Mossoró-RN, domingo 16 de julho de 2006

Antiga guloseima é vendida nas ruas de Mossoró

Leonardo Sodré
Editor Geral

"O homem do cavaco chinês - estranha massa de farinha de trigo, parece que feita exclusivamente para aguçar a fome - com um baú cilíndrico às costas e a agitar o característico triângulo numa inconsciente aplicação prática da ação do som sobre a secreção salivar, vibrava nesses tímpanos e espremia nossas glândulas salivares enquanto anunciava:

- Ôie o cavaquinho chinês".

(O Jornal. Rio de Janeiro, 03/09/1950 - Brandão, Téo, em Boletim trimestral da Comissão Catarinense de Folclore).

O vendedor de cavaco chinês era inevitável nas ruas da infância. Ele passava todos dos dias tocando um triângulo de ferro, oferecendo a guloseima que parece um casquinho de sorvete, mas que é muito mais gostosa. E é barato. Até hoje é muito barato. Em Mossoró, ele custa R$ 0,20 centavos a unidade, sendo oferecido no formato de uma casquinha gigante parecido com as de sorvete. Delicioso e aceito por todos. Noutras cidades, como Natal, ele é vendido chapado dentro de saquinhos de plástico. A informação é do único fabricante mossoroense do produto, Manoel Maria Marinho que, aos 28 anos, casado e pai de dois filhos, sobrevive apenas disso. Aprendeu o ofício ainda adolescente "com um vendedor chamado Josimar".

Depois, conheceu "seu Francisquinho", 102 anos, que lhe vendeu a primeira prensa, que ele chama de "máquina" e que calcula ter uns 120 anos, considerando que ele já há havia adquirido de outra pessoa, no início de sua carreira de fabricante de cavaco chinês. Ele imagina que Francisquinho foi a primeira pessoa a fabricar o produto em Mossoró, no início do século passado.

Não é fácil encontrar muitas informações sobre a origem do cavaco chinês. Na Internet quase não tem nada. Poucas citações lúdicas, mas Manoel Maria diz saber que "cavaco significa raspa de pau, coisa pouca e que teria sido inventado na Índia, porque pessoas muito pobres precisavam aproveitar o máximo do pouco que tinham para distribuir em casa". "Por isso - enfatiza, - o cavaco chinês, que não tem nada de chinês, é tão fino e delicado".

A "fábrica" é nos fundos da casa de Manoel, que produz e vende juntamente com apenas um vendedor, Marcos Roberto da Silva, 27, também casado e pai dois filhos. Produz em média 300 cavacos por dia, das seis até as 12 horas, almoça e depois sai para vender nas regiões próximas da sua casa, que fica no bairro Belo Horizonte.

Perguntado por que vendia tão barato, explicou: "Dependendo do freguês, pode ficar um pouquinho mais caro".

Ele tem uma clientela fiel e normalmente vende toda a produção. "Tem gente que vem de Areia Branca e outras cidades, mas eu não dou conta de fornecer para muita gente porque eu não posso perder a qualidade do produto". Realmente, ele trata com carinho todo o processo de fabricação, inclusive usando luvas e procurando evitar o máximo de contato de pessoas quando está assando a massa, que manuseia de forma artesanal. "Aqui somente uso água, farinha de trigo e açúcar e cada cavaco é feito individualmente nas prensas novas e na velha que foi de seu Francisquinho", explica.

O TRIÂNGULO E A LATA - A lata, como chama o cilindro que os vendedores usam para transportar o produto, é absolutamente igual em todos os locais. Os vendedores de cavaco chinês sempre a usaram e são reconhecidos de longe. Mas, existe um componente interessante: O triângulo feito de ferro que, segundo Manoel Maria, é usado para chamar a atenção termina servindo para criar estilos musicais. "Eu toco mais compassado, diz, e ele, (Marcos) toca mais fininho, mais rápido".  

Curiosidade - Manoel Maria afirma que "muita gente não sabe o que é um cavaco chinês. A gente sai tocando, chamando a atenção e as pessoas perguntam: O que é isso? Não é casquinha de sorvete? Outros perguntam pelo "recheio". E não vai botar nada aí dentro? Outros somente querem tocar o triângulo e terminam comprando o produto que é feito em fogão a carvão, lentamente".

As pessoas mais novas ficam curiosas e quando provam gostam do gosto do passado de muitos que, fora o cavaco chinês, conheciam poucos outros doces. "Muita gente importante, comerciantes, industriais, gente mais velha, vem até aqui em casa para comprar. Usam em aniversários, ornamentam tortas, esse tipo de coisa"... Encerrou.

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