|
AVE
CAESAR, MORITURI TE SALUTANT
Na Roma
antiga, no tempo do Augusto César,
os gladiadores eram obrigados a desfilar
lado a lado até postarem-se à frente do
Imperador, e após cumprimentarem-no
dizendo: “Salve, César; os que vão morrer
te saúdam”, travavam um combate que só parava
com a morte de um dos dois contendores.
As palavras, em latim, eram estas que intitulam
este artigo.
Pois bem.
Estamos de volta à Roma antiga. Vivemos
em clima de combate diário, tal é a violência
e a insegurança atual. Assaltos, assassinatos,
barbaridades...somos os gladiadores do Século
XXI. A batalha está tão ensandecida que
não se distingue mais o bem do mal, tantos
são os criminosos e o quanto estão enraizados
na nossa convivência. Pais matam filhos
ou filhos matam pais: o “Coliseu Romano”
transportou-se para dentro dos nossos lares.
Se transpormos as portas da casa, o nosso
inimigo está à espreita, entocaiado, esperando
um momento da nossa fragilidade. Ou matamos,
ou morremos. Foi com esse infeliz dilema
que o colega João Batista Pinheiro, excelente
advogado, teve que se deparar há duas semanas.
Com a incerteza se a abordagem dos meliantes
lhe causaria a morte ou não, João teve que
combater para a manutenção de sua vida.
Voltando
à Roma antiga, o César assistia a tudo impassível,
desdenhando sobre o sangue derramado, entretendo-se
durante o “espetáculo” com a degustação
de vinhos e uvas, e com a bolinação e fornicação
de suas acompanhantes. Quando o combatente
estava vencido, interrompia a farra apenas
para acenar com o polegar direito decidindo
sobre a morte ou a vida do vencido,
a depender do movimento do dedo. Assim também
procedem os Césares de hoje. Expostos ao
espetáculo, o Estado nada faz para que cessemos
o combate - e os governantes idem! Protegidos
por seguranças bem armados e vivendo de
festas e banquetes, o presidente e os governadores
tratam a nós, que somos os “gladiadores”,
como objetos sociológicos das estatísticas.
Os jornais retratam apenas o número das
vítimas, sem a identificação. A Folha de
São Paulo sempre registra, às terças, o
número de mortos no final de semana. Como
os “gladiadores” que divertiam os romanos,
somos unicamente números a animar as discussões
intermináveis sobre segurança pública. Enquanto
as reuniões não terminam e os planos mirabolantes
não chegam na prática, cumpre a nós, a patuléia
encurralada, expormos nossas vidas e aceitarmos
a nossa sentença de morte.
Tenho lido
nos jornais todos os dias a notícia de que
um preso chamado Viriato, que denunciou
um esquema podre dos outros detentos, pede
pela sua vida ao juiz de Execuções Penais.
Com a vida por um fio, ele chama a atenção
do Estado-imperador, pedindo clemência.
O Estado, inerte, não tem tempo para se
preocupar com esse sub-cidadão. Esse é mais
um morto-vivo a perambular pelo nosso sistema
prisional. Antes de morrer, a sua carta
é mais uma saudação ao Estado-imperador:
Ave César, Viriato, que vai morrer, lhe
saúda!
|