Mossoró-RN, domingo 16 de julho de 2006

Um jornalista na Abolição

GERALDO MAIA
gmaia@bol.com.br

Em 26 de maio de 1917, num dia de sábado, dava-se o falecimento de Alfredo de Souza Melo, jornalista vibrante e combativo, polemista, panfletário, orador fluente  e comerciante de artigos de exportação.

Alfredo de Souza Melo era filho do português-mossoroense José Damião de Souza Melo, de quem herdou seus dotes intelectuais e jornalísticos, formando com João da Escóssia e Antônio Gomes de Arruda Barreto o triunvirato da imprensa esclarecedora no reaparecimento de "O Mossoroense" a 12 de junho de 1902.

Exerceu o magistério como professor do Colégio Sete de Setembro e Santa Luzia, lecionando a língua inglesa, que falava com vasto conhecimento. Seu método de ensino era de evidente atualidade, comparado com a escola moderna. Já naqueles dias ministrava noções de língua estrangeira, usando em classe o processo de conversação. O vocabulário indicado era só o indispensável para permitir ao aluno o seu emprego na conversa.

Alfredo de Souza Melo teve sua estréia no jornal em 1902, quando o jornalista João da Escóssia reabria "O Mossoroense", jornal fundado em 17 de outubro de 1872 por seu pai, Jeremias da Rocha Nogueira. Na sua primeira fase, o jornal circulou até 1878, tendo como colaborador José Damião de Souza Melo, pai de Alfredo de Souza Melo. Isso quer dizer que nas duas primeiras fases do jornal, os Souza Melo estiveram presente.

Era um dos mais dedicados adeptos da Campanha Abolicionista de Mossoró. A emancipação dos escravos em Mossoró, mais de cinco anos antes da Lei Áurea, foi mais um expressivo triunfo da Maçonaria, mais uma demonstração dos seus elevados sentimentos de fraternidade. A idéia nasceu na Loja Maçônica 24 de Junho no ano de 1882, quando a Loja estava em pleno florescimento. Naquele mesmo ano eram alforriados os primeiros escravos, pela verba do "Fundo de Emancipação" e por donativos dos associados da Loja. Em 30 de setembro de 1883, Mossoró se declarava livre da mancha negra da escravidão.

Esse fato histórico, dos mais significantes, é pouco conhecido da maioria dos historiadores brasileiros. Há grave injustiça a reparar-se na História da Libertação dos Escravos no Brasil. É uma omissão imperdoável com referência ao município de Mossoró. Em nenhuma das nossas Histórias do Brasil, vimos a menor referência à atitude admirável de solidariedade humana demonstrada  pelo nosso município.

A luta pela Abolição dos Escravos de Mossoró contou com a presença de grandes oradores. E Alfredo de Souza Melo, apesar de ser, na época, bastante jovem, proferiu discursos inflamados, "sendo aplaudido vibrantemente entre as ovações de uma assembléia de homens livres".  Por sua atuação junto a Loja Maçônica 24 de Junho, teve seu nome dado à biblioteca daquela sociedade filantrópica.

Era matrimoniado com D. Maria Faria de Souza Melo, exímia pianista e jornalista, colaboradora de "O Mossoroense" , na tradução de contos ingleses com o pseudônimo de Mercedes Marvel.

Dos seus dependentes, informa Raimundo Nonato, todos saíram com tendência para as letras e para as artes. E cita D. Ilná de Melo Rosado, que era funcionária do quadro da administração da Escola Normal de Mossoró; D. Lília de Melo Pinheiro, que era professora de piano e Alfredo de Souza Melo, industrial, que teve atividades em empresas e órgãos das classes produtoras do país.

O nome de Alfredo de Souza Melo consta da Galeria dos Abolicionistas de Mossoró.

 

Menino na chuva

Marcos Bezerra
Jornalista - marcos.bezerra@redeintertv.com.br

O barulho da chuva caindo embala o meu sono. A noite é fria; além de pijama e cami-seta, um lençol e uma coberta grossa dos pés à cabeça. Na madrugada a temperatura cai ainda mais; acordo com as orelhas frias; continua cho-vendo. O toque do celular me desperta na hora certa; como chove em Natal - em média 1.200 milímetros   por ano, segundo a Emparn. Quanto desperdício!

- Abaixe a mão, Mãe de Deus!

O grito se fazia escutar a menor promessa de chuva. Era comum na boca dos meninos de minha idade e até dos adultos. Aprendi com papai, Seu Antonio; um agricultor que adorava buscar sinais de chuva nas tardes caicoenses. A rua Padre Sebastião tinha - ainda tem - como paisagem de fundo a Serra de São Bernardo, ou Samanaú. A elevação é o "chovedor" da cidade. É por trás dela que o tempo prepara suas nuvens escuras.

À torcida de Seu Antonio juntava-se a do professor Geraldo Faustino, vizinho, pare-de-meia. Os dois faziam sempre previsões otimistas, que quase nunca se confirmavam. E a gente, injustamente, criou uma versão cinematográfica para o encontro vespertino. "E a chuva se foi", estrelando: Antonio Bezerra Fernandes e Geraldo Faustino. A verdade é que a falta de chuvas tinha e tem a ver mesmo com as condições climáticas da região, onde um inverno regular não chega aos 600 milímetros (como todo sertanejo prefiro "inverno" ao meteorologicamente correto "período chuvoso").

Mas, ano ou outro, acontecia de chover bem. São Pedro confirmava as previsões dos nossos profetas do tempo, que não escondiam o contentamento com a própria sabedoria e com o período de fartura que se avizinhava. E a festa era ainda maior para a garotada. Diversão de menino do interior em ano de inverno bom é tomar banho de chuva. A rua, cheia de casas antigas de cumeeira alta, tinha uma biqueira atrás da outra pra gente escolher. - Peraí menino, tem que limpar as telhas. A advertência materna era desanimadora. E se não chovesse mais? De nada adiantavam os protestos e a cara emburrada; não tinha acordo e o jeito era esperar e torcer para a Mãe de Deus continuar baixando a mão.

Telhas limpas, chuva, esperar baixar o "bafo" e as calçadas ficavam cheias de meninos e meninas. A gente tinha até uma classificação das biqueiras. A mais alta era a do sobrado da esquina; a mais forte a do Colégio das Irmãs; a melhor a da casa de Dona Marinês de Quinzinho, baixinha e farta, que nem doía na cabeça. Mas, nas chuvas fortes e com vento, o melhor mesmo era tomar banho na calçada de casa e correr para dentro quando os relâmpagos começavam a cortar o céu com mais intensidade. - Valei-me Santa Bárbara!

Jogar bola na chuva, deslizar de "papo" pelas calçadas, botar os sapos para nadar na enxurrada, o leque de brincadeiras parecia infindável. Quando a chuva estava ficando fraca virávamos engenheiros, a construir açudes de areia nos cantos das calçadas. Tinha até sangradouro feito com folhas de castanholeiras. Não demorava e surgia alguém puxando um carrinho de pau e lata... Chegava o período de revisar a frota de cada um.

Havia também a expectativa crescente pela cheia do rio Seridó. Logo os bancos de areia dariam lugar à água barrenta. E a gente ignorava os perigos das corredeiras saltando das pedras mais altas e atravessando o rio de um lado para o outro até não ter mais energias. Quando a cheia passava e a água do rio ficava limpa, era tempo de pescar camarão e fazer piqueniques na sombra das oiticicas. Os meninos criados sob o sol do sertão pareciam ter nascido na água. Mas o banho de chuva, até pela fugacidade, era o que mais nos alegrava. Ficava sempre um gostinho de quero mais.

Revivi o sabor de um banho de chuva em Mossoró. A casa, no Alto de São Manoel, tinha uma calha que dava para o terraço interno. Virava eu menino de novo, na companhia de minha filha pequena. Quando mudamos para o Centro achamos de tomar banho na Praça do Museu. Nós dois e ninguém mais. Quem passava de carro ou debaixo dos guarda-chuvas talvez não entendesse a nossa alegria; bons momentos aqueles.

Turmas de meninos na rua tomando banho de chuva só vi na periferia. E como "quem vai para casa não se molha" também andei freqüentando as biqueiras das oficinas da avenida Cunha da Mota, em frente ao prédio da Rádio Difusora. Botava os sapatos e a carteira num saco de supermercado e ia disputar espaço com os garotos e os biriteiros da rua. A volta para casa, de moto, era sofrida, com o frio ferindo a pele, mas valia a pena. Lembrava as reclamações que recebia na infância. - Menino, você vai pegar um drifuço! O resfriado do sertanejo.   

Aqui, a não ser pelo alívio na temperatura a chuva, parece, só traz problemas: assoreamento dos rios, esgotos estourados, alagamentos e buracos no asfalto. As casas não têm nem mesmo biqueira. Pode procurar, você não vai achar a alegria dos meninos nas ruas. Talvez na periferia; driblando os riscos de contrair uma doença. Claro que as plantas do litoral também precisam de água - vai ter fartura de frutas nativas. Claro que as chuvas ajudam a recompor o lençol freático. Mas a impressão que se tem, até pelo fato de Natal ser uma cidade turística, é que a chuva não é bem-vinda.

Às favas com os turistas. Particularmente acho a Terra do Sol mais bonita em dias de chuva. Um dia atrás do outro de preferência. Não viro menino e vou para as ruas, mas só o friozinho e o gosto de dormir ouvindo o barulhinho da chuva me fazem relembrar o pedido à Mãe de Deus.

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