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Paulo Locatelli

Literatura

Entrevista

Ailton Siqueira - (Coordenador) - e-mail: ailtonsiqueira@uol.com.br

Obra do artesão do dia seguinte

Já falei do livro e da importância da leitura, mas uma questão ainda paira no ar: por que alguém escreve? O que está por traz dessa ânsia e necessidade de escrever?

A poetiza e romancista Antonine Maillet dizia: "escrevo porque tenho a impressão ou o sentimento de que o mundo é inacabado, como se Deus, que criou o mundo em seis dias e que descansou no sétimo, não tivesse tido tempo de fazer tudo. Acho o mundo pequeno demais, a vida demasiada curta, a felicidade insuficiente. Escrevo para acabar o mundo, para acrescentar à criação o oitavo dia". Nessa concepção, o escritor é um dos artesãos do oitavo dia e cada novo livro uma ferramenta de construção de um mundo novo, um tijolo dos pilares do tempo.

O homem traz em si a mesma sensação de inacabamento que ele enxerga no mundo. Nós não somos o ponto final da criação, somos mais uma voz da polifonia do cosmos. O homem é um ser inacabado, um ser sempre em gestação: um ser a-ser. Escrever também é se criar através do processo da própria escrita, é tentar acrescentar a si o que lhes falta, recriar a criatura que o Criador deu vida. As palavras que buscamos nos inserem nelas mesmas, somos parte do que dizemos, das palavras que usamos para nos comunicarmos com o mundo. Somos sujeitos comunicantes, linguajantes. O livro não é somente uma tentativa de construir o oitavo dia, mas é também uma tentativa de construir, reconstruir, ampliar a vida do homem de escrita, do sujeito linguajante. Dialogicamente, mundo, homem e livros se fazem, sem dúvidas.

A escritora Clarice Lispector também sentia necessidade vital de escrever.  Para ela, a escrita era um processo de subjetivação, de "pertencimento", como chama atenção Dany Kanaan, em seus escritos, uma forma de tocar uma dimensão da existência que somente a escrita é capaz de tocar quando se escreve palavras vivas, palavras que pulsam como a veia onde o sangue corre. Considerando o livro como um museu de memórias, registros das vozes que habitam o mundo, vozes tatuadas no silêncio do papel, como emblemas da memória da humanidade inventada a cada instante.

No livro Um sopro de vida: pulsações, Clarice dizia: "este é um livro de não memórias". Por quê? Porque, segundo ela, era um livro feito de "instantes fotográficos das emoções", feito da matéria-prima do momento: it, o instante-já, o instante-agora-mesmo. Um livro feito de agoras está prenhe de memórias inventadas.

Ora, os instantes e agoras dos quais falava Clarice são os agoras eternos, os momentos vividos por cada um de nós e todos nós, ao mesmo tempo. Isso porque nossa vida também é feita de fragmentos, de instantes que nunca passam, como que o passado continuasse presente em nossas vidas, instantes que fizeram e fazem de nós o que somos agora, um agora que é mais um instante que se futuralizar em outros agoras ainda não vividos. É assim que um livro de não-memórias pode ser sempre relembrado pelos instantes que ele imortalizou.

Clarice buscava palavras e exercia a escrita para se expressar. Mas sabia que ninguém se expressa completamente, por inteiro, ou claramente, sempre. A expressão de um ser obedece aos limites de si e a dimensão que a linguagem escrita, falada ou pintada ocupa em sua vida. A escrita é um dos vetores de comunicabilidade do ser com o mundo e com ele mesmo, mas ela nem tudo pode dizer, nem tudo pode traduzir. "O que sinto não é traduzível", dizia Clarice. Às vezes, as palavras só permitem falar de suas próprias limitações. Às vezes, é mais pertinente dizer que nem tudo pode ser dito porque mesmo as palavras dependendo de nós, nós dependemos delas. Só sabemos o que as palavras sabem, o que elas dizem a gente. E elas nem sempre dizem tudo que queremos dizer ou saber. Nem sempre as palavras nos ajudam a falar mais e melhor. Não é sempre que podemos ser completamente legíveis no escuro.

Existe uma dimensão antropocósmica do homem onde nem todas as palavras conseguem penetrar. Um universo que somente a "despalavra", como fala Manoel de Barros, pode vislumbrar.

Assim também acontece com um livro. Ele não diz tudo o que pensa seu autor, mas pode dizer mais do que diz o seu escritor. Grande parte de um livro é feito pelas interpretações que dele os leitores fazem. Um livro não esgota a realidade da qual fala. Ele é apenas um fragmento dela: grande, pequeno, curto, profundo, superficial... mas sempre um fragmento condenado à fugacidade da própria realidade. Um livro não é tradução da realidade e sim um multiplicador dela. Por isso que não podemos adotar somente um livro de cabeceira, um único tipo de leitura ou assumir somente uma verdade para nossa vida. Salvação é libertação. Livros podem nos libertar ou nos prender a eles.

Os livros falam a linguagem dos homens e do mundo - ambos indefinidos, incertos, inacabados, cheios de caminhos a serem descobertos - trilhas a serem abertas, verdades a serem desfeitas e refeitas. O mundo e o homem estão em construção permanente. O mundo se comunica com o homem que o expressa ao expressar sua vida, sua visão de mundo. Com suas letras os livros esticam a arquitetura invisível do universo.

Nenhum livro esclarece tudo do que trata. Livro tira dúvidas e deixa dúvidas. Nele podemos ter certeza do que pensamos ou a certeza de que nossas certezas não eram tão certas. O leitor tem que saber construir o seu caminho. Saber mergulhar nas lagoas que existem nas entrelinhas das palavras.

Abrir um livro é entrar numa aventura em um mundo desconhecido. Por isso, quem lê um livro sempre tem necessidade de ler outros. Um livro fala de outro, que fala de outro que remete a vários outros temas e leituras diferentes.

Os grandes sábios, escritores, intelectuais, pensadores, artistas, poetas, músicos foram, e são, grandes leitores: lêem jornais, revistas, manuais, gibis, poesias, lendas, mitologia; lêem muitos livros.

Nenhum livro fala do que só está escrito. Remete o leitor para além das palavras que o tecem. Ele fala nas entrelinhas, no silêncio, em segredo. Às vezes, o não-dito diz mais. O leitor precisa saber se envolver com ele, saber se enroscar nas palavras como um amante apaixonado no leito nupcial, amante que mesmo preparado se depara com o "susto do prazer", o gozo repentino, distraído, aquele que sem se esperar ele explode em erupção. É sempre algo surpreendente, porque uma leitura pode levar a vários caminhos, "inclusive o fatal beco sem saídas" (Clarice). Mas isso é o charme da aventura rumo ao desconhecido que sempre nos faz conhecer outras tantas coisas.

É muito comum vermos pessoas que conhecem muito do mundo e pouco de si mesmas. A leitura de um livro, como a leitura dos livros da Clarice, por exemplo, pode ser como o canto sedutor de uma sereia arrastando o desconfiado a mergulhar dentro de si mesmo e se deparar com "a vida que se leva por dentro".

Se escrever é construir o dia seguinte ou acrescentar ao mundo o oitavo dia, devemos ter muito cuidado porque cada palavra que escrevemos pode destruir ou construir um novo amanhecer, um mundo melhor, um outro ser-no-mundo. O que escrevemos pode se tornar as memórias inventadas de um novo universo.

DVD

MEMORIAL DE MARIA MOURA - BOX

Interior do Brasil, século XIX: família, honra, terra. Estas eram as três únicas razões da vida de uma mulher da época. Maria Moura perdeu todos esses motivos. Mas não se deu por vencida, preferiu pegar em armas e ir atrás dos seus sonhos e de suas terras, mostrando que se entregar é sempre o último recurso. À luta de Maria Moura, soma-se a tragédia do amor proibido entre o padre José Maria (Kadu Moliterno) e a beata Bela (Bia Seidl), e a paixão corajosa da submissa Marialva (Cristiana Oliveira) com o trapezista Valentim (Jackson Antunes). Um Box recheado de excelentes histórias de lutas e desafios, mas com armas bem diferentes.

CD

PHIL COLLINS - A COMPILATION OLD AND NEW

Segundo o próprio Mr. Collins, Love Songs: A Compilation Old and New vinha sendo pensado há tempos. O álbum não é um disco de hits, mas das músicas românticas que mais tocam o coração do músico. O disco duplo traz 25 canções, abrangendo os 25 anos da carreira solo deste ex-baterista, que prepara a sua despedida do mundo artístico. A compilação inclui sucessos como: "Against All Odds", "Groovy Kind Of Love", "Two Hearts", "True Colors" e "You´ll Be In My Heart", além de versões ao vivo de "Separate Lives", "My Girl", "Always" e "The Way You Look Tonight".

Um disco que promete tocar diretamente na alma dos amantes da música romântica.

LIVRO

ISAAC ASIMOV - EU, ROBÔ

Eu, robô é parte de uma das três grandes séries de Asimov - Robôs, Fundação e Império. Retoma uma das personagens principais, a grande roboticista Susan Calvin, e a faz contar, em retrospecto, histórias que resumem a evolução da robótica. A narrativa engenhosa conduz o leitor com um didatismo disfarçado: levados pela imaginação e pelo humor de Asimov, nem nos damos conta da lição de história da robótica que acabamos aprendendo. Entre a babá da primeira história e a Máquina, com maiúscula, que controla toda a Terra, na última, há ainda espaço para robôs que enlouquecem, que fazem piadas, que lêem pensamentos e até robôs orgulhosos de serem mais espertos do que os seres humanos. Eu, robô também apresenta as três leis da robótica, outro alicerce da ficção científica. De acordo com elas, a primeira obrigação de um robô é proteger seres humanos, a segunda é obedecer às ordens de humanos e a terceira é se proteger.

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