MARCOS ARAÚJO
 

AVE CAESAR, MORITURI TE SALUTANT

Na Roma antiga, no tempo do Augusto  César, os gladiadores eram obrigados a desfilar lado a lado até postarem-se à frente do Imperador,  e após cumprimentarem-no dizendo: “Salve, César; os que vão morrer te saúdam”, travavam um combate que só parava com a morte de um dos dois contendores. As palavras, em latim, eram estas que intitulam este artigo.

Pois bem. Estamos de volta à Roma antiga. Vivemos em clima de combate diário, tal é a violência e a insegurança atual. Assaltos, assassinatos, barbaridades...somos os gladiadores do Século XXI. A batalha está tão ensandecida que não se distingue mais o bem do mal, tantos são os criminosos e o quanto estão enraizados na nossa convivência. Pais matam filhos ou filhos matam pais: o “Coliseu Romano” transportou-se para dentro dos nossos lares. Se transpormos as portas da casa, o nosso inimigo está à espreita, entocaiado, esperando um momento da nossa fragilidade. Ou matamos, ou morremos. Foi com esse infeliz dilema que o colega João Batista Pinheiro, excelente advogado, teve que se deparar há duas semanas. Com a incerteza se a abordagem dos meliantes lhe causaria a morte ou não, João teve que combater para a manutenção de sua vida.

Voltando à Roma antiga, o César assistia a tudo impassível, desdenhando sobre o sangue derramado, entretendo-se durante o “espetáculo” com a degustação de vinhos e uvas, e com a bolinação e fornicação de suas acompanhantes. Quando o combatente estava vencido, interrompia a farra apenas para acenar com o polegar direito decidindo sobre a  morte ou a vida do vencido, a depender do movimento do dedo. Assim também procedem os Césares de hoje. Expostos ao espetáculo, o Estado nada faz para que cessemos o combate - e os governantes idem! Protegidos por seguranças bem armados e vivendo de festas e banquetes, o presidente e os governadores tratam a nós, que somos os “gladiadores”, como objetos sociológicos das estatísticas. Os jornais retratam apenas o número das vítimas, sem a identificação. A Folha de São Paulo sempre registra, às terças, o número de mortos no final de semana. Como os “gladiadores” que divertiam os romanos, somos unicamente números a animar as discussões intermináveis sobre segurança pública. Enquanto as reuniões não terminam e os planos mirabolantes não chegam na prática, cumpre a nós, a patuléia encurralada, expormos nossas vidas e aceitarmos a nossa sentença de morte.

Tenho lido nos jornais todos os dias a notícia de que um preso chamado Viriato, que denunciou um esquema podre dos outros detentos, pede pela sua vida ao juiz de Execuções Penais. Com a vida por um fio, ele chama a atenção do Estado-imperador, pedindo clemência. O Estado, inerte, não tem tempo para se preocupar com esse sub-cidadão. Esse é mais um morto-vivo a perambular pelo nosso sistema prisional. Antes de morrer, a sua carta é mais uma saudação ao Estado-imperador: Ave César, Viriato, que vai morrer, lhe saúda!   

 

  

 

MARCOS ARAÚJO
EMAIL: marcos@juxtalegem.com.br

35, é advogado, professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN)
 

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Mossoró-RN, terça-feira, 22 de abril de 2002