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ALESSANDRO OLIVEIRA Da redação
O Brasil é conhecido pelo seu valor
multicultural. Muitas culturas desempenharam um papel
importante para a formação do que hoje é denominado
'Cultura brasileira'. As religiões afro-brasileiras,
por exemplo, desempenham um papel muito importante nessa
configuração.
No Brasil, apesar da predominância
católica, facilmente se observa essa pluralidade. "As
conhecidas analogias entre santos católicos e divindades
africanas são variáveis conforme a região do país. No
Rio Grande do Sul, por exemplo, há identidades entre
São Jorge e Ogum, Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes,
o que não necessariamente ocorre da mesma forma em outros
estados", afirma o professor Dr. Márcio Santos,
da Univesidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
A escravidão no Brasil foi um elo
de grande importância para a criação desse imaginário
religioso.
"Na origem, tais religiões têm
relação direta com as crenças dos negros trazidos da
África durante o período escravocrata. Todavia, não
constituem um mero 'transplante' destas. São, na verdade,
resultados de complexos processos de redefinições, adaptações,
combinações e imbricações, devido a uma série de fatores",
esclareceu.
As religiões afro-brasileiras são
praticadas por 0,3% da população e têm diversas denominações
como Batuque, Candomblé, Catimbó, Culto aos Egungun,
Culto de Ifá, Jurema sagrada, Quimbanda, Macumba, Tambor-de-Mina,
Umbanda, Xangô do Nordeste e Xambá
Elas mantêm relações com algumas outras
originalmente africanas como o Yorubá e outras Afro-caribenhas
como a Santeria e o Vodu,
As religiões afro-brasileiras são
relacionadas com a religião Yorubá e outras religiões
africanas, e diferentes das religiões afro-caribenhas
como a Santeria e o Vodu.
Essas religiões geraram diversas outras
por motivos diversos. "Pode-se destacar, por exemplo,
o fato da escravidão ter acarretado a necessidade de
convivência entre sujeitos oriundos de distintas regiões
da África - diferentes entre si. Além disso, como era
muito comum os senhores tentarem converter seus escravos
ao catolicismo, muitos elementos deste acabaram sendo
incorporados e/ou mesclados com o panteão de matriz
africana", complementou.
Atualmente, o Candomblé, umas das
religiões afro-brasileiras, tem milhões de seguidores
no país, principalmente entre os descendentes de escravos,
a população negra. Concentram-se, geralmente, nos grandes
centros urbanos.
A umbanda, diferentemente do candomblé,
é uma religião sobrevivente da África Ocidental que
representa o sincretismo religioso entre o catolicismo
e as crenças e ritos africanos.
Existem outras como o batuque, o Xangô
do Recife e o Xambá que foram trazidas originalmente
pelos escravos negros advindos da África. Estes cultuavam
seu deus, e as divindades chamadas Orixás, Voduns ou
inkices com cantos e danças.
PRECONCEITO - As religiões afro-brasileiras
são perseguidas, pois acredita-se ter o poder de produzir
o bem e o mal.
Hoje são consideradas como religiões
legais no país e apesar de estarem cada vez mais sendo
compreendidas pela sociedade, ainda sofrem com o preconceito.
"O catolicismo foi a única religião
efetivamente tolerada no Brasil. A separação oficial
entre a Igreja e o Estado, por exemplo, só ocorreu após
a Proclamação da República, em 1889. Assim, durante
muito tempo os praticantes das religiões afro-brasileiras
se viram na necessidade de se afirmar católicos publicamente,
deixando os ritos de origem africana restritos ao âmbito
privado", avaliou.
"Todavia, o preconceito ainda
existe, não sendo nada incomum comentários que depreciam
estas religiões com argumentos similares àqueles que
são utilizados em relação aos seus maiores praticantes,
os negros. Outro grande desafio que se apresenta atualmente
é uma espécie de 'guerra religiosa' que se trava entre
certas denominações evangélicas e as religiões de matriz
africana: analogias entre orixás e figuras demoníacas
muitas vezes descambam para a intolerância e o
preconceito", opinou.
A necessidade de conscientizar a população
sobre o preconceito é dever do Estado, considera o professor.
"Acredito que as saídas para reduzir tais "visões
preconceituosas" não são simples, mas certamente
devem ser pensadas conjuntamente pelos praticantes,
pelo Estado e pelos intelectuais interessados pelo tema.
Da parte do Estado, entendo que é importante a
efetivação de cuidadosas mediações visando garantir
uma liberdade religiosa pautada pela tolerância. Me
refiro a intervenções pontuais que, sem privar os evangélicos
do direito às suas especificidades de crença, lhes façam
respeitar as singularidades dos afros", avalia.
Segundo ele, somente leis não é o
bastante. "Todavia, considero que, mais do que
imposições de regulamentos ou medidas judiciais, a educação
pode ser o melhor instrumento para dar visibilidade
positiva às religiões afro-brasileiras. Neste sentido,
a recente legislação que determina o ensino de História
e Cultura Afro-Brasileira nos ensinos fundamental e
médio pode ser uma bela oportunidade para iniciar este
processo. Os trabalhos de antropólogos que procuram
compreender as religiões de matriz africana de acordo
com as concepções e crenças de seus próprios praticantes
podem servir como um excelente subsídio à discussão",
complementou.
RITUAIS - Os seguidores da umbanda
deixam oferendas de alimentos, velas e flores em lugares
públicos para os espíritos. Os terreiros de candomblé
são discretos da vista geral, exceto em festas famosas,
tais como a Festa de Iemanjá em todo o litoral brasileiro
e Festa do Bonfim na Bahia.
MÚSICA - A cultura africana influenciou
também outra parte da nossa cultura: a música. Seja
por meio do samba ou da música popular brasileira, o
que se sabe é que muitos instrumentos dos rituais afro-brasileiros
são atualmente usados por bandas de axé.
Os antigos proprietários de escravos
no Brasil permitiam que seus escravos continuassem sua
tradição de tocar tambores ao contrário dos proprietários
de escravos dos Estados Unidos que temiam o uso dos
tambores para comunicações.
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