MARCOS ARAÚJO
 

 

PERSPECTIVAS PARA UM NOVO ANO 

Como dizia Durkheim em seus primeiros trabalhos, na virada para o século XX, quando o homem vive em sociedade, boa parte de suas ações não são resultado exclusivo de decisões isoladas, mas também de princípios exteriores à sua própria vontade. Esses princípios são os valores e os comportamentos que são convenientes para a sociedade e que ela de alguma forma tenta infundir em seus integrantes. É essa “pressão” que a sociedade exerce sobre seus membros para adequar-lhes à conduta que recebeu o nome de coerção social.

Lembrando esta “física social”, é bom verificar como foi o ano de 2004 e pensar um pouco no futuro com a chegada de 2004. Influenciado pelas redes televisivas a partir do título do artigo “retrospectivas...”, quero “coagir” aos poucos leitores para fazer uma reflexão sobre o ano de 2004. No plano pessoal, quais foram as nossas conquistas? Sei que alguns pensarão sempre assim: “Ah, foi um ano bom porque eu adquiri a casa que sempre sonhei”. Outros dirão: “Quitei o financiamento do meu carro”.... Alguns estarão exultantes porque finalizaram com as prestações do empréstimo bancário, trocaram o vídeo cassete ou compraram um sofá novo... Somos sempre motivados a olhar o ano que passou sob a ótica patrimonial. Ninguém se analisa pelo prisma comportamental. Não vi até hoje ninguém achar que o ano foi bom porque deixou o vício de fumar ou de beber; por ter ido mais à igreja; por ter estado mais com os filhos; por ter finalmente se aperfeiçoado como pessoa humana.

Por acaso existe alguém que ao término do ano se ufane de ter sido mais solidário, de ter sido mais amigo, melhor pai ou irmão, ter ajudado mais ao próximo ou de superar o ano anterior em maior número de boas ações? Desconheço alguém que celebre o ano assim. Pensar deste modo contraria a coerção social que nos faz olhar para os resultados do ano com vistas tão-somente para a acumulação patrimonial. O fato é que, por culpa da sociedade, encerrarmos o ano com os mesmos maus hábitos de 1999, 2000, 2001, 2002..., e ainda continuaremos sempre na vã expectativa de que no ano novo tudo vai ser diferente. É triste dizer, mas o dia 31 de dezembro funciona como uma grande esponja mental: apagamos tudo da memória e desejamos aos outros circunstantes um feliz ano-novo, alvíssaras de uma mudança social que não acontecerá. Cheios de esperanças de um porvir mais venturoso, sonhamos com uma fraternidade, uma paz e um amor que não praticamos. Se assim o é, todas as frases na passagem do ano são hipócritas e mentirosas.

Assim, meu amigo ou minha amiga, lembrando que a grandeza de sua alma e a bondade do seu coração são marcas inconfundíveis de sua excelência como pessoa humana, e que o ano novo só será melhor se você também conseguir se superar nas qualidades e virtudes teologais (fé, amor e caridade), desejo-lhe um feliz ano-novo. Da minha parte, tentarei fazer esse exercício também!

  

 

MARCOS ARAÚJO
EMAIL: marcos@juxtalegem.com.br

35, é advogado, professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN)
 

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