Mossoró-RN, domingo 24 de setembro de 2006

 

Meu velho mestre, Vingt-un

Amanhã meu velho mestre completaria 86 anos de vida, paixão pelos livros e teimosia para com as coisas da cultura.

Nos últimos tempos pedia sempre que não emocionassem muito "o velho de oitenta anos", mas muitas foram as emoções que ele viveu e maiores ainda aquelas que ele promoveu para muita gente.

Lembro da primeira vez que estive com Vingt-un, levado pelo braço por Cid Augusto.

Àquela época, no ano de 1996, houve uma enxurrada de poesia em Mossoró, a maior que já presenciei nestes meus 14 anos de feliz exílio.

Publicamos a um só tempo, Marcos Ferreira, Cid, Genildo Costa e eu os nossos enfeixes de poemas. Eram os primórdios da POEMA.

Vingt-un encantou-se por uma poesia minha intitulada "E na solidão escrevi" que dava nome ao meu primeiro livro e eu encantei-me com aquele universo mágico de tantos livros, encanto que algum tempo depois eu mesmo veria estampado nos olhos de tanta gente.  

Vingt-un falou-me das dificuldades que acompanhavam aquele trabalho já de quase cinqüenta anos, à época, e me dava sugestões para que eu arrecadasse recursos para publicar aquele primeiro trabalho.

Tempos depois Vingt-un me procurou para saber se eu sabia mexer com computador. Eu trabalhava no O Sujeito, dirigido por Crispiniano Neto, mas disse-lhe que sim, sabia "mexer em um computador". Ele pediu-me para ir à sua casa numa segunda-feira, não pude ir. Na manhã da terça, muito cedo, o motorista dele chegou à minha procura e me "raptou".

Era pra digitar "Sindicato do Garrancho", visto que seu neto Laurence estava assoberbado com os trabalhos da faculdade de Direito e não poderia continuar o trabalho.

Terminei a digitação do livro, ele me pagou e fui embora. Dois dias depois ele me ligou perguntando o que havia acontecido. Porque eu não havia mais aparecido no trabalho.

Não entendi, imaginei que fosse somente aquele primeiro trabalho. Nunca mais saí de dentro das suas oficinas de saber.

Nunca falamos de salário, de contratos trabalhistas, de horas de folga. A vida foi passando e eu fui sendo feliz ao lado daquele gênio da editoria no Rio Grande do Norte.

Eu vi Vingt-un chorar e sorrir, bradar e cobrir de elogios. Testemunhei coisas que nem a sua família testemunhou: desabafos, palavras descomprometidas com o "homem público".

Ganhei um novo herói.

...et cetera e coisa e tal...

Marcos Pinto, presidente da Academia Apodiense de Letras, anda com duas agendas debaixo do braço. Uma já está cheia e a outra quase chegando lá. Não pode ver um cristão das Letras na rua que ele o inscreve para ser sócio-correspondente da AAPOL.

Para infelicidade da Academia eu fui pego por Marcos Pinto e Jotta Paiva e pronto, lá está meu nome inserido para receber na próxima quarta-feira o galardão daquela casa, o que muito me honra, apesar de não esconder a tristeza por não ter do meu lado a presença de Dodora.

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