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Luiz Soares
O
produtor e agrônomo Luiz Soares há anos se dedica à fruticultura
irrigada, cultura que conhece como a pão da mão. À frente da Associação
dos Produtores e Exportadores de Frutas Tropicais Irrigadas (PROFRUTAS),
desenvolve um importante papel como interlocutor dos anseios da
categoria. É responsável também pelo sucesso de um dos principais
eventos do setor: a Expofruits, uma feira que reúne interessados
de todo o país em comercializar nossos produtos. Nessa entrevista
ele fala sobre o ano de 2002 para o setor e quais as perspectivas,
entre outros assuntos polêmicos.
Como foi o ano de 2002 para a fruticultura potiguar?
A safra do ano de 2002 eu considero como sendo uma das melhores e maiores que já tivemos, por que todo mundo sabe das dificuldades que nós tivemos com o advento da mosca branca, que foi uma praga que colocou em xeque toda a nossa capacidade tecnológica de sobrevivência com essa praga.
A praga comprometeu a qualidade do melão?
Não foi só a praga em si como também a virose transmitida pela praga, que levou a que nós perdêssemos qualidade assustadoramente e comprometeu o nome do melão no Rio Grande do Norte.
Como o setor contornou essa situação?
Graças a Deus conseguimos implantar a manta, que é como um plástico, que logo imediatamente após o plantio a planta é coberta e se desenvolve sob essa manta e aos 25 ou 26 dias, quando começa a afloração a gente tem que tirar essa manta. Aí daí, acontece a afloração e assim sucessivamente.
E caso ocorra novamente incidência da mosca?
Havendo incidência da mosca branca, nós teríamos que ter velocidade suficiente para combater o adulto para que ele não se multiplique, que é o grande problema.
Como vocês produtores superaram todos esses problemas?
Houve também a implantação do malchining, que você cobre o solo com um plástico, evitando que a umidade do solo passe para o fruto, diminui a quantidade de água e uma série de outras coisas que somadas a manta fez com que a gente superasse todas as dificuldades, até em produtividade e qualidade.
O dólar também chegou a prejudicá-los?
Eu diria que a gente teve uma sorte muito grande, por que nós começamos a safra, fechamos todos os nossos contratos, com relação ao fornecimento de insumos, considerando o dólar que estava a R$ 2,10. Então, quando a gente fechou toda a safra, tudo o que nós compramos veio com o dólar baixo, ou seja, o custo de produção estava lá embaixo, em consideração ao que veio depois. E, também, no decorrer da safra 2002/2003, houve um estouro do dólar, e, até o euro, que começou a se valorizar muito mais que o dólar, então hoje, não digo financeiramente, mas economicamente e tecnologicamente foi uma das melhores safras que já tivemos.
A safra já foi concluída?
Nós ainda não concluímos nossa safra, por que o controle do Ministério da Agricultura ele considera o ano civil, que vai de janeiro a dezembro, mas o ano agrícola vai de agosto de um ano a abril do outro ano. Então nós só podemos dizer de fato e de direito qual foi a nossa performance no final de abril, quando inclusive termina a parte de exportação, por motivo de clima na Europa, e a costa rica começa a mandar melão, e a gente tem que se aquietar mesmo e curtir essa invernada que chega para perto de nós.
Quais foram as grandes preocupações do segmento em 2002?
Bem, a grande interrogação era se iria persistir a praga da mosca branca, o que causaria uma quebradeira generalizada, por que ela afeta economicamente, em função da qualidade do fruto, que não tem bricks, perde o sabor, e o mundo e nem um consumidor quer isso aí. Então a grande expectativa era se a gente teria condições de superar mais uma grande dificuldade que se apresentou.
O que prevaleceu para que houvesse essa superação?
Eu acredito que prevaleceu a dedicação das pessoas, a responsabilidade dessas pessoas, mesmo que no anonimato. Não estou falando aqui de grandes produtores e exportadores. Estou considerando o produtor rural em si, que é um homem abnegado, dedicado. E, graças a isso, é que nós estamos conseguindo sair dessa safra até com orgulho.
Houve uma queda dos preços no mercado externo?
Não. O mercado internacional tem regras rígidas, isso em qualquer parte do mundo. A qualidade do que você entrega no mercado é que determina o preço. O Rio Grande do Norte já tem uma tradição nisso. Então se considerarmos uma série histórica do preço do melão no mercado internacional nos últimos 10 anos, veremos que o preço está dentro daquilo que havia sido planejado, dentro da regra da comercialização, da economia, que rege o mercado de frutas.
Qual seria então o agravante nisso tudo?
Por trás dessa realidade existe uma coisa altamente agravante, que é o custo de produção que sobe assustadoramente. Por que, se você considerar quanto era o salário de um trabalhador, o custo do litro de óleo diesel de antes com o atual, do quilowatt de energia elétrica, você verá que tudo isso é uma carga tributária que aumentou assustadoramente.
Como se manteve o preço dos insumos?
Os insumos que são os responsáveis pelo bom desempenho da safra subiram assustadoramente. Nós tivemos produtos que durante a safra aumentou até 300%. Mas eu não posso culpar o mundo por ele ter um preço preestabelecido, por que esse preço prevalece há 10 anos. O Brasil é que não criou vergonha ainda e entendeu que custo de produção é sobrevivência da atividade rural. Se o preço da ração de galinha sobe, eu não posso fazer com que a galinha me dê dois ovos por dia para que eu possa pagar a ração dela, por exemplo. Eu não posso fazer com que uma vaca me dê 100 litros de leite para que possa pagar o custo da ração. Então, não há milagre para que possamos ter um bom desempenho.
E quem estaria levando partido nisso tudo?
Quem é que está levando partido com isso? É um país que quer arrecadar impostos de uma pessoa que já está, digamos assim, morrendo. E isso não é apenas na agricultura. É em todos os setores. Basta observar: aumento de telefone, de água, luz e assim por diante. Isso é uma coisa esdrúxula. Vai chegar um ponto tal que não tem economia no mundo que suporte, especialmente o setor primário, que não tem como se defender.
Como é determinado o volume de produção?
Veja bem. O volume em geral é proporcional aos contratos. Nós não plantamos para vender. Plantamos para entregar. Antes de plantar é fechada com o importador a quantidade de caixas de frutas que ele quer, por mês ou semanalmente durante o período da safra, que vai de agosto a abril. A produção da fruta não é aleatória, especialmente o melão. Quem determina a capacidade de área plantada é o contrato firmado com o comprador, importador.
Quais as perspectivas para o segmento neste ano em termos de apoio?
Em linhas gerais, o segmento não espera nada do governo, por que o governo do Rio Grande do Norte vê a pauta de exportação, sabe que quem agüenta o superávit das exportações é o setor primário, não digo nem só a fruticultura. No entanto, a gente não tem prestígio nem mesmo para conseguir uma estrada vicinal, então não se precisa dizer mais nada. Mas isso não é de hoje nem também estou condenando o governo atual nem os antepassados. Estou considerando uma conjuntura que é nacional. O país não descobriu ainda que a grande força que tem é no setor primário, infelizmente. Então a perspectiva que nós temos é a mesma. Continuaremos sendo empresários, dando empregos, sendo importantes na pauta de exportação. Agora, se seremos reconhecidos ou não pelo governo, isso não me cabe a dizer.
Quais seriam as soluções para melhorar o setor primário, em especial a fruticultura?
O mínimo que o setor primário poderia ter seria as estradas, que poderiam ser bem melhores.
O Estado criar mecanismos onde pudesse ter os pack house comunitários. Quer dizer, isso o Estado tem a obrigação de fazer, por que um pequeno produtor, se não estiver agregado a um grande, ele não tem como entrar nas normas para fazer comercialização de seus produtos. É preciso desenvolver pesquisas. Existe uma deficiência muito grande em pesquisa, no quer diz respeito as nossas aspirações, não só com relação ao setor produtivo da fruta in natura, como também a transformação, que é outra grande arma que nós temos.
Existe a possibilidade de haver um incremento da safra?
Com relação ao incremento da safra, está diretamente vinculado aos nossos importadores. Por que é que a gente está na Europa? Por que é um mercado de consumo limitado. Se é de pensar em entrar no mercado dos Estados Unidos, o Rio Grande do Norte teria que produzir 10 vezes mais melão do que produz atualmente para atender o mercado americano. E por que não atendemos o mercado americano? Não atendemos por que não temos aparato para isso, condições de plantar novas áreas. Por que ao analisar hoje o meu desempenho econômico é uma coisa, mas financeiro é outro. O medo é de um dia a gente chegar a ter que pagar para plantar melão. Enquanto o Estado não entender que o setor primário não tem mecanismos de defesa, então a gente vai continuar com aquela idéia de que somos gigantes pela própria natureza, porém deitado eternamente em berço esplêndido.
Então, quer dizer que o mercado da fruticultura irrigada está todo voltado para a Europa?
Fundamentalmente toda a nossa capacidade de produção está voltada para o consumidor europeu. Produzimos para a Europa por que estamos no ponto mais próximo do continente europeu, temos frutas saborosas e o mercado nacional é quase que uma conseqüência, por que se chegar com uma melancia de 4 kg para ofertar, ele não quer, por que pensa que é refugo, que não presta. Enquanto isso, a gente tem uma melancia sem sementes de 4 kg que na Europa vale ouro.
A que se deve isso?
Então, esse conceito de consumo o brasileiro não conseguiu alcançar. A produção que excede um pouco esse tamanho do fruto vai para o mercado nacional. A nossa perspectiva de safra, de área plantada, de produção, está diretamente vinculada a nossa capacidade empresarial e tecnológica de atender o consumidor europeu. A gente não vai para outros países por que a gente não tem capacidade de investimento, o que é outra história e outro departamento.
Nossas frutas hoje estão presentes em quais países europeus?
As nossas frutas hoje atingem a Inglaterra, Holanda, Alemanha, Espanha, França e Portugal.
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Mossoró-RN, domingo, 16 de março de 2003