FUNDADO POR JEREMIAS DA ROCHA EM 1872   -   Mossoró, domingo, 22 de abril de 2001
,
 

ESTA PÁGINA É ATUALIZADA AOS DOMINGO

ZAPPING
Giselle Itié tomou gosto pela televisão
RAIO X

Patrícia Pillar in musa engajada
RESUMO

Veja o resumo das novelas
TV CINE
Estréia promissora
DESTAQUES

Letícia Spiller é a convidada especial do episódio "Papai está com a cachorra" de "A grande família"

Dona de casa de fino trato

Por Flávia Kyrillos TV Press

Marieta Severo bem que tentou lembrar a última novela em que interpretou uma dona de casa suburbana na tevê, mas foi em vão. Em 36 anos de carreira, a atriz se acostumou a encarnar na telinha mulheres chiques e ricas. Agora, ela enrolou as madeixas, usa chinelos de dedo e até aprendeu alguns passinhos de funk para ser a Dona Nenê de "A Grande Família". Marieta Severo não teve muito tempo para se despir da elegante Alma Flora de "Laços de Família".

Um dia depois da última cena da trama de Manoel Carlos, ela já estava com o texto do seriado nas mãos. "Tenho essa coisa da clareza. Quando eu pressinto que o projeto é bom, não recuso. Mesmo que tenha de emendar um trabalho no outro", explica. Seria um exagero, porém, dizer que Marieta Severo é uma atriz de poucos papéis. Ela já interpretou os mais diversos tipos - como a feminista Madeleine Boichet, na trama "Que Rei Sou Eu?", de Cassiano Gabus Mendes, ou a poderosa Catarine em "Vereda Tropical".

A atriz se acostumou a encarnar na telinha mulheres  chiques e ricasPorém, se está fazendo uma vilã ou uma suburbana, para ela pouco importa. A atriz garante que o essencial é a qualidade do trabalho. "Se eu ganho um bom personagem num contexto que não me agrada, prefiro não fazer", comenta. Em 1994, por exemplo, recusou um papel de protagonista na novela "Pedra sobre Pedra", de Aguinaldo Silva, para fazer o filme "Carlota Joaquina, a Princesa do Brasil", de Carla Carmurati. Embora tenha sido casada por mais de 20 anos com o cantor e compositor Chico Buarque, Marieta jura que pensa em Marco Nanini quando o assunto é casamento.

Em "A Grande Família", os dois revivem o papel de marido e mulher. Na Globo, trabalharam em vários episódios da série "A Comédia da Vida Privada" e, no teatro, também fizeram par em "Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?", de Edward Albee, dirigida e adaptada por João Falcão. "Trabalhar em 'A Grande Família' é divertido.

Além da intimidade entre os atores, o núcleo é pequeno e o clima fica mais familiar", garante.

P - Você sempre passou uma imagem de mulher elegante. Como é interpretar uma dona de casa, que usa short surrado e chinelo de dedo?
R - Para mim é uma surpresa fazer uma mulher da classe média brasileira. Ainda mais logo depois de interpretar a Alma, que era o oposto da Dona Nenê. A oportunidade de interpretar duas personagens diferentes é um grande laboratório. E nem foi difícil compor a Nenê. Eu fui criando o papel aos poucos, num trabalho de observação. Tive até de aprender a dançar funk, que é o estilo de música preferida dos filhos da minha personagem, interpretados por Lúcio Mauro Filho e Guta Stresser. Eu acho que o que dá mais trabalho é ter de chegar uma hora e meia antes da gravação para enrolar o cabelo.

P - Uma dona de casa como a Dona Nenê é uma exceção nos dias de hoje, pois as mulheres tiveram de trabalhar fora para ajudar no orçamento familiar. Mesmo assim, está havendo uma identificação do público com a personagem?
R
- Descobri que, na verdade, existem muito mais "Nenês" do que a gente imagina. Até porque, muitas vezes, pela economia da família é mais lucrativo que a mulher fique em casa. Ela não tem condição de contratar uma empregada, de pagar alguém para ficar com os filhos e nem tem vocação especial. Então, colabora mais com a economia doméstica ficando em casa. Quando à aceitação, acho que todos os personagens foram bem, pois o nosso humor não usa o preconceito para arrancar riso, seja ele racial ou sexual. E até acredito que o telespectador tem o desejo de sair desse cinismo que as novelas mostram. "A Grande Família" busca outros valores. Por mais que o genro da Dona Nenê, papel de Pedro Cardoso, seja malandro, ele não vive em função do "vale tudo", do cinismo e do "cada um por si".

P - A primeira versão de "A Grande Família", escrita por Oduvaldo Vianna Filho, foi exibida entre 1973 e 1975. Na época, o seriado foi marcante para você?
R
- Nessa época eu fazia teatro de terça a domingo. Saía de casa às sete da manhã e voltava à meia-noite, então não assistia à tevê. Eu vi um episódio, por acaso, na Globo News. Era um programa que fazia homenagem ao Vianinha e deu para ver qual era a cara de "A Grande Família".

P - Você chegou a trabalhar na comédia "Se correr o Bicho Pega", também do Vianinha. Qual é a lembrança mais forte que guarda dele?
R -
Naquela época eu era bem jovem e tinha a sensação que ele sempre estava querendo fazer a minha cabeça, achava que ele gostava de me orientar. Hoje tenho a consciência que o Vianinha queria me passar coisas boas e ele tinha prazer de conversar com aquela "fedelha". Eu também tinha curiosidade. Percebia que ele era muito inteligente e queria usufruir disso. Eu me orgulho de estar fazendo um remake baseado na obra do Vianinha. Esse foi um dos motivos pelo qual aceitei o papel.

P - Você está sempre envolvida com o humor. O da Alma era irônico e involuntário. O da Dona Nenê é mais proposital?
R -
Eu acho que o humor da Nenê também é involuntário. Ela não tem a intenção de ser engraçada. A Nenê está vivendo a vida dela e a sua maneira de se relacionar com as situações se torna cômica. A Alma era mordaz, irônica. Com certeza eu me sinto mais à vontade fazendo humor. Eu trabalho com mais prazer e acho divertido.

P - Como está sendo a repercussão da Dona Nenê nas ruas?
R
- A Alma foi uma personagem que me deixou extremamente popular. Ela teve uma grande aceitação do público. No Carnaval, eu fui para o meio da rua, em Salvador e dancei no meio da muvuca. As pessoas me abordavam para dar os parabéns, brincavam e até faziam piadinhas por causa do Danilo, personagem de Alexandre Borges. Com a Nenê está sendo parecido. Nós fizemos apenas quatro episódios e várias pessoas já vieram conversar comigo sobre o jeito da Naná. O pessoal comenta muito a cena que ela dançou funk.

P - Você disse que foi pular Carnaval no meio da muvuca. Não tem medo desse assédio?
R
- De jeito nenhum. Pelo contrário, eu acho que quem vive cercado de seguranças se priva de momentos absolutamente especiais. Quando estava no meio das pessoas em Salvador, eu senti realmente como a Alma era querida. Eles me tratavam com o maior carinho e bom humor. Então acho que é azar de quem perde esses momentos. É ali que o ator vê o resultado do seu trabalho.

P - Você tinha acabado de fazer "Laços de Família". Além do fato de "A Grande Família" ser escrita por Vianinha, que outros motivos a levaram emendar um trabalho?
R -
Achei que ia descansar depois de "Laços de Família", já que novela é um trabalho que ocupa a cabeça da gente o tempo todo. Dificilmente tenho tempo para ler um livro ou fazer algo que gosto. E tinha a intenção de não fazer televisão por um bom tempo. Só que me veio um chamado do Guel Arraes, que é o diretor de núcleo do seriado. Ele corresponde, dentro da tevê, a tudo que admiro e tenho vontade de fazer. Eu me sinto em casa trabalhando com ele, pois sempre participei e fui muito ligada ao seu núcleo. Quando eu gosto do projeto, não consigo me livrar dele.

P - Como você se sente ao reeditar a parceria com o Nanini?
R
- Definitivamente, já somos um casal na ficção. Começamos a parceria em meados dos anos 70 na comédia "As Desgraças de Uma Criança", com direção de Antônio Pedro. Depois trabalhamos no "A Comédia da Vida Privada", fomos casal no filme "Carlota Joaquina, A Princesa do Brasil" e na peça "Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?". Entre nós há um carinho e um conhecimento natural, que adquirimos com o tempo. E isso é fundamental no trabalho. Essa intimidade facilita. Sem falar no prazer de estar ao lado de um amigo.

P - É difícil encontrar bons papéis para atrizes de sua idade?
R -
Eu acho que os papéis também vão ter de acompanhar a sua idade, e você acaba se desinteressando pelos que não são da sua idade. Eu não tenho interesse por uma personagem jovem. Não me sinto perdendo, e sim, ganhando os papéis que são adequados à minha idade. Eu não poderia fazer a Nenê há 15 anos. Estar podendo fazer esse papel é um ganho. Então, por enquanto, eu considero lucro.

P - Nesses 35 anos de carreira, tem algum personagem que você gostaria de interpretar e não conseguiu?
R -
Tem milhares, mas eu nunca planejo os meus personagens. Não tenho vontade de fazer um personagem arbitrariamente. Em determinado momento da minha vida, chega um papel para mim e eu me apaixono por ele. Mas, não tenho o desejo em nenhum em particular. Tem gente que fala "Quero fazer a Lady MacBeth, do Shakespeare". O papel é maravilhoso, mas não quer dizer que eu queira fazer. Prefiro os personagens que estou interpretando atualmente. Para mim, tudo é ligado ao momento, às motivações, algumas até misteriosas, que levam a um determinado trabalho.

Estrela de três lados

Aos 54 anos e 36 de carreira, Marieta Severo exibe um currículo muito bem dividido entre teatro, cinema e tevê. Mas seguindo um caminho pouco comum para atores no Brasil, que costumam ter a primeira chance no teatro, Marieta começou pelo cinema. Foi em 1965, aos 18 anos, no filme "Society em Baby-Doll", de Luiz Carlos Maciel e Waldemar Lima.

A partir daí não parou mais. Alguns filmes foram marcantes para o cinema nacional. Caso de "Bye Bye Brasil", dirigido por Cacá Diegues em 1979, de "Carlota Joaquina, A Princesa do Brasil", de Carla Carmurati, feito em 1995, e de "Guerra deCanudos", de Sérgio Rezende, em 1997. Sua mais recente participação nas telas foi interpretando a bruxa Losângela, no infantil "Castelo Rá-tim-bum", de Cao Hamburger. Agora começou a filmar "As Três Marias", de Aluízio Abranches.

A atriz está gravando no sertão pernambucano uma viúva que decide vingar a morte do marido. "A Filomena é mãe de três filhas e dona de um rebanho de cabras", explica. Na tevê, a atriz se destacou em "Vereda Tropical", de Carlos Lombardi, e "Champagne", de Cassiano Gabus Mendes "Confesso que sinto muito orgulho quando começo a lembrar de tudo que fiz, mas ainda tenho muito o que fazer e aprender", garante a atriz. No teatro, os espetáculos de maior destaque foram "Ópera do Malandro" e "Os Saltimbancos", adaptados da obra de Chico Buarque, e a "A Dona da História", de João Falcão.

Agora recebeu um convite para fazer a peça "A Comédia dos Outros", de Pedro Cardoso. "Não consigo ficar muito tempo longe do teatro", admite. Marieta Severo admite que está numa fase totalmente voltada para o trabalho. "Não tenho tempo para nada", resume. Embora tenha jurado não fazer mais teatro e tevê ao mesmo tempo, não cumpriu a promessa. Ano passado, estava em cartaz com a peça "Quem Tem Medo de Virgínia Woolf?" e com a novela "Laços de Família" ao mesmo tempo.

Contudo ela diz que consegue conciliar o trabalho e o lazer. "Sou muito organizada e hoje não tenho mais aquela culpa feminina de não estar dando atenção em casa. Minhas filhas já estão criadas", justifica.

Metamorfose necessária

Marieta Severo não chegou a acompanhar com atenção a primeira versão de "A Grande Família", de 1973, em que Eloísa Mafalda fazia Dona Nenê. E embora tenha chegado a ver alguns episódios da velha série, hoje acha até bom que tenha sido assim. "Procurei me fixar o menos possível na Nenê daquela época. Me baseei na cara do programa e na linguagem usada na atual versão", garante a atriz.

Para ela, o ator é como um "banco de dados", que assimila jeitos com facilidade. "Trabalho as emoções, os sentimentos e as características psicológicas do personagem. Ele vai surgindo aos poucos", teoriza. O que mais deixou a atriz admirada ao ver recentemente a primeira versão foi constatar como era diferente fazer tevê naquela época. "Houve um enorme progresso na narrativa", compara. Da nova versão de Guel Arraes, Marieta acredita que está havendo uma grande repercussão. "Muita gente já está me parando na rua para falar da Nenê", conta.

O reconhecimento do público, aliás, é uma das grandes satisfações para Marieta Severo. "Me divirto quando as pessoas se aproximam de mim para elogiar o meu trabalho", confessa. Embora "A Grande Família" seja um programa semanal, Marieta acredita que a Dona Nenê está conquistando, aos poucos, o telespectador. "É engraçado que devagar as pessoas vão esquecendo a Alma e já me abordam na rua para falar da Nenê", enfatiza.


 


 

 
Laíre Rosado
Emery Costa
Cid Augusto
Neto Queiroz
Antônio Rosado
Sérgio Oliveira
Sérgio Chaves
Gomes Filho

Cláudio Monteiro
Geraldo Maia
Marcos Araújo
Charge
Capa

Editorial
O jornal
Assinaturas
Expediente
Painel do Leitor

Política
Esporte
Economia

Dia @ Dia
Mais TV
Dois