Mossoró-RN, domingo 24 de setembro de 2006

O criador do país de Mossoró

GERALDO MAIA
gmaia@bol.com.br

Em 25 de setembro de 1920, num dia de sábado, nascia em Mossoró, num velho casarão da rua 30 de Setem-bro, Jerônimo Vingt-un Ro-sado Maia, sendo filho do patriarca Jerônimo Rosado e dona Isaura Rosado Maia. Era o vigésimo primeiro filho de uma família numerosa e numerada, como ele mesmo gostava de dizer, já que seu nome vem exatamente da seqüência à ordem numérica francesa dos nomes que Jerônimo Rosado dava aos filhos.

Teve uma infância normal, de brincadeiras telúricas, embora dando a impressão de ser um pouco contemplativo. Desde cedo se dedicou aos empreendimentos intelectuais, preferindo acompanhar a atividade do irmão mais velho, Tércio, filho do primeiro matrimônio do seu pai, que era um homem culto, poeta, amante dos livros e pioneiro do cooperativismo no Estado. E foi ainda na juventude que começou a cultivar o gosto pelos livros e pela pesquisa histórica. Na adolescência atuou como bibliotecário no Colégio Santa Luzia. E esse gosto pelos livros o acompanharia durante toda a sua vida.

Em 1940 parte para Lavras/MG, para estudar agronomia. Lá chegando, o seu envolvimento com os livros, as letras e a pesquisa tornou-se mais intenso. Concluindo o curso em novembro de 1944, volta para Mossoró para desenvolver atividades junto a empresa familiar que atua na área de exploração de gesso e paralelamente começa a desenvolver um trabalho no campo cultural, que culminou com a criação da Coleção Mossoroense.

Apesar de pertencer a tradicional família de políticos que comanda Mossoró por gerações, preferiu enveredar mesmo pelo caminho da cultura. Na verdade, chegou mesmo a disputar dois cargos eletivos. A primeira vez candidatou-se a prefeito de Mossoró, perdendo por uma margem de 0,4%, em 1968. Em 1972 elegeu-se vereador com a maior votação proporcional da história de Mossoró. Mas foi mesmo na área cultural que se destacou, tornando-se ícone da cultura local. Em 1940, com apenas 20 anos, publicou o seu primeiro livro, que recebeu o título de "Mossoró". A esse, seguiram mais de duzentos, versando sobre temas que vão da antropologia ao estudo das secas.

Como convocado de guerra em 1945, sofreu uma punição por transgressão disciplinar, ficando detido na cadeia da Companhia Escola de Engenharia de Ouro Fino/MG, por 15 dias. O motivo da pena foi ter fugido para encontrar-se com sua namorada, América Fernandes Rosado, que seria sua companheira por toda a vida. Segundo um depoimento do próprio Vingt-un, ao terminar a carreira militar, o seu comportamento foi considerado insuficiente. Mas ganhou o amor de sua vida.

Vingt-un esteve sempre presente em várias frentes de atividade cultural, tanto no município como no Estado. Foi professor fundador de três faculdades e idealizador da URRN, hoje Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Foi fundador e duas vezes diretor da ESAM, hoje Universidade Federal Rural do Semi-Árido e professor Honoris Causa da UERN. Integrou o Conselho Estadual de Cultura, foi membro de quatro Academias em dois estados da Federação, tendo sido criador e ex-presidente de duas delas, a Academia Norte-rio-grandense de Ciências e a Academia Cearense de Farmácia.

Jerônimo Vingt-un Rosado morreu no dia 21 de dezembro de 2005, aos 85 anos de idade. Morreu, não; encantou-se. Continua vivo na memória do povo da terra que tanto amou, ao ponto de idealizar nela um país, o País de Mossoró. Nesta sua Pasárgada, ele era amigo do rei, mas era amigo também de qualquer homem do povo. Fez-se General da Cultura e nessa área abraçou várias causas, venceu várias batalhas: a batalha da cultura, a batalha da água, a batalha do petróleo e tantas outras batalhas que estão documentadas na sua grande obra. É nessa obra que deixou como legado que Vingt-un vive, pois esse é o segredo da imortalidade: ressurgir sempre que um livro seu é aberto, que uma frase sua é repetida e que um gesto seu é lembrado. Nas palavras de  Celso Carvalho, "é triste passar pela vida como a sombra pela estrada. Quando passa é percebida... passou não resta mais nada". Por isso Vingt-un fez-se luz. E assim criou o País de Mossoró.

 

Sobre eleições

Marcos Bezerra
Jornalista - marcos.bezerra@redeintertv.com.br

Você já parou para assistir ao horário eleitoral gratuito na televisão? Não? Então apro-veite, porque já está aca-bando!

Para quem gosta de ver gente é um prato cheio.

Neste ponto o meio político parece ter copiado a diversidade que se vê nas ruas. Estão todos lá: o preto, o mulato e o branco; o pobre, o rico e o milionário; o intelectual, o político sério, o que pensa ser sério e o que está aí mesmo para tentar desmoralizar o processo. As ideologias desfilam diante dos olhos dos telespectadores. Não deixa de ser uma forma de abrir a cabeça numa sociedade onde seus integrantes cada vez mais se fecham em nichos. Não deixa de ser o povo passando na telinha.

E, tão bom quanto ver as caras e caretas dos candidatos, é ouvir as propostas, as verdades e as mentiras plantadas por eles. Digo assim porque é óbvio que nem todo mundo mente; do mesmo jeito que nem todo mundo fala a verdade. Se todos assim procedessem a conta simplesmente não fechava. - Eu fiz assim, eu fiz assado. É tanta coisa boa que se fossem reais estaríamos no melhor dos mundos e não nesse lugarzinho eternamente subdesenvolvido chamado Brasil. Melhor corrigir: país em desenvolvimento.

Não podemos acreditar que a classe política brasileira está perdida - ou sempre esteve perdida. Não dá para pensar assim se percebemos que houve avanços, em todos os sentidos. Ou alguém vai tentar nos convencer de que no passado dos coronéis a política era mais limpa do que agora? Tínhamos, claro, os bons exemplos. Alguns dos nomes que hoje vemos em cidades, fundações, prédios públicos, ruas e praças realmente foram merecedores das homenagens. Mas, usando um termo bem sertanejo, e a miunça?

Hoje pelo menos temos uma população com um pouco mais de consciência e uma Justiça bem mais vigilante e que já não se mostra tão lerda. Prova disso são os inúmeros prefeitos afastados por corrupção - já foram tarde - aqui mesmo no Rio Grande do Norte.

Interessante que o Estado é entre todos, incluindo aí o Distrito Federal, o que apresenta o menor número de candidatos. São 257, disputando os cargos de governador, senador, e deputados federal e estadual. Pra efeito de comparação a Paraíba, bem parecida com a gente, tem 361 candidatos e Sergipe, menor, tem 275. Mesmo assim não devemos em nada a ninguém no quesito das campanhas bizarras.

Temos o Moura, um velhinho caquético que faz pose de super-herói, Zé do Bode, com chifre e tudo, um padeiro que não larga o chapéu e quer ser senador, Canelinha, o homem que não come pizza nem arrumadinho, Vigor, que esbanja vitalidade e, para horror das mulheres, Gil Móveis, que puxa um rato do bolso. Sem contar o Xeque Humberto, um xeique fajuto candidato ao governo; simbolizando o mesmo personagem que, anos atrás, prometia financiar a ponte Natal-Fernando de Noronha, a principal promessa do pai das candidaturas esdrúxulas, Miguel Mossoró.

Quem descobriu o filão do voto de protesto em terras potiguares parece ter sido o sargento reformado da Polícia Militar. Até a eleição de 2004, para a prefeitura de Natal, ele era um ilustre desconhecido. O homem das promessas mirabolantes, que ia dar tapa nos turistas mal-intencionados, conseguiu ficar em terceiro na disputa vencida por Carlos Eduardo. Miguel Mossoró deixou o pequeno PTC à frente das candidaturas de partidos tradicionais do PT, com Fátima Bezerra, e do PFL, com Ney Lopes. Teve quase vinte mil votos a mais que os dois deputados federais juntos. Talvez para não se mostrar corrompido, em 2004, ele até rejeitou apoiar um dos candidatos no segundo turno; era parte da estratégia traçada para este ano.

Miguel Mossoró agradece os 67.065 votos.

Aguarde. 2006 estou de volta.

O adesivo, com erro de concordância e tudo, foi distribuído após a campanha de 2004.

O candidato só não contava que a idéia dele corria o risco de ser copiada... E foi o que aconteceu. O PTC ficou para trás na apresentação do absurdo e o resultado é que Miguel Mossoró não figura em nenhuma lista dos futuros ocupantes das cadeiras do Palácio José Augusto. No caminho alguém deve ter esquecido que o eleitor que protesta é muito mais volúvel do que o que vota consciente. De tantos candidatos é bem provável que os votos sejam pulverizados. Como consolo, no final, eles podem ficar na lista dos candidatos toscos do YouTube, um site que coleciona vídeos caseiros enviados de todas as partes do mundo e onde podemos encontrar algumas pérolas.

Da minha parte vou continuar garimpando no horário eleitoral gratuito. Depois do Rio Grande do Norte troquei de canal para acompanhar o de São Paulo, que é muito chato, o de Sergipe, onde a disputa está bem equilibrada, e o do Ceará, onde os golpes abaixo da linha da cintura incendeiam a eleição.

Para quem quiser se dispor a fazer o mesmo, uma dica: já que não vamos mesmo votar nestes candidatos podemos ignorar os que têm muito tempo para falar; prestar um pouco de atenção no que os sérios dizem; não levar em conta os que apenas querem demonstrar seriedade e dar boas risadas das propostas mirabolantes. Podemos aproveitar também para repetir uma frase criada por um famoso radialista norte-rio-grandense: ‘ô povo fêi!’

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