa d’água, lavanderia, cozinha, jardim, banheiros, enfim toda a intimidade de meu lar. Comprovado que não havia nenhum vazamento interno e depois de insinuações do tipo “alguém pode ter deixado uma torneira aberta” ou “será que o senhor não gastou um pouquinho a mais?” indignado, respondo: 51 mil litros são quase 4 meses e meio do consumo médio da minha casa, por gentileza substituam o medidor! Como se o cidadão fosse sempre o culpado, o criminoso, e a Caern nunca errasse, e que um simples e antigo hidrômetro mecânico fosse infalível, eles respondem que vão colocar um novo medidor em paralelo, ”para ver se o antigo está ou não alterado”. 

Muito bem, no primeiro dia o velho hidrômetro mediu mais do que o novo, no segundo dia marcou menos, alternando descompasso entre os dois e ao cabo de uma semana registrou consumo de 2 m3 contra 4 m3 do novo, provando, clara e incontestavelmente o que eu vinha afirmando desde o início: que estava desregulado. No dia 7/1, comparece à minha casa o próprio chefe do escritório da Caern, Sr. Rui Barbosa. Satisfeito, penso que finalmente vão reconhecer a culpa da concessionária, substituir a peça e providenciar o ressarcimento, como seria lógico e justo. Pasmem: o encarregado primeiro tenta me convencer a continuar com o medidor defeituoso alegando que “afinal ele mediu menos que o novo”, para depois - diante de minha coerente recusa em ficar com o equipamento desregulado - mandar o ajudante substituir o hidrômetro quebrado, porém, mesmo diante das provas irrefutáveis da cobrança indevida, afirmar “a Caern não vai lhe ressarcir o valor já pago”...

Um desrespeito ao cidadão e uma atitude absolutamente indecente! Inadmissível após mais de uma década de vigência do Código de Defesa do Consumidor. Se você está sofrendo, ou sofreu, não importa, o mesmo constrangimento, faça como eu estou fazendo: denuncie em jornais, Internet e nas rádios e solicite o ressarcimento através do Procon municipal ou da ADECON - Associação de Defesa do Consumidor. Se o valor for alto, vá direto ao Juizado de Pequenas Causas. 

Envolvida em outras denúncias, a Caern acumula dívidas da ordem de 340 milhões de reais, que tanto podem ser  oriundas de má gestão administrativa, como de desvios de recursos, como da tentativa de desestruturar a estatal visando sua privatização - filão de lucro certo que interessa a grupos nacionais e internacionais, que têm comprado empresas de eletricidade e de água em todo o Brasil. A governadora Wilma de Faria promete fazer uma auditoria financeira no órgão. Tem que realizar, também, uma mudança de filosofia onde o cidadão seja respeitado e a concessionária assuma os erros, como qualquer empresa responsável, e repare os danos e prejuízos!!

Ótima semana para todos - fique atento: a Caern está dando nó em pingo d’água para cobrar valores indevidos - quinta-feira (23/1) eu volto. Traduzindo a Economia para o seu dia-a-dia!

 

CLÁUDIO MONTEIRO

EMAIL: claudiomonteiro@natalja.com.br

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Mossoró-RN, quinta-feira, 16 de janeiro de 2003