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De
catrevage a pederasta
Eis uma
palavra desconhecida pelo famigerado corretor
ortográfico do Microsoft Word: catrevage,
que segundo o Houaiss pode significar sobra
de materiais de construção, monte de quaisquer
objetos, súcia de malandros ou móveis e
utensílios pobres. A palavra, usada na descrição
do Espaço Crônico (www.cidaugusto.blog-se.com.br),
é apenas uma das pérolas do meu vocabulário
arcaico, motivo freqüente de gargalhadas.
A turma
ri, e não é pouco, quando falo coisas assim.
A tropa de casa, por exemplo, não me deixa
em paz, porque me recuso a usar "creme
dental", "condicionador de cabelo"
e a enfiar "cinto" nas calças.
Insisto em pedir "pasta" para
escovar os dentes, "creme rinse"
para engordar caspa e "cinturão"
para impedir que o fundo das calças bata
nos pés. Nada contra o vocabulário moderno,
apenas me acostumei com certos nomes.
Sexta-feira,
antes de bater o tradicional ponto no Bar
do Ku, em Natal, acompanhei mamãe à gravação
de uma entrevista dela na TV Assembléia,
programa Sala de Imprensa, comandado pelo
jornalista Roberto Guedes. Disse a dona
Sandra, em determinado instante, que Fulano
de Tal dos Anzóis Pereira dera um "passamento".
Ela riu: "Passamento! Ave Maria, meu
filho, há muito tempo eu não escutava essa
palavra".
Minha mulher,
Maria da Conceição, que agora deu para falar
de mim (que tenho chulé, que acordo com
remela nos olhos, que minha orelha esquerda
é de abano), sabe de minha paixão por palavras
com cheiro de naftalina, mas não se acostuma,
mesmo depois de duzentos e trinta anos de
convivência conjugal e de guerra contra
o relógio. Há pouco, estava "mangando"
porque pedi um simples "caneco"
d'água a Cid Filho.
Dona Conceição
é fogo, vive achando graça dos meus termos:
"cachete", "oxe!", "ruge",
"matraca", "peia", "cocorote",
"biloura", "carão",
"peba", "pereba", "maricas".
Falando em maricas, o conhecimento de velhos
vocábulos evita que eu caia em esparrelas,
tipo um amigo que, ao ver uma menina de
seus 17 anos, lépida e fagueira no setor
cinco da UFRN, encheu o peito de orgulho
e disparou: "Cid, eu sou um pederasta!".
Fiquei
apreensivo com a tal revelação, feita daquela
forma abrupta, em voz alta. "Será uma
cantada, um desabafo, será o quê?",
perguntei a meus botões, mas eles estavam
mudos de susto e tão curiosos quanto eu
para saber os motivos de o cara sair do
guarda-roupa justo ali, sem subterfúgios,
sem metáforas, sem medo, pronto para enfrentar
o mundo machista e os preconceitos dos Severinos
e Jece Valadões desta vida.
Depois
percebi tratar-se de um mal-entendido. "Eu
sou um pederasta!", repetiu o sujeito,
esclarecendo: "Adoro meninas de 17
anos". Tratando-se de um amigo, tomei
a liberdade de tranqüilizá-lo: "Não
se afobe tanto. Relacionamento sadio com
moça de 17 não é caso de polícia, afinal,
PEDOFILIA é a atração sexual por crianças,
não por adolescentes bem resolvidas, e PEDERASTIA
é uma opção desde a Antiguidade".
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