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Um anjo mque caiu do Céu estréia na amanhã


Beleza engajada

por André bernardo - TV Press

Na adolescência, Patrícia Pillar não se achava a menina mais bonita do mundo.

Quando se olhava no espelho, não gostava do que via: uma garota magra, quase anêmica, com aparelho nos dentes e grossos óculos para miopia.

O tempo só veio mostrar o quanto Patrícia estava enganada a seu respeito.

Hoje, ela é considerada uma das atrizes mais bonitas da tevê e coleciona admiradores famosos, como o escritor Luís Fernando Veríssimo. Mas “bonita” não é o único adjetivo freqüentemente associado ao nome da atriz. Em “Um Anjo Caiu do Céu”, a próxima novela das sete, ela interpreta Duda, fotógrafa que não se conforma com o misterioso sumiço do filho. “Quando faço tevê, me envolvo, capricho, vou fundo. Por isso, busco personagens que me interessam.

Caso contrário, prefiro ficar em casa”, garante. Quando diz que busca personagens que lhe interessam, Patrícia dá a entender que detesta aqueles que não têm nada a dizer.

 ESPELHO, ESPELHO MEU... - Patrícia, quando adolescente, não gostava de se ver no espelho: achava-se feiaPor conta disso, os mais recentes trabalhos da atriz foram revestidos de forte engajamento social. A começar pela sem-terra Luana, de “O Rei do Gado”, que discutiu a reforma agrária no Brasil. Ou a médica Cris Brandão, de “Mulher”, que abordou higiene, saúde e comportamento.

A fotógrafa Duda, de “Um Anjo Caiu do Céu”, não é diferente. Na trama de Antônio Calmon, a personagem chega a fundar uma ONG para localizar crianças desaparecidas. “Acho bacana quando a tevê cumpre uma função social.

Não dá para ficar falando abobrinha o tempo todo...”, critica. Aos 37 anos, Patrícia continua tímida e discreta. Quando sai às ruas, recorre a cabelos presos e óculos escuros na vã tentativa de passar incólume pela multidão.

A atriz nunca foi de falar da vida pessoal. Depois que começou a namorar o candidato à Presidência da República Ciro Gomes, menos ainda. Da vida pessoal, diz apenas que mudou de apartamento, parou de fumar e perdeu seis quilos.

Da profissional, não vê a hora de rodar o filme “Olga”, baseado na biografia de Olga Benário Prestes. “O personagem é forte, envolvente e carismático. É tudo o que uma atriz pode querer”, elogia.

P - A sua última novela foi "O Rei do Gado", de 1996. O que a encorajou a voltar a trabalhar numa produção do gênero?
R - Um pouco de tudo. A personagem é boa e a história, melhor ainda. Fiquei quatro anos sem fazer novelas. Já estava com saudades. Só não gosto de fazer uma novela atrás da outra. Fazer novela é muito complicado. Você nunca sabe o que vai acontecer com o personagem. O autor também não tem condições de ser brilhante durante 200 capítulos. Fora que novela é muito repetitiva. Chega uma hora que satura. Mas, às vezes, fazer novela é até divertido.

P - O que mais chamou sua atenção na Duda, de "Um Anjo Caiu do Céu"?

R - De tudo que já fiz na tevê, a Duda é uma grande novidade. Não acho estimulante fazer um personagem parecido com o anterior. Já a Duda é uma pessoa muito desorganizada emocionalmente. Ela perdeu um filho há 10 anos quando o menino passeava na praia com o pai. Até hoje, ela acredita que o filho esteja vivo. Só que ninguém acredita mais nisso. A própria família já deu o menino como perdido. As pessoas chegam a achar que ela ficou paranóica ou coisa parecida. Embora tenha outros filhos, ela não consegue esquecer do que desapareceu. É uma pessoa muito sofrida...

P - É doloroso fazer uma personagem sofrida como a Duda?
R - Quando digo que a Duda é uma novidade, quero dizer que nunca interpretei uma personagem tão aflita quanto ela. Ela vive com um aperto no coração e um nó na garganta. As pessoas perguntam: "E aí, Duda. Tudo bem?" Aí, ela responde: "Tudo. Tudo bem, sim". Mas todo mundo está vendo que a situação não está boa. E nem poderia. O próprio analista da personagem aconselhou que ela trabalhasse em algo que tivesse a ver com o assunto. Foi aí que ela resolveu fundar uma ONG para ajudar outras mães a localizarem os filhos. Mas, às vezes, dói muito fazer a Duda. Estou doida para que ela encontre logo o filho para sair dessa...

P - Como foi a experiência de visitar as famílias de crianças desaparecidas na Fundação para a Infância e Adolescência?

R - Foi maravilhosa. Conheci mulheres incríveis que tiveram as vidas paralisadas com o sumiço dos filhos. Conversei com oito famílias que passaram pelo mesmo dilema da personagem. A FIA mantém o SOS Criança, entidade que tenta encontrar crianças desaparecidas. O que puder fazer para ajudar, eu farei. Ainda mais porque a novela vai ser exibida no Brasil inteiro.

P - Você acha que o tão propalado "laboratório" é realmente indispensável ao ator?
R
- O que mais gosto na minha profissão é pesquisar, conhecer as pessoas e ir aos lugares em que os personagens moram. Para fazer "O Quatrilho", passei 20 dias no Sul, visitando fazendas de queijo e de lingüiça. Na época de "O Rei do Gado", passei 20 dias num acampamento de bóias-frias. Fiquei meio deprimida no começo, porque não podia fazer nada por aquelas mulheres. Mas foi uma experiência inesquecível. Minha profissão está muito ligada ao respeito às pessoas. Por tudo que conversei com as mulheres que freqüentam a FIA, soube que elas não conseguem mais comer porque acreditam que o filho desaparecido está passando fome, não conseguem mais dormir porque acreditam que o filho está sentindo frio e assim por diante. Quando a criança morre, você sofre, mas se conforma com a perda dela. Mas, quando desaparece, você não sabe o que fazer ou a quem recorrer.

P - Você acha que "Um Anjo Caiu do Céu" vai mobilizar tanto a população quanto "Explode Coração", de Glória Perez?
R
- Sinceramente não sei. Não sei se a Globo vai fazer uma campanha igual à que foi feita na época de "Explode Coração". Não gosto de fazer elocubrações. Mesmo porque a mobilização de "Um Anjo Caiu do Céu" vai ocupar um espaço menor na trama. A questão dos meninos desaparecidos vai funcionar apenas como um pano de fundo. O Calmon não pretende transformar o sumiço do filho da Duda em bandeira ou campanha. Mas, só de tocar no assunto, já desperta interesse na mídia. Conheci de perto aquelas mulheres e vi o quanto elas sofrem. Volto a dizer: o que eu puder fazer para ajudar, eu farei. Se apenas uma ou duas crianças forem localizadas, já vou me dar por satisfeita.

P - Os seus mais recentes papéis na tevê tinham forte engajamento social. Qual é o seu critério na escolha dos personagens?
R
- Escolho meus personagens pelo que eles representam em termos de novidade para a minha carreira. Não disponho de qualquer outro critério de seleção. Gosto quando minhas personagens têm algo a dizer. Mesmo que sejam idéias diferentes da minha. O que não dá é para falar futilidade o tempo inteiro. Isso é chato para quem faz e para quem assiste. A tevê não precisa se tornar chata ou didática para tocar em assuntos do interesse público. Eu perdi a conta das mulheres que elogiaram a iniciativa do seriado "Mulher". Assuntos como frigidez, Aids, aborto e impotência foram tratados sem papas na língua. Ainda hoje, muita gente pergunta porque o seriado acabou.

P - O fato de ter assumido publicamente o namoro com o político Ciro Gomes afetou a carreira profissional?
R
- Procuro não tocar muito neste assunto. Não quero que uma coisa interfira na outra. Até já falei algumas vezes sobre minha vida pessoal, mas procuro falar cada vez menos sobre isso. As pessoas não têm muito respeito. Acho também que passou da conta o hábito que certas pessoas têm de contar detalhes da vida pessoal. Tem gente que conta tudo...

P - Quando você resolveu seguir a carreira de atriz?
R
- Sempre quis fazer teatro. Quando criança, gostava de fazer fantoches. Não gostava muito de brincar de boneca. A não ser que eu criasse uma história. No gravador do meu pai, fazia radionovela, anúncios, sonoplastia. Quando me mudei para o Rio, consegui uma vaga no Tablado. Eu me senti um peixe fora d'água. Todo mundo lá tinha mais experiência que eu. Mas o que mais me interessou foi a maneira como as pessoas discutiam os mais variados assuntos. Sempre tive vontade de aprender, conversar sobre os mais variados assuntos e ser a melhor em tudo que fazia. Quando vi, já estava ensaiando uma peça... Desde então, não parei mais.

P - Hoje, você também atua num veículo que privilegia a beleza. Você não teme envelhecer?
R
- Nunca fui de me basear muito em valores estéticos. Prefiro ser considerada uma pessoa interessante, por exemplo, a ser considerada uma pessoa bonita. Nunca estive e nem vou estar atrás da fonte da eterna juventude. As pessoas melhoram muito com o tempo. Quero que isso também aconteça comigo. Estou mais interessada no que posso adquirir com o passar do tempo do que em perseguir uma juventude que não vai durar a vida toda.

P - Mas como você se sente ao ser considerada "musa" do Luís Fernando Veríssimo?
R
- Há muito tempo, estava lendo a revista "República" e morri de dar risada quando vi o que ele respondeu ao ser interrogado sobre o que faria de graça: "Qualquer coisa com Patrícia Pillar". Dias depois, a mulher dele me encontrou na rua e disse que ele me adorava. Quase não acreditei...

Na trilha do sucesso

Assim que soube que o livro “Olga”, do jornalista Fernando Moraes, estava prestes a ser adaptado para o cinema, Patrícia Pillar não hesitou em ligar para o diretor Luiz Fernando Carvalho, com quem trabalhou em “O Rei do Gado”. Pelo telefone, a atriz se ofereceu para o papel da militante comunista alemã, que foi entregue grávida à Gestapo pelo Estado Novo. Além da semelhança física com a mulher de Luís Carlos Prestes, Patrícia tinha a oferecer ao diretor Luiz Fernando Carvalho um respeitável currículo de 13 peças, 12 novelas e sete longas-metragens. “O filme tem custo alto. Mas o projeto existe e vai começar a ser rodado no segundo semestre deste ano”, avisa.

A carreira de Patrícia Gadelha Pillar é uma das mais bem-sucedidas do cinema brasileiro.

No currículo, o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Brasília de 1997 pela atuação como a Ludovina de “Amor & Cia”, de Helvécio Ratton. A estréia da atriz no cinema aconteceu em 1984, quando foi convidada pelo diretor Miguel Faria Jr. para interpretar a protagonista de “Para Viver Um Grande Amor”. Nem as belas canções de Chico Buarque, porém, salvaram o filme do fracasso. No mesmo ano, a atriz foi chamada pelo diretor Paulo Ubiratan para trabalhar em “Roque Santeiro”, da Globo. “Naquela época, a tevê era um grande mistério para mim”, lembra.

De lá para cá, Patrícia já fez outros seis filmes, como “Menino Maluquinho”, do Helvécio Ratton, e “O Monge e a Filha do Carrasco”, de Walter Lima Jr. “O Quatrilho”, de Fábio Barreto, foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 96 e “Noviço Rebelde”, de Tizuka Yamasaki, levou 2,5 milhões de pagantes aos cinemas.

A atriz não teve a mesma sorte quando produziu “A Maldição de Sampaku”, de José Joffily.

O filme demorou dois anos para ser lançado e não empolgou o público. “A decisão de produzir foi tomada porque não se fez mais cinema depois que o Collor assumiu. Merecíamos mais respeito por parte dos responsáveis pela cultura nacional”, reclama.

Mulher de fibra

A sofrida Duda, de “Um Anjo Caiu do Céu”, não chega a ser uma novidade na carreira de Patrícia Pillar na tevê.

Desde que estreou em “Roque Santeiro”, ela já interpretou “mulheres batalhadoras”, como ela mesma faz questão de definir, em outras novelas.

Em “Rainha da Sucata”, por exemplo, ela fez Alaíde, uma empregada doméstica que trabalhou a vida inteira na casa do próprio pai, interpretado por Paulo Gracindo, que morreu sem registrá-la como filha.

Coincidência ou não, o papel marcou a estréia da atriz à frente de papéis engajados. “A Alaíde era ligada ao sindicato e lutava pelo direito das empregadas.

Algumas personagens têm vida própria...”, tergiversa. Em “O Rei do Gado”, Patrícia retomou o papel da heroína sofredora.

Na trama de Benedito Ruy Barbosa, ela interpretou uma sem-terra que se apaixonava por um fazendeiro vivido por Antônio Fagundes.

Como desgraça pouca é bobagem, a personagem teve um filho de parto natural, sozinha e isolada, numa cabana no meio do mato.

No caso de Luana, o sofrimento da atriz antecedeu o início das gravações. Para compor a sem-terra, Patrícia passou 20 dias numa fazenda em Indaiatuba, no interior de São Paulo, num acampamento de bóias-frias. “Acordava de madrugada para conversar com trabalhadores rurais e cortar cana. No começo, achei que minha mão fosse cair”, brinca. Com a Dra. Cristina Brandão, do seriado “Mulher”, o sofrimento não foi menor.

Apesar de linda e bem-sucedida profissionalmente, a médica não dava sorte com os homens e vivia enfurnada na Clínica Machado de Alencar.

No final, o autor Euclydes Machado teve dó da pobrezinha e fez com que ela arranjasse um namorado, interpretado por Alexandre Borges.

O único consolo da atriz foi o de ter todo o aparato técnico de uma clínica de verdade, com direito a berçário, maternidade e até um centro de tratamento intensivo, a sua disposição. “Quando me via na sala de cirurgia, com máscara no rosto e bisturi na mão, me sentia brincando de médico. Foi bom voltar à infância”, ri.






 


 

 
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