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PERSPECTIVAS PARA UM NOVO ANO
Como dizia Durkheim em seus primeiros trabalhos, na
virada para o século XX, quando o homem vive em sociedade, boa parte de suas
ações não são resultado exclusivo de decisões isoladas, mas também de
princípios exteriores à sua própria vontade. Esses princípios são os valores
e os comportamentos que são convenientes para a sociedade e que ela de alguma
forma tenta infundir em seus integrantes. É essa “pressão” que a sociedade
exerce sobre seus membros para adequar-lhes à conduta que recebeu o nome de
coerção social.
Lembrando esta “física social”, é bom verificar
como foi o ano de 2004 e pensar um pouco no futuro com a chegada de 2004.
Influenciado pelas redes televisivas a partir do título do artigo
“retrospectivas...”, quero “coagir” aos poucos leitores para fazer uma reflexão
sobre o ano de 2004. No plano pessoal, quais foram as nossas conquistas? Sei
que alguns pensarão sempre assim: “Ah, foi um ano bom porque eu adquiri a casa
que sempre sonhei”. Outros dirão: “Quitei o financiamento do meu carro”....
Alguns estarão exultantes porque finalizaram com as prestações do empréstimo
bancário, trocaram o vídeo cassete ou compraram um sofá novo... Somos sempre
motivados a olhar o ano que passou sob a ótica patrimonial. Ninguém se analisa
pelo prisma comportamental. Não vi até hoje ninguém achar que o ano foi bom
porque deixou o vício de fumar ou de beber; por ter ido mais à igreja; por ter
estado mais com os filhos; por ter finalmente se aperfeiçoado como pessoa
humana.
Por acaso existe alguém que ao término do ano se
ufane de ter sido mais solidário, de ter sido mais amigo, melhor pai ou irmão,
ter ajudado mais ao próximo ou de superar o ano anterior em maior número de
boas ações? Desconheço alguém que celebre o ano assim. Pensar deste modo
contraria a coerção social que nos faz olhar para os resultados do ano com
vistas tão-somente para a acumulação patrimonial. O fato é que, por culpa da
sociedade, encerrarmos o ano com os mesmos maus hábitos de 1999, 2000, 2001,
2002..., e ainda continuaremos sempre na vã expectativa de que no ano novo tudo
vai ser diferente. É triste dizer, mas o dia 31 de dezembro funciona como uma
grande esponja mental: apagamos tudo da memória e desejamos aos outros
circunstantes um feliz ano-novo, alvíssaras de uma mudança social que não
acontecerá. Cheios de esperanças de um porvir mais venturoso, sonhamos com uma
fraternidade, uma paz e um amor que não praticamos. Se assim o é, todas as
frases na passagem do ano são hipócritas e mentirosas.
Assim, meu amigo ou minha amiga, lembrando que a
grandeza de sua alma e a bondade do seu coração são marcas inconfundíveis de
sua excelência como pessoa humana, e que o ano novo só será melhor se você
também conseguir se superar nas qualidades e virtudes teologais (fé, amor e
caridade), desejo-lhe um feliz ano-novo. Da minha parte, tentarei fazer esse exercício também!
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