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Só
sai o nome
Marcos Bezerra Jornalista
- marcos.bezerra@redeintertv.com.br
O dia não foi dos melhores.
Cheguei em casa meio batido pelo cansaço. O trabalho
anda me consumindo as energias. Chefe de Pauta; tem
idéia do que isso significa? O cargo é só um eufemismo
para valo-rizar uma função que ninguém quer ocupar numa
empresa de comunicação. Tanto é assim que a pauta é
o destino de to-dos os focas, os iniciantes do jornalismo.
No setor filtramos as informações que nos che-gam; definimos
o que rende e o que não rende matéria an-tes de mandar
as equipes para a rua.
Esse trabalho se torna
complicado diante da quantidade de informações que chegam
à redação da TV, diariamente. Fontes não faltam, tentando
emplacar uma matéria, ou vender o peixe, como gosto
de definir a negociação. - Me venda seu peixe. Costumo
dizer para os que gozam de mais intimidade.
Acontece que jornalismo
não é uma ciência exata - eu diria que é a mais inexata
que existe. O assunto que para mim dá uma boa matéria
e passa pelo processo de filtragem, pode não render
na opinião do editor, do chefe de reportagem ou mesmo
do repórter. Se qualquer um dos três não simpatizar
com o assunto em questão a matéria deixa de ser feita,
ou, no português de redação, simplesmente cai. Ficamos
assim: você faz a pauta e o pessoal acha que o assunto
não rende; você não faz e aparece alguém para perguntar.
- Por que não demos este assunto?
Se a pauta tiver uma
informaçãozinha que for, errada, cai do mesmo jeito.
Assim os erros ficam sempre com o setor de pautas e,
conseqüentemente, com a chefia. E, por mais que as informações
gerem uma boa matéria você nunca vai ter o reconhecimento
pelo trabalho - ele vai para o repórter e, por tabela,
para o editor, que consegue botar no ar um jornal melhor
que a média.
E este ingrato setor,
que alguns consideram o cérebro da empresa - a redação
é o coração -, me faz trabalhar mais que a conta. Mesmo
em casa estou sempre percorrendo os sites de notícias
em busca informações quentes, tentando me manter por
dentro dos acontecimentos locais e trazer os assuntos
de interesse nacional para a realidade do Rio Grande
do Norte. Tudo para não ser furado por nenhum outro
órgão de imprensa. Quando isso acontece, quem é que
fica com a culpa? Quando conseguimos um furo, de quem
são os créditos? Desculpe se estou sendo repetitivo,
mas gosto de reconhecer o trabalho dos outros e, por
este mesmo motivo, gosto de ver o meu reconhecido. Deve
ser conseqüência do trabalho na rua. Para quem se acostumou
a ouvir os comentários das matérias direto dos telespectadores
e ver o trabalho destacado nos relatórios dos editores,
é chato saber ser quase impossível um “beleza de pauta”.
Lidamos diretamente
com a comunidade e acabamos, além de jornalistas, nos
transformando em especialistas em relações pessoais.
Não é fácil explicar para uma pessoa que o problema
que tanto lhe aflige não vai virar matéria. Nem sempre
a conversa convence. - Ah, então eu vou ligar para a
Ponta Negra!
Por mais fantasiosa
que seja a conversa ela só vai ter um fim no ouvido
da gente. Jornalista é um bicho tão besta que não diz
não nem mesmo para os amigos. Deixa para a pauta.
O destino pode ter
determinado assim, mas acho que estou no setor errado.
Pensando bem, acho que estou no setor certo. Um amigo
me disse uma vez que o meu “zangador” ficava mais longe
do que o das outras pessoas. Quer dizer que demoro a
perder a paciência. Olha que o pessoal tem tentado.
- Eu mesmo não dou mais sugestões de pauta; as que eu
dou não são produzidas! Ignoram que a idéia pode não
ser tão boa assim; as limitações do setor ou mesmo as
orientações que vêm de cima - dos editores, chefia de
redação ou da direção de jornalismo. Ignoram também
que não somos computadores ambulantes, para administrar
todas as sugestões e pedidos ao mesmo tempo. Mas cobram
e, mais que isso; criticam sem cerimônia.
Aos poucos, na nova
função, estou descobrindo que, além de administrar tudo
isso, temos - eu e meus colegas de pauta - que administrar
também o humor, a disposição e mesmo a vaidade dos que
vão para a rua. Um repórter indisposto ou mal humorado
tem tudo para não simpatizar com a matéria sugerida
na pauta. Já a vaidade; não precisa mais que algumas
matérias de pouco destaque, para alguém achar que está
sendo desprestigiado. Durma-se com um barulho desses.
Por ter atuado tanto
tempo como repórter acabo batendo de frente com os colegas
de redação. Costumo dizer, sem falsa modéstia, que sei
quando uma matéria rende ou não rende, afinal, foram
treze anos na rua, muitas vezes definindo o gancho -
o enfoque - no calor da matéria. Quantas vezes não saímos
para fazer uma coisa e trouxemos outra para a redação?!
O difícil é a turma aceitar isso.
Críticas também não...
Do meu lado digo que já aceitei uma: estou aprendendo
que nem sempre o repórter vê a matéria do mesmo jeito
que a pauta pensou. De qualquer maneira continuo achando
que qualquer que seja o trabalho jornalístico, ele começa
por um bom texto. Nesse ponto continuo irredutível.
Me pego agora escrevendo
um documento interno para uma meia dúzia de ingratos;
sem o mesmo cuidado com os textos que tinha quando fazia
reportagens - a correria não permite e mesmo eles não
merecem tanto. Espero que este o espaço semanal me impeça
de perder o jeito. Interessante que é daqui que tenho
colhido as últimas manifestações de reconhecimento.
Quanto ao meu trabalho/penitência
remeto a um personagem folclórico da avenida Cunha da
Mota, o marceneiro Patrice Lumumba. Mal nossa equipe
retornava de uma matéria ele saudava o cinegrafista.
- Cícero Pascoal, só sai o nome, não sai a figura!
Marcos Bezerra, só
sai o nome, não sai a figura.
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