Mossoró-RN, domingo 16 de julho de 2006

A palavra de Dorian Jorge Freire

Paixões, paixões...

São Paulo, 23 de agosto de 1966.

Vi-me, ontem, numa situação excêntrica. À noitinha, de volta da aula de francês, fiquei parado, estatelado, no centro da Praça da República. Diz a crônica desta cidade, cheia de clichês e idiotices, que aquele logradouro público foi transformado em covil de marginais. Eu não tenho nada contra os marginais. E às vezes me pergunto a mim, nos meus silêncios, se também não sou, essencialmente, um marginal. Ou se não é uma boa referência, uma santa referência, ser marginal diante de uma sociedade como a que aí está, apodrecendo de todos os lados. Ficar na orla deste mundo louco, em condições de contemplá-lo e descobrir suas tolices, julgá-lo e ter piedade dele.

Pois bem, não sei se ali havia vagabundos, prostitutas, marginais. O que sei é que havia, pelos bancos, um punhado de namorados. Namorados de todos os tipos: negros e brancos, amarelos, magros e gordos, velhos e moços, feios e bonitos. Havia até uma velhota, muito passada, a cabeça derreada sobre o ombro caído de um resistente sexagenário. E havia, principalmente, um jovem e lindo casal. Dois pombinhos de menos de 20 anos. Ou pouco além dos primaveris e dourados 15.

Eu adoro a adolescência. O mundo seria lindo se ninguém vivesse além dos 18 anos de idade. Especialmente as mulheres. E aquela quase-mulher, "entreaberto botão, entrefechada rosa", como diria o velho Machado, era como que uma prova racional, na melhor base tomista, da existência de Deus.

Como explicar, fora de Deus todo poderoso e todo sabedoria, um ser tão belo e uma harmonia tão perfeita?

Fiquei a olhar. É claro que não os ouvia. Não só porque eles sussurravam ,mas também porque, da distância onde se localizava o embasbacado, impossível seria ouvi-los. Melhor assim, muito melhor. Via-os e podia imaginar o que conversavam. As doces trivialidades, o comentário frívolo, a declaração inconseqüente, o gesto confiante, a certeza que nem eles imaginavam que o futuro é uma propriedade deles. E deveria sê-lo. Uma propriedade dos que se amam. Só assim eu poderia me converter, depois de papagaio velho, num defensor acérrimo da propriedade, tal como os bobocas neofascistas da Sociedade da Família, das Tradições e da Propriedade.

Quanta saudade eu senti naquela noite! Saudade de minhas antigas namoradas. Saudade dos flertes. Saudade dos amores impossíveis. Saudade dos desejos nunca - nunca! - banalizados pela concretização.

Não falo das namoradinhas da juventude, quando diante de nós se posta, em expectativa, o grave e sublime sacramento do matrimônio. Mas daquelas outras, quando ninguém pensa em casamento. Quando não há desejo nem sensualidade. Só ciúme. Só vontade de ver. Só exibicionismo.

As minhas namoradas... Sempre fui um apaixonado. Um "perdidamente apaixonado". Ainda não vestira a primeira calça comprida, ainda não desvendara os primeiros mistérios do sexo, ainda não trauteava em escolas primárias, ainda não tivera, de meu, um vintém no bolso, e já conhecia e sofria penas de amor. A minha infância, a minha adolescência: todo um desfile feminino. Não de moças, digo. De meninas. Com algumas delas, nem cheguei a namorar. O que havia mesmo - e só agora compreendo - era uma estima muito grande, ciumenta e cheia de exigências. Muitas delas jamais souberam, sequer, que eram as minhas secretas namoradas... E é engraçado lembrar essas coisas, quando o tempo já provocou tantos desabamentos e tantas devastações.

Houve uma que era linda. Linda de linda. Tinha umas covinhas no rosto e um sorriso de boa pureza. Foi uma paixãozinha primeira. Recordo que, uma noite, durante uma hora ou pouco mais, estivemos sentados juntos, num banco de jardim. Não teríamos mais de 13 anos. Não, não teríamos. E aqueles minutos passados juntos foram sensacionais. Não dissemos uma palavra. Não trocamos um olhar. Não houve um gesto sequer. Mas sabíamos ambos, ela e eu, que o simples fato de estarmos juntos, sentados naquele banco, àquela noite, vistos pelos nossos amigos e até pelos adultos, era tudo. E não podia restar, a nós ou a eles, qualquer desconfiança sobre o nosso namoro. Depois ela viajou e eu a perdi de vista por muitos anos. Ficou como algo inacessível e enriquecido na minha memória. Eu pensava nela, procurava encontrá-la e ficava certo de que ainda estaria mais linda e que não esquecera o seu primeiro amor. É certo que jamais houve, entre nós, palavras. Que importa! Palavras poderiam ser importantes para duas crianças enamoradas? A certeza de que namorávamos já não era tudo, já não significava e dizia tudo? Não havia, entre nós, o longo silêncio cheio de paz? Muitos anos depois, já adulto, voltei a vê-la. Não era mais a minha namorada pequenina. Era uma moça, uma moça comum, e deixara para trás a sua beleza. Dela não restavam mais do que traços muito vagos, quase imperceptíveis.

Houve outras e muitas outras. Especialmente uma que foi um amor com letras maiúsculas. Com ela, a coisa foi diferente. Não havia um senão, uma carência, um mais ou menos. Era completa. E todos sabiam disso. Ela mais do que os outros. Era aspiração de qualquer um conquistar os seus favores. Um olhar, um sorriso. Namoramos. Namoro de umas três, quatro semanas. Ou menos, ou mais - não me lembro. Flertávamos. Sorriamo-nos.  E era o céu. Mas tudo foi tão curto, como a brevidade de todas as alegrias... E depois, mais tarde, tão sofrido. Ela me deixou sem um olhar, um sorriso sequer. Voltou-se para outros. Namorava outros, flertava outros. E todos os outros não a mereciam como eu a merecia, porque ninguém a amava tanto. Para mim ela era a alegria, a vida, a certeza da existência de Deus. Era tudo. E por ela sofri. Ninguém sofre mais do que a criança. Porque ela sofre um sofrimento abandonado, sofre sozinha. Sofre ilhada, incompreendida, sempre à beira do ridículo.Quantas vezes pedi, implorei, roguei a Deus que ela voltasse! Fiz promessas, rezei terços. Pensei até em fazer mandinga, feitiçaria. Ah, se eu conseguisse um pouco do seu cabelo... Ah, se ela bebesse um pouco da água servida por mim... Passei a escrever. Era preciso desabafar escrevendo. E enchi cadernos e mais cadernos com os meus penares. Escrevi até um drama, cujo fim era a minha morte e o seu remorso. Hoje, tantos e tantos anos passados, é claro que o meu coração já não bate por ela e que o amor que ela recusou já foi embora há muito e muito tempo. Mas ficou a lembrança, a estima, o apreço simples e puro. E a tristeza pelo seu destino, porque sei que casou, tem filhos e vive mal.

Hoje eu me pergunto se as meninas do meu tempo eram melhores ou piores do que as meninas de agora. E asseguro a mim que não havia, substancialmente, diferença entre elas. Como não havia, entre os mancebos das duas épocas, maior diversidade. O traço comum entre as várias épocas é a juventude. O que importa é a juventude. E a juventude é linda, é generosa, é pacífica, é mansa, é boa. A juventude acredita. A juventude espera. A juventude não se engana. E não se engana porque não sente, nunca, o gosto amaríssimo dos desencantos. A juventude de ontem não dançava o iéíéié, mas havia a marchinha e o dolente - e medíocre - bolero, com dois passos para lá e dois passos para cá. As saias eram saias e não minissaias, mas não havia diferenças nas pernas. Porque pernas de meninas são sempre iguais, são sempre belas. Vão ficando feias quando vão se tornando, com o passar dos anos, pontos de referência para os nossos calores latinos. Quando cada um de nós, barba na cara, entende como é poderoso o resultado da Queda...

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