|
A
palavra de Dorian Jorge Freire
Alegria e realidade
A minha infância, a minha adolescência.
Dizer que houve aquele tempo e não pude cativá-lo...
Deixei escorresse entre os dedos, ouro em pó. Quando
via os meus filhos, pensava. Brincavam com a meninada
da vizinhança. Todos com os mesmos casos, a mesma ausência
de problemas. Conversavam, riam, brigavam. Idênticos
em tudo. Não sabiam que viviam um paraíso. E que havia,
como ameaça, o tempo. O relógio, a sombra. O abandono
do claro do dia. Quando menos esperaram, veio a vida
que maltrata, e tritura, e deforma. Caminhavam inocentemente,
mas iam deixando o paraíso. Inútil advertir.
- Folguem. Mais intensamente. Corram
mais, riam mais alto. Olhem mais detidamente as suas
mãos de crianças, as suas pernas ligeiras. Vejam os
olhos, vejam os amigos. Não percam um minuto.
Não entenderiam, é claro. A felicidade
é aquilo: ignorância satisfeita, prodigalidade. Deixar
que a alegria corra sem freios, sem pena, sem sovinagem.
Sempre assim. A roda gigante, em circular infinita.
No começo, os dentes afiados que não atingem a pele.
Depois, crescidos, começam a lanhar o couro.
No meu tempo de criança, passava o
dia inteiro seminu a brincar. Esconde-esconde, tique,
dona de barra, procissão, circo, arengas com empregadas,
rolar no chão, mexer em guardados indiferentes. Correr
de velocípede, discutir besteirinhas, trocar novidades.
Alegria no reencontro com o Pai que chega. Jantar barulhento.
"Psius" dos velhos, admoestações. Conversas
na calçada: estórias de Trancoso. A Segunda Guerra Mundial:
Japão e Alemanha. A Alemanha era um país terrível, governado
por um assassino. E o Japão ficava embaixo de nossos
pés, no oco do mundo. Centenas, milhares de metros abaixo
de onde ficavam guardados os mortos. Cinema era novidade
domingueira. Havia o rádio, os jornais. Meu Pai assinava
jornais de várias capitais. Era, acredito, o homem mais
bem informado da cidade. O rádio era coisa para adulto.
O lá de casa era enorme, pesado e negro. Uma caixa alta.
"Holandês do bom", explicava o Velho. E um
vizinho que, todas as noites, vinha buscar notícias
da guerra, acrescentava: "Pega até a BBC..."
O gabinete de meu Pai. O divã perto do rádio. Estantes
nas paredes: Pitigrilli, Ruy, Vargas Villa, João do
Rio, Constallat, João Grave, Machado, Eça. Num canto,
a escrivaninha linda de minha Mãe.
Minha Mãe ficava pastorando as nossas
brincadeiras. Até que da cadeia a corneta anunciava
nove da noite. Tomar a benção, fazer xixi e rede. Minha
irmã brincava de rodas e eu preferia o jogo de anel.
No jardim defronte, a molecada livre e longínqua, solta
e temerária. Não me perdoava o brincar distante, a marginalidade,
a intimidade com as meninas.
- Bendito sois entre as mulheres!
Faz tanto tempo! Curioso: brincando
com as meninas, jamais houve preocupação sexual. Éramos
todos assexuados. Sexo chegou mais tarde, aos 13 ou
14 anos de idade. Antes, era tudo ignorância. Estava
convencido de que os meninos vinham por obra e graça
do Espírito Santo, nascidos em operação abre-barriga.
Taludo, um amiguinho quis que eu resolvesse a contenda
porque outro assegurava que os meninos resultavam de
uma relação sexual entre os pais. Achei repugnante esta
versão e a desmenti, com ênfase...
Hoje, esses dias de ontem já morreram.
E cada vez mais eu acho que vive-se para trair a infância.
Só não a traem, os que morrem na sua idade. Vejo meus
filhos, ouço as suas gargalhadas. Vivem a sua infância,
agora. Amanhã, adultos, dirão o mesmo diante do mesmo
quadro e de seus filhos. Saberão, como eu sei agora.
Mas já será tarde.
São velhas histórias, antigas recordações.
Mas as velhas histórias também contam. Mesmo porque
deixam, naqueles que as viveram, as suas grandes marcas.
Indeléveis. Condicionando quantas coisas, meu Deus,
no seu modo de ser, de pensar, de agir! Em Pequeno Mundo,
Hesse mostra como fatos havidos como insignificantes
têm a força de alterar caminhos e estabelecer destinos.
Somos providencialistas, claro. Não
fatalistas. Nada acontece fora da vontade de Deus. As
coisas seriam diferentes se outras, anteriores, tivessem
sido diferentes.
Conheci alguém, nos meus idos, que
tinha tudo para uma realização pessoal fácil. Era inteligente,
possuía curiosidade inte lectual, convivia com
livros e idéias, era filho de intelectuais, cooexistiu,
desde menino, com as coisas da inteligência e do espírito.
Não foi bom aluno. O exemplar. O primeiro. Nem era um
passivo. Era rebelado, estouvado, meio fora de sério.
Com rompantes, exageros e explosões não só próprios
da idade, mas comuns em adolescentes chegados às idéias.
Não foi personificação de bom senso, talvez o temperamento
atirado o conduzisse à prática de crueldades. À sua
superestimação e à subestimação dos outros. Principalmente
dos hierarquicamente seus superiores na ocasião.
Criou-se em torno dele, por parte
daqueles superiores, não direi uma conspiração. Seguramente,
um mundo de humanos preconceitos. Mais velho, mais vivido,
mais sensato, poderia ter rompido o cerco e restabelecido
a paz. Mas era um menino. E respondeu à antipatia com
a sua agressão. E dividiu o seu mundo entre os capazes
de compreendê-lo e ... os outros. Os outros incapazes,
ineptos, medíocres.
De súbito, a corda rompeu do seu lado
fraco. Fosse um sensato, tentaria desembaraçar-se do
empecilho. Sendo um maluco, rompeu com o estabelecido
pelo gostinho de não dar o gesto. Aquilo deveria ter
sido um acidente. Transformou-se em coisa terrível.
Porque como se não lhe bastasse o tropeço, não de todo
injusto, teve de amargar a traição, a deslealdade, a
ingratidão, o desrespeito à amizade. Tudo isso da parte
daqueles mais próximos, imaginavelmente mais identificados
com a sua alma, mais abertos à compreensão de suas verdades.
Que o tratassem com rigor os que não o entendiam, aceitava.
Que ao saber de conveniências os amigos deixassem o
amigo ficar falando sozinho e contribuíssem para aprofundar
o seu abismo, a sua juventude em flor não podia perdoar.
E o menino deixou a estrada larga.
Passou ao matagal, à selva selvaggia. As ambições se
frustravam diante da realidade. Havia que enfrentar
o mundo sem os instrumentos que fazem a luta menos árdua.
Não foi apenas alcançado por um acidente-incidente.
Foi esmagado. Enquanto os demais seguiam na alameda,
ele penava. Só Deus sabe como e quanto.
Tanta coisa fez, que é impossível
saber se foi melhor assim ou se teria sido melhor diferente.
Através de suas forças, realizou o que nem sempre conseguem
os outros realizar com o arrimo de melhores situações.
Tornou-se conhecido. Deu-lhe Deus a oportunidade de
participar da construção de alguma coisa. Discutir problemas,
pensar e repensar idéias, estabelecer diálogos, servir,
às vezes, de conforto para os outros.
Passados tantos anos daquelas acontecências,
em mais um de seus rompantes se submete às regras e,
em 30 dias, salta os obstáculos. Supera, de um pulo,
tudo. E se coloca na vida universitária. Em um mês,
seis anos.
Como fatos em si ligeiros, tomados
sem reflexão, ao arrepio da sensibilidade moral, frutos
de pouquíssimo respeito pelo nosso semelhante, mudam,
alteram, modificam a vida. Naquela época colocada no
pretérito, quem haveria de imaginar que o rigorismo
aliado à deslealdade haveria de marcar tão dolorosamente
uma vida? Eu disse uma vida? Tantas vidas. Que não há
homem cuja vida não se entrelace com a vida do outro.
Que não há ilhas humanas. A vida daquele, mais as vidas
de seus pais, mais a vida de sua mulher, mais as vidas
de seus filhos. Lutas, fiascos, lágrimas, noites de
vigília, perplexidade, instabilidade, insegurança.
Segundo Bloy, das faculdades humanas
a memória foi a mais atingida pela Queda. Os homens
esquecem. Mas Deus não esquece porque não é humano.
Deus não esquece. Perdoa. Ou não perdoa...
|