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Conselhos de um homem com trinta anos de casado
LÍRIA NOGUEIRA ALVINO
Escritora
– antonialiria@uol.com.br
Não sempre, mas com uma freqüência maior do que eu gostaria, acontecimentos em minha vida e mudanças são para pior.
Minha mulher diz que não. Mas quem vive minha vida sou eu, não ela.
Por exemplo, amantes. Todos os meus amigos têm, ou tiveram. Pelo menos uma. Mas, veja, as tiveram na vigência do matrimônio, não antes dele, ou depois, durante quero dizer.
Com tristeza, observo que as amantes são extremamente úteis e prazerosas para o homem jovem. E, reafirmo, no início do casamento deste. Homens casados no ardor da meia idade e mulheres com paixões súbitas por eles constituem, ambos, em um engano comum: o da ilusão mútua.
Deve-se pensar com clareza até nas traições. Se não, vejamos: não convém afirmar que uma jovem, bela talvez, na sua casa dos vinte, ou até trinta anos, caia-se de amores por aquele outro, casado, pai de filhos.
Não, eu não acredito na amante. A mulher que ama não se esconde, subtrai. Ao contrário, daqui, de meus parcos conhecimentos femininos, penso que a mulher que ama é escandalosa. Como toda mulher o é. A propósito, desconfie, amigo, da mulher discreta. Esta é prima-irmã direta da cobra que deu a maçã a Adão, no paraíso.
Fala-se que em Mossoró os casados são preferidos pelas mulheres solteiras. Claro, é até compreensível. Eu também, sendo mulher iria querer um sujeito testado, garantido, passado no azeite de um casamento ruim. O próximo já entra no lucro. Mas não é o caso, não estou me descasando, a minha covardia não me deixa ir tão longe. E também tem os filhos, os pais dela, que são gente boa, meu sogro até toma cerveja comigo, veja, só!
Mas mesmo querendo bem, casamento passando um tempo, é uma judiação para o sujeito! Mesmo querendo bem a companheira, a esposa, quero dizer, é um maltratar ao sujeito. Por isso que meus colegas arranjaram as amantes. Que ao meu ver é uma saída burra, porque repito, amante é enganação.
Muitos engolem seus casamentos dez, quinze anos esperando um dia as suas esposas se transformarem na mulher perfeita. E elas nunca se transformam, e eles continuam esperando. Um belo dia comemoram trinta anos de casados e quem é que vai querer ninguém tão viciado no outro desse jeito?
Uma mulher que passa tanto tempo casado com um sujeito sabe muito dele, sabe mais do que a própria mãe.
Sabe das necessidades fisiológicas e das espirituais, das sexuais, das fundamentais. Vive-se trinta anos com uma pessoa e depois descobre que ela não mudou nada nesse tempo todo.
A mulher dos sonhos de um homem não se deixa revelar completamente. Nem busca saber dele mais do que o que ele lhe transparece, sob pena de também quebrar o encanto que a seduziu.
A mulher inteligente não busca tudo de seu homem, ela o quer um mistério, sempre exposto e escondido como um amante incansável.
Mulher é a coisa mais linda e maravilhosa do mundo, mas existem umas enjoadinhas... E. eu, sortudo, fiquei com uma desse espécime última citada.
Mulher boa é a que tem senso de humor. Mulher interessante é a independente. Tem coisa mais chata do que depois de um dia inteiro de trabalho encontrar uma mulher despenteada, mal-humorada, de bobs, pedindo dinheiro para a empregada comprar pão? Pois é, a minha pede, de bobs.
Na próxima reencarnação, se for para vir casado com esta mesma mulher, eu venho de Cicciolina.
Saber e Conhecer
Pablo Capistrano
Escritor,
professor de Filosofia - pcapistrano@hotmail.com
Montainge, em seus Ensaios, buscou analisar a vida de sábios como Marcio Terencio Varro (que escreveu seiscentos livros, entre os quais uma enciclopédia de ciências humanas e 25 volumes sobre etimologia e lingüística). O que o pensador francês constatou é que, sujeitos como Terencio, parecem não ter sido mais ou menos felizes do que maioria dos homens de seu tempo. Tal constatação indicava uma verdade dolorosa mais incontornável. O conhecimento intelectual, o acúmulo de informação, a capacidade enciclopédica de um cérebro, não é garantia da felicidade de seu portador. Montainge então escreveu: "Se o homem fosse sábio, mediria o verdadeiro valor de qualquer coisa de acordo com a sua utilidade e pertinência em sua vida. Somente o que nos faz sentir melhor merece ser compreendido".
Quando ele escreveu essas palavras, estava pensando no currículo do colégio em que estudou na França. Fundado em 1533, o Collège de Guyenne, era uma das mais respeitadas instituições de ensino da Europa. Os alunos saiam de lá sabendo coisas como: (a) calcular o valor de X em triângulos retângulos; (b) determinar sujeito e o predicado em sentenças como "o cão é o melhor amigo do homem" ou "existe alguma coisa azul nesse planeta?"; (c) demonstrar a prova para a existência de Deus segundo o pensamento de São Tomás de Aquino; (d) traduzir livremente textos de Homero do grego para o francês ou mesmo textos de Horácio do Latim para o Francês.
Mas o que Montaigne percebia, era que, com toda essa formação intelectual, seus colegas de escola não eram necessariamente mais ou menos felizes do que os camponeses iletrados de sua propriedade rural. O mais espantoso era explicar o porque de os alunos serem tão cultos e tão infelizes.
Felicidade e saúde são conceitos irmãos. Andam de mãos dadas no entendimento do que é levar uma vida inteira e completa. Um aprendizado da felicidade e da saúde, no entanto, passa longe de ser apenas um mero exercício de inflação intelectual ou de acúmulo de informação. O adestramento mental para a construção de seqüências lógicas e simbólicas, pode ser até algo importante na formação educacional, mas, quando este adestramento é elevado ao status de centro das preocupações escolares a educação perde muito de sua força. Se a finalidade da educação não for o de tornar as pessoas melhores e mais sábias e de inferir que sabe melhor e não que sabe mais, então não há como se falar numa educação para a felicidade e para a saúde. Há um sentido terapêutico na educação, o de fazer efetivo o sentido que Goethe expressou quando disse: "cinza é toda teoria, mas verde, meu amigo, é a cor da árvore da vida".
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Mossoró-RN, de 2003