Campo santo é violado e Mossoró fica de luto

 Sérgio Oliveira
 Da Redação

O retrato da destruição e agressão aos mortosTristeza, emoção e muita revolta aliados a um sentimento de impotência diante de tamanho absurdo. Este era o quadro vivo que nenhum pintor, por mais talentoso que possa ser, conseguiria imaginar e botar em uma tela. Todas estas palavras ainda são poucas para tentar definir a imagem vista na manhã de ontem no cemitério São Sebastião, em Mossoró, que amanheceu com mais de 150 túmulos violados e depredados.

O que teria acontecido? Um ato de vandalismo, loucura, atitude criminosa? Enfim, seja qual for a definição todos repudiam e querem a punição dos culpados. Começando pela própria prefeitura de Mossoró, responsável pelo campo santo, que pouco ou nada fez antes para garantir o descanso daqueles entes queridos que já deixaram a vida terrena. Nesta edição, O Mossoroense faz um levantamento, dando espaço a todos para que exponham seus sentimentos e responsabilidades. (Mais detalhes na página policial)

Vendas de peças de mármore
geram desconfiança

Em meio à revolta, uma cena chocou mais ainda aquelas pessoas que havia sido vítimas, com o túmulo de um ente querido violado. Logo nas primeiras horas da manhã uma empresa que não foi identificada vendia peças de mármore nas mesmas medidas daquelas que haviam sido quebradas. Eram pedras grandes e pequenas, além de crucifixos.

“Isso nos leva a desconfiar de uma ação criminosa de pessoas que comercializam estes produtos em Mossoró. É muita coincidência aparecerem com peças idênticas e já acompanhados de pedreiros com cimento e instrumento de trabalho”, denunciou revoltado e desconfiado o comerciante Gilson Buarque, residente na rua Venceslau Braz. O próprio secretário Antônio de Castro julgou o caso grave e que será investigado. A equipe de O Mossoroense flagrou as peças prontas no interior do cemitério, mas o responsável por elas sumiu do local.

População reage e psicólogo
analisa possibilidades

Tentar entender o que leva uma pessoa a praticar este ato e o sentimento de revolta das vítimas ocuparam ontem e continuam ocupando todas reportagens. “Eu senti como se meu pai tivesse morrido outra vez”, disse emocionado o jornalista Emery Costa. Para o médico Leodécio Néo, que também foi ao cemitério, o responsável deveria ser internado por ser um verdadeiro psicopata.

O psicólogo José Evangelista de Lima conversou com O Mossoroense e traçou um possível perfil do responsável por esta agressão. “Uma das possibilidades seria o uso de drogas, quando o indivíduo perde a noção da realidade e esquece os limites, passando a pensar que pode tudo”, resumiu.

Outra análise feita é de que pode ainda ser o comportamento de um vândalo, de uma pessoa anti-social. Para o psicólogo, estas pessoas não têm sentimento de valores morais. A última hipótese, que o próprio José Evangelista não acredita, seria uma coisa mais patológica e doentia, ou seja, o prazer de transar com cadáveres.

O BEIJO DO VAMPIRO – Sobre a possibilidade de uma pessoa estar influenciada por cenas vistas na TV, como por exemplo as que são gravadas em cemitérios na novela O Beijo do Vampiro, o psicólogo não acredita que determine, mas de certa forma ajuda.

“Quando a mídia fala muito, por exemplo, em suicídio, alguém predeterminado para tal ato termina manifestando seu desejo por motivação”, concluiu.

Capela havia sido arrombada em
janeiro e nada foi feito

Túmulos quebrados, restos mortais expostos e tudo isso poderia ter sido evitado se a prefeitura tivesse tomado providências preventivas. A conclusão é retirada após as declarações do administrador do cemitério São Sebastião, Péricles Augusto da Câmara Júnior, que dentro das limitações do cargo já havia comunicado aos seus superiores uma invasão recente.

Em janeiro, a capela no interior do cemitério teve a sua porta arrombada e vários objetivos roubados. Até ferramentas de trabalho, como carro de mão, pá e inchadas que eram guardados neste local, foram levadas. Quanto a segurança do local, existia a presença de um vigilante apenas durante o dia. Talvez se o alerta fosse levado a sério e outras pessoas cuidassem do local no período da noite, essa tragédia teria sido evitada.

POSICIONAMENTO – No final da manhã de ontem o gerente de Serviços Públicos, Antônio de Castro, falou sobre o assunto e confirmou que a prefeitura irá arcar com todas as despesas de recuperação dos túmulos. Chocado com o episódio, o secretário disse que isso só pode ser atitude de uma pessoa doente. Ele adiantou que a segurança a partir de agora será reforçada e todas as providências finais serão tomadas logo que a prefeitura receba o resultado dos peritos do Itep. “É um vandalismo que a cidade repudia”, disse Castro.


 

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Mossoró-RN, quarta-feira, 19 de fevereiro de 2003