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Xico Sá compila a testosterona com modo de usar

(BR Press) – O jornalista Xico Sá, um dos cabras mais modernos e safados (no bom e no mau sentido)  da imprensa brasileira, está lançando em livro uma coletânea do saboroso trabalho que faz no jornal Folha de S. Paulo, em colunas como Macho (inaugurada por ele) e Minha Primeira Vez. Modos de Macho & Modinhas de Fêmea - A educação sentimental do homem (Record, 156 págs., R$ 29,00) chegou às livrarias na última segunda, com lançamento na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em São Paulo, a partir das 19h. Finalmente a testosterona — modo de usar — é explicada às mulheres. O Xico é quem garante.Cearense formado sentimentalmente no Recife, onde morou a maior parte da vida, apresenta uma bula do comportamento masculino em crônicas bem-humoradas, que são uma verdadeira homenagem às moças. Ao longo do livro, o leitor poderá se deliciar com os aforismos líricos de Xico, e conclusões do tipo “homem que é homem não sabe a diferença entre estria e celulite nem pode gostar de doce - issoé coisa de gay, mulher e formiga”. Mas não se aflija.Isso, na verdade, é coisa de jornalista-conversador-cascateiro - e dos últimos boêmios. Xico Sá insiste em mostrar que há luz no fim da caverna: seu macho não tem nada de Neanderthal e deixaria qualquer mulher completamente apaixonada depois do primeiro encontro. Segundo Xico, na verdade o que toda mulher quer é um homem sensível e lenhador ao mesmo tempo e é esse “macho dos sonhos” que conhecemos neste livro. Um doce canalha, talvez.Em 1997, ao inaugurar a coluna Macho na revista da Folha de S. Paulo, Xico Sá criava não uma tribuna aberta para o machismo, como suspeitava-se na época, mas sim um posto avançado 100% devotado às mulheres. O efeito da coluna foi imediato. “Trabalhava há quase duas décadas em redação, em coberturas ditas importantes, como o caso PC Farias e reportagens de denúncia que renderam Prêmio Esso e outras glorias vãs, mas nunca havia experimentado um auê tão grande sobre o que fazia”, conta o repórter. “Como dizem meus amigos gays, fiquei passado”. O sucesso foi tanto que rapidamente Xico estava escrevendo para ]a revista Vip a coluna Orgulho de macho, onde filosofava sobre a relação entre homens e mulheres e “baixarias de boteco”, como ele mesmo diz. Colaborou também com a Playboy, na seção De homem para homem. Xico Sá, 40 anos, descobriu a tragédia sentimental aos 15, 16 anos, com as cartas dos ouvintes de Temas de Amor, da Rádio Vale do Cariri (Juazeiro), no qual auxiliava o locutor Gevan Siqueira a amansar as dores do mundo. No Recife, seguiu no ramo, fazia poemas sob encomenda na sede das Edições Piratas, com considerável sucesso comercial dos acrósticos. Depois, perdeu-se no jornalismo. Eis então que escreve “um livro com humor de primeira para macho nenhum botar defeito e inteligência suficiente para fêmeas caírem de boca”, parafraseando Joaquim Ferreira dos Santos. A seguir, é Xico Sá que toma a palavra.Esse livro não é uma publicação machista, a começar pelo título, meio irônico com as “modinhas” das mulheres? Xico Sá – Tem alguma sombra de machismo trazida lá do Cariri profundo, das bandas do Crato, mas não é nada diante do samba-exaltação às mulheres, à devoção, à cerimônia dos beija-pés. Ora, as novas gerações de homens parecem que esqueceram desses gestos, tratam mal às mulheres, chamam as fêmeas de “cara”, como vejo nos bares e na TV. Isso é absurdo. O título é apenas uma brincadeira com o livro de Gilberto Freyre –Modos de Homem & Modas de Mulher -, um dos grandes inspiradores das crônicas. Só que ele escreveu sociologia, eu cometi apenas uma prosa de boteco sem nenhuma pretensão literária.

As narrativas do livro, como as crônicas em que você fala de sexo com bananeiras, cactos e cabras, são experiências reais?

Xico Sá – Na maioria das vezes sim. Como dizia Flaubert, “Madame Bovary c´est moi”. Em alguns ocasiões, os fatos ocorreram com primos, amigos, que são citados nos textos. O rapazinho do interior costuma se virar com o que tem à mão. E ainda mais no meu tempo, as coisas eram mais difíceis. Conhecer a primeira mulher demorava horrores, e normalmente a primeira era sexo pago, na zona, no cabaré da cidade, como conto no livro. Os meninos de hoje nem sabem mais o que seja isso. Tratam até com desrespeito as prostitutas, que são digníssimas damas do bem.

 Você diz que o livro não tem nada de literário, mas está repleto de citações, algumas até meio pretensiosas...

Xico Sá – Mas é uma coisa em tom de paródia mesmo. Pego uma frase bem pomposa do mundo da dita literatura para desconstrui-la em uma conversa do mais sujo dos botequins. Seria ridículo se fosse em dicção séria. Também não tem nada dessa babaquice de intertextualidade ou pós-modernismo. É fraude mesmo, intencional. E muita coisa de autor famoso, de filósofos, grandes poetas, na boca dos mais vagabundos dos meus amigos de bar. Como uma música cheia de simples, sabe? Vozes de uma babel alcoolizada e cheia de testosterona.

O mundo gay merece vários textos no livro. Não é uma contradição para um livro de macho?

Xico Sá – Não. Aí é que você se engana. Os gays são geniais e mais do que necessários no mundo macho. Como digo no livro, festa sem gay, por exemplo, não orna, não emplaca. Toda festa boa, para animar mesmo, carece de pelo menos uma meia dúzia de “bibas”. Para melhor amigo das nossas mulheres, nada melhor também que um gay inteligente, que as leve para o cinema “cabeça”... enquanto ficamos vendo Fluminense x Olaria, Santos x Ituano, Sport x Íbis...

Você faz a linha tipo canalha, gavião, cafajeste que sai à caça como um colecionador barato? Ou é mais chegado num romance?

Xico Sá – Não sou. Não por santidade, que não tenho nada de imaculado. Mas acho que a grande sacanagem é a intimidade. Aí sim é putaria, com o perdão do termo, de verdade. O grande sexo, a transa homérica, vem com a intimidade total. Aí sim mora a safadeza de fato e de direito. Sempre fui de ficar namorando ou casadinho. Aliás, dedico esse livro a todas as mulheres – repare a dedicatória! - com as quais tive relacionamentos de seis meses acima. Elas me mudaram, me ajudaram a ser mais homem. Por isso sou muito agradecido. Como diz o livro de Antônio Maria, “benditas sejam as moças!”.

A essa altura do campeonato, você já aprendeu a diferença entre estria e celulite?

Xico Sá – Tenho umas amigas que ficam me explicando... “Olha aqui, sabe essas listrinhas, isso é estria... Sabe esses furinhos, aqui está a famosa celulite... Realmente isso não me interessa mesmo, não faz o menor sentido. A mulher é maior. É aquela coisa linda sorrindo. E sempre com uma beleza extraordinária... Seja num pescoço, num olho, numa omoplata, num joelhinho, numa coxa, um sinalzinho aqui outro ali... E tem mais: elas são tão generosas que não ficam patrulhando, salvo algumas exceções, nossas barrigas de chope, nossas fraquezas físicas. Noves fora as “patricinhas”, claro, neoliberais do amor, que querem mesmo músculos e burrice.

No livro há uma certa obsessão sobre o tema do chifre, da traição – coisa típica de nordestino. Você já foi chifrado?

Xico Sá – Devo ter sido mais do que imagino. Só o chifre nos humaniza, nos põe mais sensíveis, pois normalmente somos muito metidos a macho, poderosos, acima das situações. Tem que rolar o choro com muita cachaça nessa hora, eis a lição das coisas, a grande pedagogia do chifre. E nem mata, sabia?

No capítulo “madeleines e bodes em geral de um cabra” você fala de comida e dá receitas. Já experimentou as receitas ou comprou os pratos feitos?

Xico Sá – Claro que não sou desses homens que enganam as suas presas com uma comidinha tipo “ervas finas”. Tampouco entendo de vinhos, coisa suspeita em um cabra –muito estranho esse hábito de colecionar bebida em vez de ingeri-las a qualquer custo. Gosto de cozinhar na linha perversa, comida forte, nordestina, de preferência. O bode –seja a buchada, o caldinho ou a costela assada - está para mim como os bolinhos afrescalhados (as madeleines) estavam para Marcel Proust. É o cheiro do bode que me desperta a memória afetiva do mundo. Um tatu, então, vixe Maria!!! Meu pai sempre foi um grande caçador dessa raça.

E o exame de próstata, feito à beira dos 40, que você relata no livro, foi traumático? Por quê?

Xico Sá – Nada, apenas um dedinho de prosa com o homem de branco. É ridículo que morra tanta gente desse tipo de câncer pelo simples medo de uma escaneada com o dedo fura-bolo. Por isso que recomendo que os machos treinem com as suas namoradas, no gesto conhecido vulgarmente como “fio-terra”.

Tem um personagem do livro, que você toma emprestado do Tom Zé – também personagem do Modos de Macho... - que chega a dizer que transar não é lá essas coisas... O que você acha disso?

Xico Sá – Em uma mesa no Recife, um amigo meu – há dúvidas na memória alcoólica se o Zé Telles ou Evaldo Costa - chegou à conclusão, ironicamente, claro, que trepar era um sacrifício correspondente a subir dez andares de escada, sem elevador... Conheci um taxista que se tremia todo quando ouvia a musiquinha do Fantástico, era a hora que a patroa lhe procurava para o serviço... Mas até que é divertido esse tal de sexo. Anos atrás, por exemplo, eu transava com uma jovem chegada a um contorcionismo, um circo Orlando Orfei do amor, perna pra tudo que é canto, um polvo amoroso... Ela toda vanguarda, Kama Sutra do misticismo, cheia das invenções, e eu ali, gerenciando o meu reumatismo e a experiência. Até que tive um câibra medonha na perna esquerda. Estiquei-me todo, fiz lá um troço involuntário. Ela foi à loucura. Subia pelas paredes. Disse que nunca havia visto nada igual. E tudo não passava de uma pobre câibra de um atleta cansado de guerra.

Você acha que as mulheres têm o que aprender com a leitura do seu livro?

Xico Sá – A pretensão não é ser o Og Mandino (aquele de “O maior vendedor do mundo”) do amor... Muito menos o Fernão Capelo Gaivota do sexo tântrico... Mas que o livro é um auto-empurrão e tanto, isso é. O macho finalmente explicado, enquanto fraude, às mulheres.

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Mossoró-RN, domingo, 23 de fevereiro de 2003