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Entrevista

João Sabino

João Sabino Contador e professor aposentado da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), o empresário João Sabino de Moura é um exemplo da perspectiva proporcionada pelo segmento turístico na região.

Sabino, que possui uma rede composta por quatro hotéis, e prestes a inaugurar um quinto estabelecimento, disse em entrevista a O Mossoroense que, mesmo com a falta de apoio do poder público, ele continua sendo um entusiasta do turismo. Segundo ele, o turismo em Mossoró, apesar de caminhar lentamente, tem registrado um progresso, que no seu entendimento tende a ser dessa forma, porque assim o segmento cresce de forma ordenada

O Mossoroense – O que levou o sr. a abandonar a profissão de contador para se dedicar ao setor hoteleiro?

João Sabino -  Quando eu trabalhava como contador, eu participei da fundação do Sindicato dos Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares de Mossoró, e sempre fiz um trabalho integrado à nossa categoria. E a partir disso tive oportunidade de rodar o Brasil e América Latina toda, participando de congressos e convenções e achei o turismo um serviço interessante e comecei a estudar. Quinze anos antes de colocar o meu primeiro hotel eu já vinha estudando o turismo. Não como um estudioso profundo, mas com aquela curiosidade de turista. Naquela época eu já vislumbrava um local no centro da cidade onde eu poderia instalar o meu hotel. O imóvel não era meu, mas já sonhava com aquele local.

OM – Onde era o local?

JS – Era uma casa vizinha à empresa F.Souto.

OM – Esse local ainda existe?

JS – Não. A casa foi demolida há uns três anos. Eu tinha ali como o local ideal.

OM – Continua sendo um bom ponto para a instalação de um hotel?

JS – Não. Hoje, um hotel localizado como aquele, no centro e sem estacionamento, não é um bom local. Mas quando eu comecei a imaginar, há trinta anos, era um bom local.

OM – E quando surgiu o primeiro hotel da sua rede?

JS – O nosso primeiro hotel, nós iniciamos a construção em julho de 86. E começou a funcionar no dia 1º de março de 1990.

OM – E como foi o início?

JS – Nós tínhamos inicialmente para funcionar dez apartamentos, com algumas dificuldades e em conclusão final para equipar esses dez apartamentos. Nós tínhamos uma meta naquele ano, para que esse hotel chegasse em 2000 com 80 apartamentos. E essas expectativas foram superadas, quando em 97 houve uma concorrência publicam de alguns hotéis no Estado, e eu concorri a três hotéis, dos quais, dois eu fui contemplado.

OM – Quais são os hotéis?

JS – O Hotel Serrano de Martins e o Hotel Olho D’água do Milho, que hoje já não pertence mais a minha administração. E a partir daí foi abrindo o leque dessa rede de hotéis. Em  99, nós fizemos um contrato de locação com um hotel em Natal, que é o terceiro hotel da rede. E no final do ano 2000, nós demos início à aquisição do Hotel Lajedo em Apodi, que assim como o nosso hotel em Natal está muito bem, com uma ocupação muito boa. E por último, nós estamos com o quarto hotel em construção e deverá ficar pronto em julho deste ano.

OM – E como será esse novo hotel?

JS – É um hotel bem mais estruturado, com um projeto mais cuidado, até porque, muitos erros que nós já cometemos, estamos cometendo menos.  

OM – Como o sr. analisa a atividade turística?

JS – Eu acho a atividade turística muito interessante. Ela está crescendo, apesar de aparentemente ocorrer algumas baixas. Muitos não acreditavam em Mossoró, eu particularmente acredito no turismo. Principalmente no turismo executivo, no qual eu estou inserido. Estou confiante, sou otimista e acho que o turismo ainda tem muito a crescer.

OM – O senhor foi um dos pioneiros na criação de um trade turístico em Mossoró. Hoje, o sr. acredita que houve avanços no segmento?

JS – Houve avanços, inclusive, no que diz respeito à conscientização da sociedade. Mas não ocorre um avanço sistemático.

OM – O poder público tem apoiado o turismo?

JS – Não tem ocorrido um apoio do poder público. Existe muito discurso e pouca ação no que diz respeito ao poder público. Rubens Coelho e eu fizemos um trabalho há doze anos, promovendo cursos e realizando eventos, mas a coisa vem andando lentamente. Até porque é uma questão de cultura, e não é do dia para a noite que se muda uma filosofia de vida. Eu acredito que aquilo que muda muito rápido, não tem um alicerce de sustentação. Hoje a sociedade sabe o que é turismo. Claro, muitos programas foram feitos e muito ainda terão que serem feitos para incrementar isso, dentro de uma estrutura e também a sociedade cooperar, acompanhar e cobrar dos governantes e da iniciativa privada, que tem muitos erros.

OM – Qual a expectativa do trade turístico de Mossoró com relação a mudança de governo estadual e federal?

JS – Com essas alterações, desde o governo estadual ao federal, nós sofremos uma baixa com isso. Quer queira, quer não a empresa pública ainda tem um peso nos seus investimentos. Por mais que se tenha privatizado algumas empresas, ainda existe muito orçamento na área pública. Por uma força da legislação eleitoral, esses recursos não podem ser executados no final de um governo, nem no início do outro, porque tem toda uma máquina para se avaliar, estudar, além dos projetos, convênios e novas concorrências. Isso está tudo parado. Há uma descontinuidade dos programas até começarem outros. Eu acredito na ação dos novos ministros e acredito no novo governo, sem questões partidárias.

OM – Como está a atuação do Sindicato dos Hotéis, Bares e Restaurantes de Mossoró?

JS – Está muito lenta. O nosso sindicato sempre foi muito pequeno, com poucos colaboradores, por isso não tem muitas ações.

OM – A falta de qualificação, principalmente no setor alimentação, sempre foi um ponto bastante criticado em Mossoró. Hoje essa realidade é diferente?

JS – Não é muito diferente não. Houve melhorias de pequeno porte.

OM – Por que isso ocorre?

JS – É a própria questão de mercado. Muita gente pensa que restaurante é um ramo fácil de abrir, mas mantê-lo aberto, com um serviço de qualidade é difícil. É um ramo complexo. Eu considero a cozinha uma indústria complexa. E a mão-de-obra necessita de ser mais incentivada no futuro. Com o sindicato nós fizemos alguns cursos e treinamentos, mas não há uma continuidade.

OM – A prefeita Rosalba Ciarlini tem dito em seu discurso que o turismo vem sendo uma das prioridades da administração. O setor tem avançado nesse sentido?

JS – Em se tratando de uma avaliação da prefeita Rosalba Ciarlini, eu posso dizer até porque tenho acompanhado esses treze anos militando no turismo, algumas ações não estão em sintonia com o discurso. Eu considero um  avanço, depois que Nilson Brasil assumiu a Gerência Executiva do Turismo. Eu acho que existe muito mais uma ação do empresário, empreendedor da pessoa entusiasta que é o Nilson Brasil. Por parte da prefeitura, nós não vemos os recursos sendo aplicados no turismo. Eu admito que pode até ter a boa vontade, mas os recursos não são visíveis.

OM – O sr. que conhece cada um das regiões do Estado, poderia citar um local que irá se destacar no roteiro turístico do Rio Grande do Norte?

JS – Eu acredito e por isso estou investindo nas serras. Eu tenho um hotel na serra e estou construindo outro porque acredito nesse filão. Pode parecer loucura para alguns, mas para mim parece ser o filé (risos).

OM – O espaço está aberto para as suas considerações finais

JS – Eu agradeço a oportunidade que O Mossoroense nos dá de mostrar o nosso ponto de vista e dar nossa contribuição, além de dizer que estamos abertos aos leitores, aos críticos e a pessoas que quiserem somar com a gente no trade turístico com idéias, porque nós estamos abertos a idéias inovadoras.

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Mossoró-RN, domingo, 19 de janeiro de 2003