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A
palavra de Dorian Jorge Freire
Paixões, paixões...
São Paulo, 23 de agosto de 1966.
Vi-me, ontem, numa situação excêntrica.
À noitinha, de volta da aula de francês, fiquei parado,
estatelado, no centro da Praça da República. Diz a crônica
desta cidade, cheia de clichês e idiotices, que aquele
logradouro público foi transformado em covil de marginais.
Eu não tenho nada contra os marginais. E às vezes me
pergunto a mim, nos meus silêncios, se também não sou,
essencialmente, um marginal. Ou se não é uma boa referência,
uma santa referência, ser marginal diante de uma sociedade
como a que aí está, apodrecendo de todos os lados. Ficar
na orla deste mundo louco, em condições de contemplá-lo
e descobrir suas tolices, julgá-lo e ter piedade dele.
Pois bem, não sei se ali havia vagabundos,
prostitutas, marginais. O que sei é que havia, pelos
bancos, um punhado de namorados. Namorados de todos
os tipos: negros e brancos, amarelos, magros e gordos,
velhos e moços, feios e bonitos. Havia até uma velhota,
muito passada, a cabeça derreada sobre o ombro caído
de um resistente sexagenário. E havia, principalmente,
um jovem e lindo casal. Dois pombinhos de menos de 20
anos. Ou pouco além dos primaveris e dourados 15.
Eu adoro a adolescência. O mundo seria
lindo se ninguém vivesse além dos 18 anos de idade.
Especialmente as mulheres. E aquela quase-mulher, "entreaberto
botão, entrefechada rosa", como diria o velho Machado,
era como que uma prova racional, na melhor base tomista,
da existência de Deus.
Como explicar, fora de Deus todo poderoso
e todo sabedoria, um ser tão belo e uma harmonia tão
perfeita?
Fiquei a olhar. É claro que não os
ouvia. Não só porque eles sussurravam ,mas também porque,
da distância onde se localizava o embasbacado, impossível
seria ouvi-los. Melhor assim, muito melhor. Via-os e
podia imaginar o que conversavam. As doces trivialidades,
o comentário frívolo, a declaração inconseqüente, o
gesto confiante, a certeza que nem eles imaginavam que
o futuro é uma propriedade deles. E deveria sê-lo. Uma
propriedade dos que se amam. Só assim eu poderia me
converter, depois de papagaio velho, num defensor acérrimo
da propriedade, tal como os bobocas neofascistas da
Sociedade da Família, das Tradições e da Propriedade.
Quanta saudade eu senti naquela noite!
Saudade de minhas antigas namoradas. Saudade dos flertes.
Saudade dos amores impossíveis. Saudade dos desejos
nunca - nunca! - banalizados pela concretização.
Não falo das namoradinhas da juventude,
quando diante de nós se posta, em expectativa, o grave
e sublime sacramento do matrimônio. Mas daquelas outras,
quando ninguém pensa em casamento. Quando não há desejo
nem sensualidade. Só ciúme. Só vontade de ver. Só exibicionismo.
As minhas namoradas... Sempre fui
um apaixonado. Um "perdidamente apaixonado".
Ainda não vestira a primeira calça comprida, ainda não
desvendara os primeiros mistérios do sexo, ainda não
trauteava em escolas primárias, ainda não tivera, de
meu, um vintém no bolso, e já conhecia e sofria penas
de amor. A minha infância, a minha adolescência: todo
um desfile feminino. Não de moças, digo. De meninas.
Com algumas delas, nem cheguei a namorar. O que havia
mesmo - e só agora compreendo - era uma estima muito
grande, ciumenta e cheia de exigências. Muitas delas
jamais souberam, sequer, que eram as minhas secretas
namoradas... E é engraçado lembrar essas coisas, quando
o tempo já provocou tantos desabamentos e tantas devastações.
Houve uma que era linda. Linda de
linda. Tinha umas covinhas no rosto e um sorriso de
boa pureza. Foi uma paixãozinha primeira. Recordo que,
uma noite, durante uma hora ou pouco mais, estivemos
sentados juntos, num banco de jardim. Não teríamos mais
de 13 anos. Não, não teríamos. E aqueles minutos passados
juntos foram sensacionais. Não dissemos uma palavra.
Não trocamos um olhar. Não houve um gesto sequer. Mas
sabíamos ambos, ela e eu, que o simples fato de estarmos
juntos, sentados naquele banco, àquela noite, vistos
pelos nossos amigos e até pelos adultos, era tudo. E
não podia restar, a nós ou a eles, qualquer desconfiança
sobre o nosso namoro. Depois ela viajou e eu a perdi
de vista por muitos anos. Ficou como algo inacessível
e enriquecido na minha memória. Eu pensava nela, procurava
encontrá-la e ficava certo de que ainda estaria mais
linda e que não esquecera o seu primeiro amor. É certo
que jamais houve, entre nós, palavras. Que importa!
Palavras poderiam ser importantes para duas crianças
enamoradas? A certeza de que namorávamos já não era
tudo, já não significava e dizia tudo? Não havia, entre
nós, o longo silêncio cheio de paz? Muitos anos depois,
já adulto, voltei a vê-la. Não era mais a minha namorada
pequenina. Era uma moça, uma moça comum, e deixara para
trás a sua beleza. Dela não restavam mais do que traços
muito vagos, quase imperceptíveis.
Houve outras e muitas outras. Especialmente
uma que foi um amor com letras maiúsculas. Com ela,
a coisa foi diferente. Não havia um senão, uma carência,
um mais ou menos. Era completa. E todos sabiam disso.
Ela mais do que os outros. Era aspiração de qualquer
um conquistar os seus favores. Um olhar, um sorriso.
Namoramos. Namoro de umas três, quatro semanas. Ou menos,
ou mais - não me lembro. Flertávamos. Sorriamo-nos.
E era o céu. Mas tudo foi tão curto, como a brevidade
de todas as alegrias... E depois, mais tarde, tão sofrido.
Ela me deixou sem um olhar, um sorriso sequer. Voltou-se
para outros. Namorava outros, flertava outros. E todos
os outros não a mereciam como eu a merecia, porque ninguém
a amava tanto. Para mim ela era a alegria, a vida, a
certeza da existência de Deus. Era tudo. E por ela sofri.
Ninguém sofre mais do que a criança. Porque ela sofre
um sofrimento abandonado, sofre sozinha. Sofre ilhada,
incompreendida, sempre à beira do ridículo.Quantas vezes
pedi, implorei, roguei a Deus que ela voltasse! Fiz
promessas, rezei terços. Pensei até em fazer mandinga,
feitiçaria. Ah, se eu conseguisse um pouco do seu cabelo...
Ah, se ela bebesse um pouco da água servida por mim...
Passei a escrever. Era preciso desabafar escrevendo.
E enchi cadernos e mais cadernos com os meus penares.
Escrevi até um drama, cujo fim era a minha morte e o
seu remorso. Hoje, tantos e tantos anos passados, é
claro que o meu coração já não bate por ela e que o
amor que ela recusou já foi embora há muito e muito
tempo. Mas ficou a lembrança, a estima, o apreço simples
e puro. E a tristeza pelo seu destino, porque sei que
casou, tem filhos e vive mal.
Hoje eu me pergunto se as meninas
do meu tempo eram melhores ou piores do que as meninas
de agora. E asseguro a mim que não havia, substancialmente,
diferença entre elas. Como não havia, entre os mancebos
das duas épocas, maior diversidade. O traço comum entre
as várias épocas é a juventude. O que importa é a juventude.
E a juventude é linda, é generosa, é pacífica, é mansa,
é boa. A juventude acredita. A juventude espera. A juventude
não se engana. E não se engana porque não sente, nunca,
o gosto amaríssimo dos desencantos. A juventude de ontem
não dançava o iéíéié, mas havia a marchinha e o dolente
- e medíocre - bolero, com dois passos para lá e dois
passos para cá. As saias eram saias e não minissaias,
mas não havia diferenças nas pernas. Porque pernas de
meninas são sempre iguais, são sempre belas. Vão ficando
feias quando vão se tornando, com o passar dos anos,
pontos de referência para os nossos calores latinos.
Quando cada um de nós, barba na cara, entende como é
poderoso o resultado da Queda...
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