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A
palavra de Dorian Jorge Freire
Apupos de um redator
Bufafa e eu, de meu canto, aguardávamos
com ansiedade que aquela massa de carne e nervos explodisse.
Pum!
Enorme, cara amarrada, Bufafa anda
de um lado para o outro, macaco em jaula, a mão sobre
a careca reluzente. Olha os minutos que passam, pára
diante da janela, o rosto voltado para os muros do velho
colégio onde pombos lhe dão gratuitas (e ternas) lições
de humildade. Retorna à mesa, empurra a cadeira de couro
com os pés, espuma. Outra explosão virá, inevitável.
Já aparece nas veias do pescoço, na mão pequena que
se contrai, nos dedos curtos vincados de branco. Vai
ao telefone e disca:
- Ligue-me com o João.
Desliga. Faz que olha um papel qualquer,
continua a pôr e a retirar os óculos. Chatice de mania.
Tique nervoso evidente. O telefone toca ao meu lado.
Assusto-me e atendo. Ligação para ele.
- Telefone para você. Diz que é um
amigo.
O homem grande não levanta a cabeça,
grunhe e depois berra.
- Diz que não estou, diz qualquer
coisa. Não atendo filho da puta nenhum.
Arrasto explicações ao telefone. Agora
é o dele que toca. Atende e volta a berrar, já apoplético.
Talvez vá estourar. Certamente vai estourar.
- Chama o João! Diz que sou eu!
Aguardo. Deixo de bater nas teclas.
Outro grito:
- Ô, velho, vem ou não vem trabalhar?
Acha que todo mundo é filho da puta como você, irresponsável
e leviano? Não, senhor! Não há explicação! Jornal não
se faz assim. Não se faz com conversa! Não me interessa,
não me interessa... Foda-se!
Desliga. Não posso deixar de sorrir.
Jarbas, na mesa em frente, pisca o olho. Ontem foi ele.
Em pouco tempo somos vários no amplo
salão. Heitor escreve sobre economia, metido num terno
elegante. Jarbas ainda sorri. Os seus pegas com o homem
grande são famosos.
Ficamos em silêncio. Só as máquinas
fazem barulho. Cinco minutos, sete minutos, dez minutos.
João chega. Paletó verde, óculos ray-ban. O homem grande
vocifera. João diz desculpas em português castiço de
maranhense da última remessa. O homem grande não ouve,
fala pelos cotovelos, agride, xinga. Dir-se-ia que uma
agressão física estava iminente. Mas a manhã avança,
o trabalho progride entre os nossos nervos expostos.
No fim do expediente, quando desço,
encontro o homem grande na porta. Charuto na boca, convida-me
ao cafezinho no tio. Caminhamos lentamente. Está sem
sossego, em agitação humilde. Fala de literatura: Balzac.
Memória fotográfica. Não lhe escapa um detalhe, um nome,
uma referência. No café do tio encontramos o João, curvado
sobre uma cerveja. Em estado de vítima. O homem grande
avança e senta ao seu lado. Sento à frente dos dois.
O homem grande pede um copo e também bebe. Bebemos os
três. João fala na descompostura recente. Geme:
- Tenha dó... Assim não é possível...
Já não lhe basta a agressão de palavras ásperas e ainda
liga para a minha casa e fala com a minha esposa...
O homem grande é um cordeiro. Amiúda-se
sob o remorso. Explica-se. Desculpa-se. Creio encontrar
lágrimas nos seus olhos. Quando os deixo, ainda bebem.
Já alegres, reconciliados. Em lua-de-mel.
Faz quanto tempo? Doze, treze anos.
Em 1957, ou 1958. Ou não seria em 1959? Jornal Última
Hora, é certo.
A distância é enorme. Tempo e espaço.
Agora é outra manhã e nos cantos de meus olhos também
há gotas de lágrimas. Saudades de tudo. Saudades especialmente
de mim. De tudo que perdi, de tudo que se distanciou,
daquela fortuna que escorregou entre os meus dedos.
A mocidade sendo agora tema para remorsos.
Roda viva. O mundo girando, a gente
caminhando nele, o fim próximo, cada vez mais próximo.
É noite. A pancada na porta interrompe
a escritura. É o padre a quem, um dia, confessei os
meus pecados. O padre em quem, um dia, divisei poderes
quase miraculosos e uma mão poderosa. Pede que não permita
estampe o jornal o seu caso, a sua história. Está nervoso,
treme, soluça, chora sem lágrimas. É uma vítima. Imola-se
mil vezes por dia. Já não suporta a carga do celibato.
Não lhe foi dado o direito de opção. Entrou no seminário
menino e saiu padre. Agora, ou sai ou morre. Ou sai
ou não há forças para continuar com dignidade. Noites
insones, diz. Olhares pelas ruas. Comentários maldosos.
Não quer macular o seu sacerdócio e para ser fiel há
que morrer de vergonha. Como se servisse a um Deus triste.
Não encontro palavras para responder.
Padre para a eternidade, ordem de Melquisedeque. Fraqueza,
debilidade humana, a noite escura. Deveria ter escrito,
num cartão, uma frase de Bloy: "Quand la Providence
prend tout, e´est pour se donner elle nême". Faltou-me
coragem ou a lembrança veio tardia. Rezarei por ele.
Rezarei por nós. Pai-Nosso e Ave-Maria saltando, maquinalmente.
Esperança de que o olhar de Deus purifique o charco
da indiferença, da tibieza, da miséria humana. Tem piedade,
Satã, desta longa miséria... Como se o perdido pudesse
salvar alguma coisa, apiedar-se de alguém. Como se Baudelaire
pudesse encontrar junto a ele a paz que não encontrou
e que ninguém encontra aqui.
Dez e meia da noite. O pensamento
parte e reencontra a sua dor. Amanhã... Como se houvesse
um amanhã. Ou como se tudo não tivesse se perdido no
ontem inutilizado, fanado, dissolvido no esquecimento
e no que passou-não-volta-nunca-mais...
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