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Antiga
guloseima é vendida nas ruas de Mossoró
Leonardo Sodré Editor
Geral
"O homem do cavaco
chinês - estranha massa de farinha de trigo, parece
que feita exclusivamente para aguçar a fome - com um
baú cilíndrico às costas e a agitar o característico
triângulo numa inconsciente aplicação prática da ação
do som sobre a secreção salivar, vibrava nesses tímpanos
e espremia nossas glândulas salivares enquanto anunciava:
- Ôie o cavaquinho
chinês".
(O Jornal. Rio de Janeiro,
03/09/1950 - Brandão, Téo, em Boletim trimestral da
Comissão Catarinense de Folclore).
O vendedor de cavaco
chinês era inevitável nas ruas da infância. Ele passava
todos dos dias tocando um triângulo de ferro, oferecendo
a guloseima que parece um casquinho de sorvete, mas
que é muito mais gostosa. E é barato. Até hoje é muito
barato. Em Mossoró, ele custa R$ 0,20 centavos a unidade,
sendo oferecido no formato de uma casquinha gigante
parecido com as de sorvete. Delicioso e aceito por todos.
Noutras cidades, como Natal, ele é vendido chapado dentro
de saquinhos de plástico. A informação é do único fabricante
mossoroense do produto, Manoel Maria Marinho que, aos
28 anos, casado e pai de dois filhos, sobrevive apenas
disso. Aprendeu o ofício ainda adolescente "com
um vendedor chamado Josimar".
Depois, conheceu "seu
Francisquinho", 102 anos, que lhe vendeu a primeira
prensa, que ele chama de "máquina" e que calcula
ter uns 120 anos, considerando que ele já há havia adquirido
de outra pessoa, no início de sua carreira de fabricante
de cavaco chinês. Ele imagina que Francisquinho foi
a primeira pessoa a fabricar o produto em Mossoró, no
início do século passado.
Não é fácil encontrar
muitas informações sobre a origem do cavaco chinês.
Na Internet quase não tem nada. Poucas citações lúdicas,
mas Manoel Maria diz saber que "cavaco significa
raspa de pau, coisa pouca e que teria sido inventado
na Índia, porque pessoas muito pobres precisavam aproveitar
o máximo do pouco que tinham para distribuir em casa".
"Por isso - enfatiza, - o cavaco chinês, que não
tem nada de chinês, é tão fino e delicado".
A "fábrica"
é nos fundos da casa de Manoel, que produz e vende juntamente
com apenas um vendedor, Marcos Roberto da Silva, 27,
também casado e pai dois filhos. Produz em média 300
cavacos por dia, das seis até as 12 horas, almoça e
depois sai para vender nas regiões próximas da sua casa,
que fica no bairro Belo Horizonte.
Perguntado por que
vendia tão barato, explicou: "Dependendo do freguês,
pode ficar um pouquinho mais caro".
Ele tem uma clientela
fiel e normalmente vende toda a produção. "Tem
gente que vem de Areia Branca e outras cidades, mas
eu não dou conta de fornecer para muita gente porque
eu não posso perder a qualidade do produto". Realmente,
ele trata com carinho todo o processo de fabricação,
inclusive usando luvas e procurando evitar o máximo
de contato de pessoas quando está assando a massa, que
manuseia de forma artesanal. "Aqui somente uso
água, farinha de trigo e açúcar e cada cavaco é feito
individualmente nas prensas novas e na velha que foi
de seu Francisquinho", explica.
O TRIÂNGULO E A LATA
- A lata, como chama o cilindro que os vendedores usam
para transportar o produto, é absolutamente igual em
todos os locais. Os vendedores de cavaco chinês sempre
a usaram e são reconhecidos de longe. Mas, existe um
componente interessante: O triângulo feito de ferro
que, segundo Manoel Maria, é usado para chamar a atenção
termina servindo para criar estilos musicais. "Eu
toco mais compassado, diz, e ele, (Marcos) toca mais
fininho, mais rápido".
Curiosidade - Manoel
Maria afirma que "muita gente não sabe o que é
um cavaco chinês. A gente sai tocando, chamando a atenção
e as pessoas perguntam: O que é isso? Não é casquinha
de sorvete? Outros perguntam pelo "recheio".
E não vai botar nada aí dentro? Outros somente querem
tocar o triângulo e terminam comprando o produto que
é feito em fogão a carvão, lentamente".
As pessoas mais novas
ficam curiosas e quando provam gostam do gosto do passado
de muitos que, fora o cavaco chinês, conheciam poucos
outros doces. "Muita gente importante, comerciantes,
industriais, gente mais velha, vem até aqui em casa
para comprar. Usam em aniversários, ornamentam tortas,
esse tipo de coisa"... Encerrou.
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