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Menino na chuva
Marcos Bezerra Jornalista
- marcos.bezerra@redeintertv.com.br
O barulho da chuva caindo embala o
meu sono. A noite é fria; além de pijama e cami-seta,
um lençol e uma coberta grossa dos pés à cabeça. Na
madrugada a temperatura cai ainda mais; acordo com as
orelhas frias; continua cho-vendo. O toque do celular
me desperta na hora certa; como chove em Natal - em
média 1.200 milímetros por ano, segundo
a Emparn. Quanto desperdício!
- Abaixe a mão, Mãe de Deus!
O grito se fazia escutar a menor promessa
de chuva. Era comum na boca dos meninos de minha idade
e até dos adultos. Aprendi com papai, Seu Antonio; um
agricultor que adorava buscar sinais de chuva nas tardes
caicoenses. A rua Padre Sebastião tinha - ainda tem
- como paisagem de fundo a Serra de São Bernardo, ou
Samanaú. A elevação é o "chovedor" da cidade.
É por trás dela que o tempo prepara suas nuvens escuras.
À torcida de Seu Antonio juntava-se
a do professor Geraldo Faustino, vizinho, pare-de-meia.
Os dois faziam sempre previsões otimistas, que quase
nunca se confirmavam. E a gente, injustamente, criou
uma versão cinematográfica para o encontro vespertino.
"E a chuva se foi", estrelando: Antonio Bezerra
Fernandes e Geraldo Faustino. A verdade é que a falta
de chuvas tinha e tem a ver mesmo com as condições climáticas
da região, onde um inverno regular não chega aos 600
milímetros (como todo sertanejo prefiro "inverno"
ao meteorologicamente correto "período chuvoso").
Mas, ano ou outro, acontecia de chover
bem. São Pedro confirmava as previsões dos nossos profetas
do tempo, que não escondiam o contentamento com a própria
sabedoria e com o período de fartura que se avizinhava.
E a festa era ainda maior para a garotada. Diversão
de menino do interior em ano de inverno bom é tomar
banho de chuva. A rua, cheia de casas antigas de cumeeira
alta, tinha uma biqueira atrás da outra pra gente escolher.
- Peraí menino, tem que limpar as telhas. A advertência
materna era desanimadora. E se não chovesse mais? De
nada adiantavam os protestos e a cara emburrada; não
tinha acordo e o jeito era esperar e torcer para a Mãe
de Deus continuar baixando a mão.
Telhas limpas, chuva, esperar baixar
o "bafo" e as calçadas ficavam cheias de meninos
e meninas. A gente tinha até uma classificação das biqueiras.
A mais alta era a do sobrado da esquina; a mais forte
a do Colégio das Irmãs; a melhor a da casa de Dona Marinês
de Quinzinho, baixinha e farta, que nem doía na cabeça.
Mas, nas chuvas fortes e com vento, o melhor mesmo era
tomar banho na calçada de casa e correr para dentro
quando os relâmpagos começavam a cortar o céu com mais
intensidade. - Valei-me Santa Bárbara!
Jogar bola na chuva, deslizar de "papo"
pelas calçadas, botar os sapos para nadar na enxurrada,
o leque de brincadeiras parecia infindável. Quando a
chuva estava ficando fraca virávamos engenheiros, a
construir açudes de areia nos cantos das calçadas. Tinha
até sangradouro feito com folhas de castanholeiras.
Não demorava e surgia alguém puxando um carrinho de
pau e lata... Chegava o período de revisar a frota de
cada um.
Havia também a expectativa crescente
pela cheia do rio Seridó. Logo os bancos de areia dariam
lugar à água barrenta. E a gente ignorava os perigos
das corredeiras saltando das pedras mais altas e atravessando
o rio de um lado para o outro até não ter mais energias.
Quando a cheia passava e a água do rio ficava limpa,
era tempo de pescar camarão e fazer piqueniques na sombra
das oiticicas. Os meninos criados sob o sol do sertão
pareciam ter nascido na água. Mas o banho de chuva,
até pela fugacidade, era o que mais nos alegrava. Ficava
sempre um gostinho de quero mais.
Revivi o sabor de um banho de chuva
em Mossoró. A casa, no Alto de São Manoel, tinha uma
calha que dava para o terraço interno. Virava eu menino
de novo, na companhia de minha filha pequena. Quando
mudamos para o Centro achamos de tomar banho na Praça
do Museu. Nós dois e ninguém mais. Quem passava de carro
ou debaixo dos guarda-chuvas talvez não entendesse a
nossa alegria; bons momentos aqueles.
Turmas de meninos na rua tomando banho
de chuva só vi na periferia. E como "quem vai para
casa não se molha" também andei freqüentando as
biqueiras das oficinas da avenida Cunha da Mota, em
frente ao prédio da Rádio Difusora. Botava os sapatos
e a carteira num saco de supermercado e ia disputar
espaço com os garotos e os biriteiros da rua. A volta
para casa, de moto, era sofrida, com o frio ferindo
a pele, mas valia a pena. Lembrava as reclamações que
recebia na infância. - Menino, você vai pegar um drifuço!
O resfriado do sertanejo.
Aqui, a não ser pelo alívio na temperatura
a chuva, parece, só traz problemas: assoreamento dos
rios, esgotos estourados, alagamentos e buracos no asfalto.
As casas não têm nem mesmo biqueira. Pode procurar,
você não vai achar a alegria dos meninos nas ruas. Talvez
na periferia; driblando os riscos de contrair uma doença.
Claro que as plantas do litoral também precisam de água
- vai ter fartura de frutas nativas. Claro que as chuvas
ajudam a recompor o lençol freático. Mas a impressão
que se tem, até pelo fato de Natal ser uma cidade turística,
é que a chuva não é bem-vinda.
Às favas com os turistas. Particularmente
acho a Terra do Sol mais bonita em dias de chuva. Um
dia atrás do outro de preferência. Não viro menino e
vou para as ruas, mas só o friozinho e o gosto de dormir
ouvindo o barulhinho da chuva me fazem relembrar o pedido
à Mãe de Deus.
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