A Causa é falta de Causa

Raramente, um pernambucano recebe tanta atenção da mídia e da opinião pública quanto o deputado Severino Cavalcanti ao longo da última semana. Sua eleição surpreendente vem merecendo críticas, em parte devido a preconceito e em parte devido                                                                   à defesa corporativa que faz dos interesses dos deputados. Alguns consideram sua eleição a ponta de um iceberg capaz de afundar a seriedade da democracia. Pode ser, mas a geladeira que fez o iceberg é nossa, de todos que estão governando sem definir uma causa que empolgue o povo e contamine os parlamentares.

Na minha opinião, defender um aumento para os deputados em uma percentagem maior do que o salário mínimo é indecente. Que o salário dos parlamentares seja maior do que de outros trabalhadores é aceitável em um país de tanta desigualdade, mas aumentá-lo em uma proporção muito maior, agravando a desigualdade, é o contrário do que se espera do Parlamento. Porém, se isso acontecer, a culpa não será de Severino. Ele apenas proporá o aumento, os deputados e os senadores é que irão aprová-lo ou rejeitá-lo.

Também é um equívoco imputar a derrota do governo na Câmara à falta de coordenação política. Ainda que graves falhas estratégicas tenham acontecido no encaminhamento do processo eleitoral, a derrota se deve à falta de uma causa que empolgue o País e os parlamentares.

Independente do partido de cada um, os parlamentares nordestinos teriam de se aliar ao governo se fosse definida uma política de diminuição das desigualdades regionais. Os que são comprometidos com a educação básica apoiariam o governo se ele garantisse educação de qualidade para todo o Brasil. Aqueles com sensibilidade social dariam apoio a uma política de superação da pobreza e distribuição de renda.

É a mensagem de uma causa que diferencia a política maior da política menor. Que, no lugar da articulação em troca de pequenas coisas, faz uma aglutinação por uma grande causa. Mais do que falta de articulação, o problema da relação do governo com o Parlamento e com a sociedade está na falta de uma mensagem que mostre o novo Brasil que o governo se propõe a construir. É a proposta de um Brasil novo que faz um tipo novo de governar. Sem uma mensagem diferenciadora para o País, o governo Lula não se diferenciará nos métodos. E neste caso, sendo de um partido com tradição de autenticidade, vai fracassar por ficar na dependência dos mais espertos, dos sem-mensagem.

 O governo Lula apontou até aqui a meta do Fome Zero e a continuação do processo de crescimento industrial de JK, com a responsabilidade fiscal iniciada por Itamar e consolidada por FHC. Mas o Fome Zero não empolgou o conjunto do País. A estabilidade não é uma bandeira nossa, é um consenso ao qual um PT amadurecido, felizmente, foi obrigado a aderir. O Bolsa-Família se limitará ao assistencialismo se não vier acompanhada de uma mudança profunda na educação básica. A transposição do São Francisco, o PROUNI, são projetos isolados que não compõem uma mensagem que reflita um Brasil diferente.

A definição de uma mensagem aglutinadora é perfeitamente possível, basta que o presidente Lula utilize: seu carisma de líder, o programa de governo que apresentou na campanha e as qualidades ainda presentes no PT e em outros partidos da sua base de apoio. Ainda é tempo. Mas, se não fizer rápida mudança, deixará de ser líder e ficará apenas como mais um político, apagará uma bela mensagem na qual o povo votou e descaracterizará o partido que ainda pode representar a esperança de um novo Brasil, que mantenha o que foi construído até hoje e complete nossa Independência, a Abolição e a República.

 

CRISTOVAM BUARQUE

Professor da Universidade de Brasília, senador do Distrito Federal pelo PT (cristovam@senador.gov.br / www.cristovam.com.br)
 

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