Mossoró-RN, domingo 20 de agosto de 2006

As velhas ruas da cidade

GERALDO MAIA
gmaia@bol.com.br

O mais antigo relato que se tem das ruas de Mossoró é de autoria do viajante estrangeiro Henry Koster que por aqui passou em 7 de dezembro de 1810, a caminho do Ceará. Como cronista que era, registrou suas impressões: “ ... às 10 horas da manhã, chegamos ao Arraial de Santa Luzia , que consta de duzentos ou trezentos  habitantes. Foi edificado em quadrângulo tendo uma igreja e casas pequenas e baixas”.

A cidade de Mossoró surgiu em volta de uma capela, que ficava no mesmo local onde hoje se encontra a Igreja Matriz de Santa Luzia. Ao redor da capela foram surgindo casas e formou-se a quadra da rua, como nos ensina Raimundo Nonato na sua “Evolução Urbanística de Mossoró”.  A rua do Desterro foi a primeira; a origem do nome ninguém sabe. O que se sabe é que ela corria ao lado direito da capela com sua frente voltada para o centro da quadra. Outras ruas foram surgindo, todas com seus nomes pitorescos: rua do Cotovelo, rua dos Afogados, rua do Rio, rua do Remanso, rua do Fresco, rua da Lagoa...

Os nomes surgiam naturalmente, como se as próprias ruas se autodenominassem.  Algumas ruas tinham nomes bem estranhos, como Beco do Pau-não-cessa, rua Joana do Bulbo, rua Canhão de Chico Amâncio, etc.

Com o crescimento da cidade se fazia necessário nomear oficialmente as ruas e numerar as casas. Assim, em 12 de janeiro de 1871, a Câmara Municipal resolve nomear uma comissão para realizar esse trabalho. A comissão era constituída por Jeremias da Rocha Nogueira, fundador do jornal “O Mossoroense”  e Antônio Filgueira Filho, que posteriormente foi presidente da Intendência. Desconhecemos se essa comissão apresentou algum relatório para a Câmara Municipal. Não se conhece tal documento. E as ruas continuavam a surgir: rua dos Afogados, rua Campo Santo...

Em 1874 é constituída pela Câmara Municipal outra comissão com o mesmo fim da comissão anterior. Essa nova comissão era formada por Rafael Arcanjo da Fonseca, José Alexandre Freire de Carvalho e o alferes João da Costa Andrade. A idéia da comissão foi de iniciativa do administrador da Mesa de Rendas Provinciais, que desejava oficializar os nomes das ruas. A comissão apresentou o seu relatório que foi aceito pela Câmara, determinando que fossem colocadas placas nas paredes das esquinas com os nomes e as indicações porque passariam a ser denominadas. E aqueles primitivos nomes deram lugar a novas denominações como rua Conde D'Eu, rua Visconde do Rio Branco, travessa da Independência, praça Santa Luzia, praça do Vigário, etc. Tudo estava resolvido. Mas com o passar dos tempos, a cidade cria seus heróis e é preciso homenageá-los de alguma maneira. E a melhor maneira era perpetuá-los dando os seus nomes a algumas ruas ou praças da cidade.

Em 6 de setembro de 1932, o então  prefeito de Mossoró Tertuliano Aires Dias, atendendo recomendações do interventor do Estado, mandou apagar e mudar os nomes de pessoas vivas afixadas em ruas e praças da cidade, através do ato de número 14 da mesma data. O ato previa ainda que deveriam ser retirados os retratos existentes na Galeria Histórica de Mossoró de algumas pessoas. Dessa forma, algumas ruas tiveram seus nomes mudados. A rua Coelho Neto passou a se chamar Jerônimo da Câmara, a praça Alípio Bandeira teve o nome de Paulo de Albuquerque, a Rafael Fernandes recebeu o nome de Padre João Maria, a Antônio de Souza passou a ser Guilherme de Melo, e assim por diante.

O desenvolvimento urbanístico da cidade exige que novas ruas sejam abertas constantemente,  ruas essas que logo são batizadas com nomes de pessoas que na maioria dos casos são desconhecidas  pelos próprios moradores. O pesquisador Raimundo Soares de Brito fez levantamento dos patronos de todas as ruas existentes hoje em Mossoró. Esse trabalho, que deverá ser lançado em livro brevemente, levou trinta anos para ser concluído.

Já não se encontra mais em Mossoró ruas com seus primitivos e pitorescos nomes. A necessidade dos nossos políticos de homenagear pessoas, fez com todas fossem renomeadas.  Daqueles nomes graciosamente originais, quase ninguém lembra: apagaram-se na poeira do tempo.

 

Só sai o nome

Marcos Bezerra
Jornalista - marcos.bezerra@redeintertv.com.br

O dia não foi dos melhores. Cheguei em casa meio batido pelo cansaço. O trabalho anda me consumindo as energias. Chefe de Pauta; tem idéia do que isso significa? O cargo é só um eufemismo para valo-rizar uma função que ninguém quer ocupar numa empresa de comunicação. Tanto é assim que a pauta é o destino de to-dos os focas, os iniciantes do jornalismo. No setor filtramos as informações que nos che-gam; definimos o que rende e o que não rende matéria an-tes de mandar as equipes para a rua.

Esse trabalho se torna complicado diante da quantidade de informações que chegam à redação da TV, diariamente. Fontes não faltam, tentando emplacar uma matéria, ou vender o peixe, como gosto de definir a negociação. - Me venda seu peixe. Costumo dizer para os que gozam de mais intimidade.

Acontece que jornalismo não é uma ciência exata - eu diria que é a mais inexata que existe. O assunto que para mim dá uma boa matéria e passa pelo processo de filtragem, pode não render na opinião do editor, do chefe de reportagem ou mesmo do repórter. Se qualquer um dos três não simpatizar com o assunto em questão a matéria deixa de ser feita, ou, no português de redação, simplesmente cai. Ficamos assim: você faz a pauta e o pessoal acha que o assunto não rende; você não faz e aparece alguém para perguntar. - Por que não demos este assunto?

Se a pauta tiver uma informaçãozinha que for, errada, cai do mesmo jeito. Assim os erros ficam sempre com o setor de pautas e, conseqüentemente, com a chefia. E, por mais que as informações gerem uma boa matéria você nunca vai ter o reconhecimento pelo trabalho - ele vai para o repórter e, por tabela, para o editor, que consegue botar no ar um jornal melhor que a média.

E este ingrato setor, que alguns consideram o cérebro da empresa - a redação é o coração -, me faz trabalhar mais que a conta. Mesmo em casa estou sempre percorrendo os sites de notícias em busca informações quentes, tentando me manter por dentro dos acontecimentos locais e trazer os assuntos de interesse nacional para a realidade do Rio Grande do Norte. Tudo para não ser furado por nenhum outro órgão de imprensa. Quando isso acontece, quem é que fica com a culpa? Quando conseguimos um furo, de quem são os créditos? Desculpe se estou sendo repetitivo, mas gosto de reconhecer o trabalho dos outros e, por este mesmo motivo, gosto de ver o meu reconhecido. Deve ser conseqüência do trabalho na rua. Para quem se acostumou a ouvir os comentários das matérias direto dos telespectadores e ver o trabalho destacado nos relatórios dos editores, é chato saber ser quase impossível um “beleza de pauta”.

Lidamos diretamente com a comunidade e acabamos, além de jornalistas, nos transformando em especialistas em relações pessoais. Não é fácil explicar para uma pessoa que o problema que tanto lhe aflige não vai virar matéria. Nem sempre a conversa convence. - Ah, então eu vou ligar para a Ponta Negra!

Por mais fantasiosa que seja a conversa ela só vai ter um fim no ouvido da gente. Jornalista é um bicho tão besta que não diz não nem mesmo para os amigos. Deixa para a pauta.

O destino pode ter determinado assim, mas acho que estou no setor errado. Pensando bem, acho que estou no setor certo. Um amigo me disse uma vez que o meu “zangador” ficava mais longe do que o das outras pessoas. Quer dizer que demoro a perder a paciência. Olha que o pessoal tem tentado. - Eu mesmo não dou mais sugestões de pauta; as que eu dou não são produzidas! Ignoram que a idéia pode não ser tão boa assim; as limitações do setor ou mesmo as orientações que vêm de cima - dos editores, chefia de redação ou da direção de jornalismo. Ignoram também que não somos computadores ambulantes, para administrar todas as sugestões e pedidos ao mesmo tempo. Mas cobram e, mais que isso; criticam sem cerimônia.

Aos poucos, na nova função, estou descobrindo que, além de administrar tudo isso, temos - eu e meus colegas de pauta - que administrar também o humor, a disposição e mesmo a vaidade dos que vão para a rua. Um repórter indisposto ou mal humorado tem tudo para não simpatizar com a matéria sugerida na pauta. Já a vaidade; não precisa mais que algumas matérias de pouco destaque, para alguém achar que está sendo desprestigiado. Durma-se com um barulho desses.

Por ter atuado tanto tempo como repórter acabo batendo de frente com os colegas de redação. Costumo dizer, sem falsa modéstia, que sei quando uma matéria rende ou não rende, afinal, foram treze anos na rua, muitas vezes definindo o gancho - o enfoque - no calor da matéria. Quantas vezes não saímos para fazer uma coisa e trouxemos outra para a redação?! O difícil é a turma aceitar isso.

Críticas também não... Do meu lado digo que já aceitei uma: estou aprendendo que nem sempre o repórter vê a matéria do mesmo jeito que a pauta pensou. De qualquer maneira continuo achando que qualquer que seja o trabalho jornalístico, ele começa por um bom texto. Nesse ponto continuo irredutível.

Me pego agora escrevendo um documento interno para uma meia dúzia de ingratos; sem o mesmo cuidado com os textos que tinha quando fazia reportagens - a correria não permite e mesmo eles não merecem tanto. Espero que este o espaço semanal me impeça de perder o jeito. Interessante que é daqui que tenho colhido as últimas manifestações de reconhecimento.

Quanto ao meu trabalho/penitência remeto a um personagem folclórico da avenida Cunha da Mota, o marceneiro Patrice Lumumba. Mal nossa equipe retornava de uma matéria ele saudava o cinegrafista. - Cícero Pascoal, só sai o nome, não sai a figura!

Marcos Bezerra, só sai o nome, não sai a figura.

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