Sem amor e esperança,
a terra desce

Carlos Heitor Cony comentou ontem, em sua coluna da Folha, sobre a influência que a ficção e as futilidades da própria mídia têm causado na construção de pautas em jornais e televisões do Brasil. Não vou explicar aqui o que o velho escriba disse em seu espaço, deixando o leitor livre para tirar suas conclusões no jornalão paulistano, fácil de acessar pela Web, principalmente quando se tem a senha de algum amigo assinante do UOL.

Mas há um outro fator preocupante na mídia, e aqui não poderia deixar de destacar a mais poderosa das suas faces, a TV Globo, como protagonista primeira do assunto. São as pautas que sequer têm o gancho da ficção ou do fútil como origem. Falo das notícias e opiniões que são vomitadas na tela com um puro teor de marketing camuflado num pretenso jornalismo que infelizmente a maioria da sociedade não percebe.

A notícia que maquia um quadro econômico ou social que não interessa ao poder, que paga muito bem aos veículos pela fidelidade canina e caninana. O comentário que inverte um conceito apenas para servir de ponte entre os interesses midiáticos ou governamentais e a opinião pública, facilmente passível de comungar com a "opinião publicada".

Quando o Jornal Nacional estampa que o governo Lula mantém a aprovação popular em alta, constrói com alicerces firmes a impressão que o petista é um "fenômeno" administrativo, o que não é, mesmo que ninguém duvide do seu carisma peculiar. A Globo e semelhantes só esquecem de informar que o percentual de Lula em 2 anos e 2 meses de governo é o mesmo conquistado por FHC no mesmo período, aliás também em março só que em 1997.

Tais expedientes da mídia, e principalmente da Globo, são mais graves e venais que as pautas inspiradas em comportamentos imbecis de celebridades ou de roteiros de novela e cinema, como analisou Cony. A Globo age como se fosse salvar o mundo apenas para levantar o moral de figuras como Luma de Oliveira, um fracasso de venda na edição da Playboy, mas impávida nas matérias arranjadas da Marquês de Sapucaí.

Ontem, de novo uma ação da Globo para evitar que a sociedade se informe sobre fatos que para a emissora parece ter grande importância. Os telejornais e programas esportivos omitiram as vaias tomadas pelo jogador Ronaldo Nazário, no jogo de terça-feira do Real Madrid frente ao Juventus de Turim. É a reação ao avesso: enquanto tenta fazer de Lula um "fenômeno", esconde que o atacante já não merece tal título. Ronaldo saiu debaixo de vaia substituído pelo inglês Owen.

A mídia brasileira, em sua maioria, inventou e pensa não saber disso o clima de "baixo clero" em que vivemos. Não adianta tentar explicar Severino Cavalcanti se há dois anos não se preocupou em explicar Lula, preferindo embarcar em mais um capítulo de paparicos em troca de verba publicitária. O País vive a onda do "baixo clero" em todos os setores, na música, no esporte, na política. Parece que o gigante dormiu para sempre no berço esplêndido.

Está tudo nivelado por baixo, o retrato do Brasil é uma xilogravura gravada em papel higiênico usado. Um país perdido entre as luzes dos auditórios inúteis e as labaredas de vaidade nas casas do poder. Na nova República Fisiológica Federativa, impera a pequenez. Está pequena nossa cultura, miúdo nosso futebol, curtas nossas esperanças, nanicos nossos representantes. E no meio disso tudo, a mídia também diminuindo a vida. Nunca se escreveu e se falou tão pequeno no Brasil.

 

 

ALEX MEDEIROS

Jornalista

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