Mossoró-RN, domingo 24 de setembro de 2006

Sérgio Dantas Jales, bodegueiro há 57 anos

Por Leonardo Sodré
Editor Geral

Sérgio Dantas Jales é, sobretudo, uma pessoa feliz e realizada. Dono de bodega há 57 anos, sempre viveu do próprio negócio, de onde tira o sustento para criar os filhos, muitos já formados e com vida própria. Aos 76 anos, casado pela segunda vez, continua à frente do negócio que iniciou em 1945, em Patu. Nascido em Messias Targino, numa fazenda, veio para Mossoró no dia 27 de janeiro de 1971, se estabelecendo na avenida Alberto Maranhão, 1413, onde permanece até hoje, "despachando quem vem e esperando quem ficou de vir", ressalta sorrindo. "Vim para poder cuidar melhor dos meus filhos, dar estudo a eles, porque em Messias Targino somente tinha escola somente até o primário". Hoje tenho filhos formados, como Hédimo Jales, que é professor e mestre da língua portuguesa, e Hélito Jales, que é médico, mas me orgulho de todos", garante.

Sertanejo forte e de olhar bondoso, Sérgio Dantas Jales orgulha-se de ter um estabelecimento muito bem sortido. "Tenho de tudo, verdura, carne, pote, baladeira e até camisinha", diz com orgulho. Realmente, a sua bodega é lotada de todo tipo de mercadoria e durante o tempo em que estivemos por lá pudemos constatar um grande movimento. Na ocasião sua segunda esposa, Ozélia, estava lhe ajudando no balcão, desdobrando-se para atender a várias pessoas.

Sérgio ressalta: "Estou nesta esquina há muitos anos e me orgulho de ter vários amigos e nenhum inimigo. Antigamente a bodega tinha nome. Chamava-se Olga, que era o nome da minha primeira esposa. Mas, depois que ela morreu resolvi tirar o nome e não botar mais nenhum, como forma de homenageá-la". Passado um tempo, casou-se com Ozélia, com quem tem três filhos. Com Olga teve cinco filhos.

Ele contabiliza muitas histórias, inclusive a de um vizinho que deixou a família para ir viver com outra mulher na Bahia. A família, sem recursos, continuou a comprar fiado no seu estabelecimento e ele nunca cobrava a conta, preferindo ajudar silenciosamente. O marido nunca voltou, morreu e a família trabalhou e terminou por pagar tudo direitinho.

Para Sérgio Dantas Jales a principal regra do comércio é o segredo. Por exemplo: ele jamais compra um produto para revender quando o vendedor grita de fora de sua loja. "Se ele disser: Sérgio quer comprar isso ou aquilo, de pronto respondo que não. Como é que eu vou discutir preço de produto no meio da rua, para todo mundo saber por quanto estou comprando? De jeito nenhum. Digo logo que não quero comprar e pronto. O sucesso está no segredo e na honestidade. O comerciante tem que ser muito honesto e perseverante. Essa é a regra fundamental para as coisas darem certo."

Ele tem uma freguesia fiel. Alguns lhe compram desde o dia em que abriu as portas da bodega na avenida Alberto Maranhão. Ainda usa a velha caderneta, onde anota tudo o que o freguês compra e que paga no final do mês.

Perguntado pelo seu neto Hédimo Filho, campeão brasileiro de voleibol infanto-juvenil, disse: "É uma beleza! Bastava ele ser jogador para eu ficar orgulhoso. Agora, campeão brasileiro é uma beleza!".

Ele passa o dia no balcão da bodega atendendo as pessoas e ouvindo um velho e enorme rádio da antiga marca ABC. "Esse rádio tem mais de 40 anos e eu não troco por nenhum outro. Funciona muito bem. Outro dia Hédimo Jales, meu filho, veio aqui com um rádio moderno que tinha até ventilador (risos), dizendo para eu trocar pelo velho. Aí eu respondi: troco nada! Pode levar essa modernidade (risos). Mas, era brincadeira dele, que sabe que não me separo do meu velho rádio. Levei o moderno para outro canto".

Com relação à segurança na maior avenida de Mossoró, diz que já foi assaltado três vezes. Diz sem raiva, apenas como uma constatação de quem é sertanejo e não está acostumado com esse tipo de coisa. Adianta que não vende bebida para ser consumida no estabelecimento: "Só vendo bebida para o cliente levar para tomar onde quiser".

Gosta de futebol, mas há muito tempo somente "assiste" aos jogos pelo rádio. Prefere ficar em casa. "Eu gosto mesmo é de trabalhar. Abro às 6h e fecho às 20h, diariamente. Antes ia até mais tarde, mas a insegurança me fez fechar mais cedo. É isso mesmo, a gente tem que se habituar a tudo. É como calote. Vez por outra tomo um calote, mas isso faz parte do comércio. Nunca dei calote em ninguém, mas às vezes sou lesado. Temos que nos acostumar aos tempos modernos, não é mesmo?"

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