Prefeitos da região Nordeste discutem recriação da Sudene

NATAL - Metade da classe trabalhadora do país que recebe apenas um salário mínimo vive no Nordeste, região na qual habita quase 30% da população nacional.

Este é apenas um dos indicadores sociais que justificam a aplicação de um tratamento diferenciado para a região e que tem motivado o debate em torno da reabertura da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), como o que foi realizado ontem pela manhã, no auditório do Cefet, entre a coordenadora do grupo constituído pelo governo Lula para analisar o assunto, economista Tânia Bacelar, prefeitos da região e representantes de entidades de classe e do setor produtivo.

A iniciativa de promover a reunião partiu da governadora Wilma de Faria que, na abertura dos trabalhos, disse achar importante que seja reservado à nova Sudene o papel de órgão implementador de políticas públicas eficientes que combatam as desigualdades regionais. Segundo ela, é salutar que esta discussão passe pelo crivo dos gestores municipais, cuja união e somatória de propostas devem refletir efetivamente no perfil que a instituição irá assumir.

“A discussão sobre a seca no Nordeste é secular; precisamos agora discutir o futuro da região, levando em conta a necessidade de conviver com a seca”, defendeu a governadora, lembrando que foi exatamente esta questão que norteou a criação da Sudene em 1959, no governo Juscelino Kubitschek, sob a inspiração do economista Celso Furtado, primeiro presidente da instituição. “A proposta da Sudene no início era canalizar investimento para infra-estrutura, como a implantação de parque têxtil para a região, mas depois de 1964, com os governos militares, se limitou a promover ações de combate às secas”, lembrou Wilma.

O processo de discussão sobre a reabertura da Sudene, transformada há dois anos pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em Agência de Desenvolvimento do Nordeste (ADENE), que sequer se consolidou, tem evidenciado a necessidade, na visão de Tânia Bacelar, de que o novo órgão tenha condições de responder aos desafios da atualidade e às demandas do terceiro milênio, considerando a realidade de cada microrregião do Nordeste.

Tânia Bacelar ouviu dos prefeitos e dirigentes de associações de municípios o mesmo recado que lhe foi dado na reunião que realizou há poucos dias, no Recife, com os secretários de Planejamento dos estados nordestinos, que na ocasião representavam os governadores: é importante, de fato, recriar a Sudene, mas desde que seja com recursos assegurados para coordenar os investimentos de que a região necessita.

Sugestões como esta estão sendo colhidas por Tânia Bacelar nos debates que tem participado, devendo ser posteriormente analisadas pelo grupo interministerial que discutirá o assunto com o presidente Lula. Ela ressaltou a necessidade de a reabertura da Sudene ser discutida, sem preconceitos, por prefeitos, governadores e representantes de classe, não apenas no Nordeste, mas também no Sudeste, com a participação inclusive da grande imprensa.

Prefeitos querem uma Sudene
forte e com recursos

Quando a Sudene foi fundada por Celso Furtado, o Brasil era um país agrário e hoje, 42 anos depois, é eminentemente urbano, com 82% de sua população, em média, morando nas cidades, que passaram a concentrar problemas de todas as naturezas, como a falta de saneamento básico e de aterros sanitários adequados para o recolhimento do lixo. “A nova Sudene deve levar em conta esta realidade”, frisou o prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves, diante de um auditório repleto de prefeitos, secretários e representantes de entidades de classe, como Federação das Indústrias e da Agricultura.

Para o prefeito Agnelo Alves, de Parnamirim, uma questão deve ser analisada com prioridade desde já: com quais recursos a Sudene recriada irá contar? Na sua opinião, compartilhada por diversos outros administradores municipais presentes, o orçamento do órgão deveria ser constituído principalmente com recursos do Fundo do Desenvolvimento do Nordeste (FNE), operado hoje exclusivamente pelo Banco do Nordeste, e pelo antigo Finor, cujas denúncias de desvio de dinheiro acabaram resultando na sua extinção. “Com um orçamento definido, será possível discutir a melhor maneira de aplicar os recursos, de forma que todos os estados sejam aquinhoados”, opinou.

O prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, se manifestou a favor de uma Sudene moderna, contemporânea, eficiente e participativa, responsável pelo planejamento e execução de políticas de desenvolvimento para o Nordeste. “Recursos para isto existem, com os do FNE e Finor, só precisam ser articulados e mobilizados”.

O presidente da Associação dos Municípios de Pernambuco, Sérgio Miranda, acha que os prefeitos, através das entidades municipalistas, devem não somente influir na política de recriação da Sudene, mas ter participação ativa na sua condução. Opinião semelhante tem seu colega, Hudson Pereira, prefeito de Santana do Seridó e presidente da Federação dos Municípios do Rio Grande do Norte (FEMURN), para quem a nova política da Sudene deve contemplar investimentos que gerem emprego e renda nos municípios.

 

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Mossoró-RN, quinta-feira, 23 de janeiro de 2003