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Sérgio
Dantas Jales, bodegueiro há 57 anos
Por Leonardo Sodré Editor
Geral
Sérgio Dantas Jales
é, sobretudo, uma pessoa feliz e realizada. Dono de
bodega há 57 anos, sempre viveu do próprio negócio,
de onde tira o sustento para criar os filhos, muitos
já formados e com vida própria. Aos 76 anos, casado
pela segunda vez, continua à frente do negócio que iniciou
em 1945, em Patu. Nascido em Messias Targino, numa fazenda,
veio para Mossoró no dia 27 de janeiro de 1971, se estabelecendo
na avenida Alberto Maranhão, 1413, onde permanece até
hoje, "despachando quem vem e esperando quem ficou
de vir", ressalta sorrindo. "Vim para poder
cuidar melhor dos meus filhos, dar estudo a eles, porque
em Messias Targino somente tinha escola somente até
o primário". Hoje tenho filhos formados, como Hédimo
Jales, que é professor e mestre da língua portuguesa,
e Hélito Jales, que é médico, mas me orgulho de todos",
garante.
Sertanejo forte e de
olhar bondoso, Sérgio Dantas Jales orgulha-se de ter
um estabelecimento muito bem sortido. "Tenho de
tudo, verdura, carne, pote, baladeira e até camisinha",
diz com orgulho. Realmente, a sua bodega é lotada de
todo tipo de mercadoria e durante o tempo em que estivemos
por lá pudemos constatar um grande movimento. Na ocasião
sua segunda esposa, Ozélia, estava lhe ajudando no balcão,
desdobrando-se para atender a várias pessoas.
Sérgio ressalta: "Estou
nesta esquina há muitos anos e me orgulho de ter vários
amigos e nenhum inimigo. Antigamente a bodega tinha
nome. Chamava-se Olga, que era o nome da minha primeira
esposa. Mas, depois que ela morreu resolvi tirar o nome
e não botar mais nenhum, como forma de homenageá-la".
Passado um tempo, casou-se com Ozélia, com quem tem
três filhos. Com Olga teve cinco filhos.
Ele contabiliza muitas
histórias, inclusive a de um vizinho que deixou a família
para ir viver com outra mulher na Bahia. A família,
sem recursos, continuou a comprar fiado no seu estabelecimento
e ele nunca cobrava a conta, preferindo ajudar silenciosamente.
O marido nunca voltou, morreu e a família trabalhou
e terminou por pagar tudo direitinho.
Para Sérgio Dantas
Jales a principal regra do comércio é o segredo. Por
exemplo: ele jamais compra um produto para revender
quando o vendedor grita de fora de sua loja. "Se
ele disser: Sérgio quer comprar isso ou aquilo, de pronto
respondo que não. Como é que eu vou discutir preço de
produto no meio da rua, para todo mundo saber por quanto
estou comprando? De jeito nenhum. Digo logo que não
quero comprar e pronto. O sucesso está no segredo e
na honestidade. O comerciante tem que ser muito honesto
e perseverante. Essa é a regra fundamental para as coisas
darem certo."
Ele tem uma freguesia
fiel. Alguns lhe compram desde o dia em que abriu as
portas da bodega na avenida Alberto Maranhão. Ainda
usa a velha caderneta, onde anota tudo o que o freguês
compra e que paga no final do mês.
Perguntado pelo seu
neto Hédimo Filho, campeão brasileiro de voleibol infanto-juvenil,
disse: "É uma beleza! Bastava ele ser jogador para
eu ficar orgulhoso. Agora, campeão brasileiro é uma
beleza!".
Ele passa o dia no
balcão da bodega atendendo as pessoas e ouvindo um velho
e enorme rádio da antiga marca ABC. "Esse rádio
tem mais de 40 anos e eu não troco por nenhum outro.
Funciona muito bem. Outro dia Hédimo Jales, meu filho,
veio aqui com um rádio moderno que tinha até ventilador
(risos), dizendo para eu trocar pelo velho. Aí eu respondi:
troco nada! Pode levar essa modernidade (risos). Mas,
era brincadeira dele, que sabe que não me separo do
meu velho rádio. Levei o moderno para outro canto".
Com relação à segurança
na maior avenida de Mossoró, diz que já foi assaltado
três vezes. Diz sem raiva, apenas como uma constatação
de quem é sertanejo e não está acostumado com esse tipo
de coisa. Adianta que não vende bebida para ser consumida
no estabelecimento: "Só vendo bebida para o cliente
levar para tomar onde quiser".
Gosta de futebol, mas
há muito tempo somente "assiste" aos jogos
pelo rádio. Prefere ficar em casa. "Eu gosto mesmo
é de trabalhar. Abro às 6h e fecho às 20h, diariamente.
Antes ia até mais tarde, mas a insegurança me fez fechar
mais cedo. É isso mesmo, a gente tem que se habituar
a tudo. É como calote. Vez por outra tomo um calote,
mas isso faz parte do comércio. Nunca dei calote em
ninguém, mas às vezes sou lesado. Temos que nos acostumar
aos tempos modernos, não é mesmo?"
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