Mossoró-RN, domingo 20 de agosto de 2006

RESTOS
Cefas Carvalho
Jornalista (Natal/RN)

Tudo de mim que restou
Do horror que me fizeste
É a conta que nos sobrou
De nosso período da peste 

Tudo de mim que permanece
Do mal que me lançaste
É o pouco que tu mereces
Da raiva que não aplacaste

Tudo de mim que apodrece
O que definha e morre pagão
É o pouco que me socorre
Quando da chegada do Cão 

Tudo de mim que regurgita
A ceia voltada à garganta
Como um coração que grita
E a todos os males espanta

SEIOS
Jaécio de Oliveira Carlos
Poeta (Natal/RN)
jaecio-carlos@uol.com.br
Do livro “Poemas Explícitos”

Gostas quando levemente
repouso minhas mãos
sobre teus seios
no instante de beijos fartos,
vagarosos
sobre eles...

massagens de energia
acompanham o deleite da minha língua
passeando suavemente
em toda a extensão horizontal
desses pequenos montes moreno-claros...

nos enclausuramos
sob a tênue luminosidade
vinda da janela em arco cheia de raios
mostrando o céu de esparsas nuvens...

o som baixinho
das nossas canções preferidas
faz o clima ameno
ser cúmplice desses instantes plenos...

minhas mãos mexem-se
em movimentos que gostas

teus seios cada vez mais
em minha boca
produzem delírios de uma sedução infinda...

um beija-flor se equilibra
sugando o néctar dos teus desejos
mais profundos
e suspiras um suspiro profano

teus olhos fechados
imaginam viagens etéreas
em fantasias multicores
e uma flor amarela
se abre em perfumes secretos...

o reflexo da luz em teus seios molhados
colore ainda mais
a  morenice desse corpo em agonia
e um piano suaviza nossos canções
com melodias de divindades...

... a viagem continua
em teus contornos de princesa
e uma rosa aparece intacta
em minhas mãos.

BILHETE
Mário Quintana

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

EU
Júlio Romão
Estudante (Mossoró/RN)

Por que me sentir bem?
Não tenho motivos para isso.
Sozinho no mundo sem ninguém;
jogado como um saco de lixo. 

Sem sentidos,
sem paciência,
sem memória clara.
Não sei o que sou,
não sei o que quero.
A frieza me possuiu;
sou um imenso iceberg. 

E assim vivo narrando,
a minha vida, vou contando;
sem sequer um toque seu.
Sem sequer um beijo teu. 

Desejaria até o teu desprezo.
Tudo é melhor,
do que me sentir rejeitado.
Em grande parte,
sou o principal culpado disso.
Tudo, por ser frio, calculista e desligado.

ASTROLÁBIOS
Sílvio Atanes
Escriba digital e repórter de papel (Santos/SP)

Neste trêmulo catre da alvorada atroz
Escotilhas mancham masmorras de pó
Soltam tênues amarras do banzo gonzo
E Dulcinéias escapam do arco-celeste
Dos olhos abissais dos porta-retratos

Desde a Figueira da Foz até Vigo
Vascos amalgamados singram sóis
Gálatas galícios vibram vitupérios
E gélidas sereias louvam a virtude
De garbosos cavaleiros de nanquim 

Girândolas giras desafiam quixotes
Desde trôpegas taprobanas até as
Ocidentais praias da memória algoz
Trovas de rotos lábios astrais vertem
Jacobinos caminhos de tanta luz anil

A tênue tez da terra dos desterrados
Destila o zinabre da pena gauche e vil
A escorrer as lágrimas da alma torta
E a viola-marola marulha barulhos
Nas amuradas das velas levitantes.

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