Mossoró-RN, domingo 24 de setembro de 2006

A palavra de Dorian Jorge Freire

Apupos de um redator

Bufafa e eu, de meu canto, aguardávamos com ansiedade que aquela massa de carne e nervos explodisse. Pum!

Enorme, cara amarrada, Bufafa anda de um lado para o outro, macaco em jaula, a mão sobre a careca reluzente. Olha os minutos que passam, pára diante da janela, o rosto voltado para os muros do velho colégio onde pombos lhe dão gratuitas (e ternas) lições de humildade. Retorna à mesa, empurra a cadeira de couro com os pés, espuma. Outra explosão virá, inevitável. Já aparece nas veias do pescoço, na mão pequena que se contrai, nos dedos curtos vincados de branco. Vai ao telefone e disca:

- Ligue-me com o João.

Desliga. Faz que olha um papel qualquer, continua a pôr e a retirar os óculos. Chatice de mania. Tique nervoso evidente. O telefone toca ao meu lado. Assusto-me e atendo. Ligação para ele.

- Telefone para você. Diz que é um amigo.

O homem grande não levanta a cabeça, grunhe e depois berra.

- Diz que não estou, diz qualquer coisa. Não atendo filho da puta nenhum.

Arrasto explicações ao telefone. Agora é o dele que toca. Atende e volta a berrar, já apoplético. Talvez vá estourar. Certamente vai estourar.

- Chama o João! Diz que sou eu!

Aguardo. Deixo de bater nas teclas. Outro grito:

- Ô, velho, vem ou não vem trabalhar? Acha que todo mundo é filho da puta como você, irresponsável e leviano? Não, senhor! Não há explicação! Jornal não se faz assim. Não se faz com conversa! Não me interessa, não me interessa... Foda-se!

Desliga. Não posso deixar de sorrir. Jarbas, na mesa em frente, pisca o olho. Ontem foi ele.

Em pouco tempo somos vários no amplo salão. Heitor escreve sobre economia, metido num terno elegante. Jarbas ainda sorri. Os seus pegas com o homem grande são famosos.

Ficamos em silêncio. Só as máquinas fazem barulho. Cinco minutos, sete minutos, dez minutos. João chega. Paletó verde, óculos ray-ban. O homem grande vocifera. João diz desculpas em português castiço de maranhense da última remessa. O homem grande não ouve, fala pelos cotovelos, agride, xinga. Dir-se-ia que uma agressão física estava iminente. Mas a manhã avança, o trabalho progride entre os nossos nervos expostos.

No fim do expediente, quando desço, encontro o homem grande na porta. Charuto na boca, convida-me ao cafezinho no tio. Caminhamos lentamente. Está sem sossego, em agitação humilde. Fala de literatura: Balzac. Memória fotográfica. Não lhe escapa um detalhe, um nome, uma referência. No café do tio encontramos o João, curvado sobre uma cerveja. Em estado de vítima. O homem grande avança e senta ao seu lado. Sento à frente dos dois. O homem grande pede um copo e também bebe. Bebemos os três. João fala na descompostura recente. Geme:

- Tenha dó... Assim não é possível... Já não lhe basta a agressão de palavras ásperas e ainda liga para a minha casa e fala com a minha esposa...

O homem grande é um cordeiro. Amiúda-se sob o remorso. Explica-se. Desculpa-se. Creio encontrar lágrimas nos seus olhos. Quando os deixo, ainda bebem. Já alegres, reconciliados. Em lua-de-mel.

Faz quanto tempo? Doze, treze anos. Em 1957, ou 1958. Ou não seria em 1959? Jornal Última Hora, é certo.

A distância é enorme. Tempo e espaço. Agora é outra manhã e nos cantos de meus olhos também há gotas de lágrimas. Saudades de tudo. Saudades especialmente de mim. De tudo que perdi, de tudo que se distanciou, daquela fortuna que escorregou entre os meus dedos. A mocidade sendo agora tema para remorsos.

Roda viva. O mundo girando, a gente caminhando nele, o fim próximo, cada vez mais próximo.

É noite. A pancada na porta interrompe a escritura. É o padre a quem, um dia, confessei os meus pecados. O padre em quem, um dia, divisei poderes quase miraculosos e uma mão poderosa. Pede que não permita estampe o jornal o seu caso, a sua história. Está nervoso, treme, soluça, chora sem lágrimas. É uma vítima. Imola-se mil vezes por dia. Já não suporta a carga do celibato. Não lhe foi dado o direito de opção. Entrou no seminário menino e saiu padre. Agora, ou sai ou morre. Ou sai ou não há forças para continuar com dignidade. Noites insones, diz. Olhares pelas ruas. Comentários maldosos. Não quer macular o seu sacerdócio e para ser fiel há que morrer de vergonha. Como se servisse a um Deus triste.

Não encontro palavras para responder. Padre para a eternidade, ordem de Melquisedeque. Fraqueza, debilidade humana, a noite escura. Deveria ter escrito, num cartão, uma frase de Bloy: "Quand la Providence prend tout, e´est pour se donner elle nême". Faltou-me coragem ou a lembrança veio tardia. Rezarei por ele. Rezarei por nós. Pai-Nosso e Ave-Maria saltando, maquinalmente. Esperança de que o olhar de Deus purifique o charco da indiferença, da tibieza, da miséria humana. Tem piedade, Satã, desta longa miséria... Como se o perdido pudesse salvar alguma coisa, apiedar-se de alguém. Como se Baudelaire pudesse encontrar junto a ele a paz que não encontrou e que ninguém encontra aqui.

Dez e meia da noite. O pensamento parte e reencontra a sua dor. Amanhã... Como se houvesse um amanhã. Ou como se tudo não tivesse se perdido no ontem inutilizado, fanado, dissolvido no esquecimento e no que passou-não-volta-nunca-mais...

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