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Aflição de Mãe
IZAÍRA THALITA
Da Redação
Quando as atenções de todo o mundo se voltam para a guerra no Iraque, algumas mães mossoroenses estão com sua atenção voltadas para os Estados Unidos. A explicação está no fato de que estas mães possuem filhos estudando nos Estados Unidos através de intercâmbio cultural e como o país é o promotor da guerra, o medo do contra-ataque tem tornado a saudade dos filhos ainda maior.
A decoradora Naide Bessa, a médica Socorro Rodrigues e a comerciante Tereza Glícia Queiroz vivem o sentimento de aflição diante da guerra, mas já se mostram mais tranqüilas. Todas aliviam a saudade através da Internet, com e-mails diários e telefonemas uma vez na semana com os filhos. “O que não dá é para ficar sem informações”, explica a comerciante Tereza Glícia, que diz ainda receber notícias constantes da filha, Maria Luíza, estudante intercambista da AFS, que está morando há sete meses na cidade de Wiscosin.
A decoradora Naide Bessa conta que o filho Luís Henrique está residindo na pequena cidade de Burr Oak, que fica a quarenta minutos de metrô, da cidade de Chicago. Naide diz que a aflição é algo natural de toda mãe que vive uma situação como esta, no entanto é tranqüilizada pelo filho Luís Henrique, 17 anos, nos contatos que faz através da Internet, de que a situação está sob controle e por não estar em uma grande cidade, facilita o clima de tranquilidade.
“Ele tem acesso à Internet todos os dias e conversamos sempre. Em todas às vezes ele me tranqüiliza, diz que a cidade não é um atrativo para ataques porque são poucos habitantes e a população é pacata, tranqüila mesmo. A vida tem transcorrido normalmente, tanto que ele já planeja uma viagem com os colegas da escola e o temor maior é o do vírus China, aquele que tem matado em um dia mais do que com a guerra propriamente”, reforça a decoradora.
A médica Socorro Rodrigues, mãe do estudante Michael Nicolas Rodrigues, 17 anos, teme por demais que algo possa acontecer. Nicolas está na cidade de Monroe - de 30 mil habitantes - a apenas uma hora de Nova York. Nos contatos, Nicolas tem contado que a família americana onde está residindo há sete meses é a favor da guerra porque tem um parente próximo na família que também está lutando no Iraque. No entanto, todos os cuidados vêm sendo tomados pela família como evitar as viagens a Nova York e passeios a outras cidades próximas neste momento.
“Pelo o que ele me fala o povo americano está muito mais protegido do que os demais povos do mundo, como potência que são. Ele diz que está tudo bem e isso me deixa mais tranqüila, mas para não pensar na guerra não quero nem ver o noticiário e pergunto aos outros o que está acontecendo”, explica a médica, ressaltando que por diversas vezes já perguntou se o filho não deseja voltar.
“Sempre pergunto se ele quer voltar, se está com medo, mas esse era o seu sonho e ele procura reforçar que está tudo bem e que vai continuar lá”, completa Socorro Rodrigues.
E-mail de família americana reforça os cuidados com os filhos durante a guerra
A comerciante Tereza Glícia Queiroz, mãe de Maria Luíza Queiroz, 17 anos, se diz constantemente preocupada com a situação da guerra e também já pediu para a filha voltar pra casa. Como Maria Luíza só retorna em julho, o contato se dá todos os dias e as informações são sempre as mesmas, de que tudo está bem, apesar do reforçado sistema de segurança adotado em escolas, prédios e centro urbano.
Esta semana, Tereza amanheceu com um e-mail especial, escrito em português pela filha.
“No e-mail eles pedem para que Maria Luíza fique. Dizem que está tudo sob controle e que estão reforçando os cuidados. Depois de ler este e-mail, vi que minha filha está realmente segura porque eles a estão guardando com muito amor e isso tem feito com que pense com menos preocupação toda esta situação”, reforça a comerciante.
O e-mail também reflete o momento, a religiosidade, a contradição de muitos americanos que por um lado apóiam e por outro acham injusto o conflito que atingirá uma população tão pobre do mundo.
E-MAIL ENVIADO A TEREZA GLÍCIA QUEIROZ:
“Querida Tereza,
Com todos os acontecimentos do mundo, sei que está preocupada com sua filha. Quero que você saiba que ela está bem aqui conosco.
É claro que a guerra é imprevisível, ninguém gosta de ter guerra, inclusive nós. Porém, temos confiança que os líderes estão tomando as decisões para tentar fazer nosso mundo mais seguro no futuro. Ninguém quer a possibilidade de outro 11 de setembro.
Ao dizer isto, o que é mais importante é que vamos continuar tomando conta da sua filha como nossa própria filha. Aqui em Wiscosin, nós não temos muito medo de acontecer algo, mas é claro que ninguém sabe o que acontecerá. Mas vamos fazer o que podemos. Estamos rezando todos os dias por Maria Luíza, por nossa família, pelos líderes e pela paz no mundo. Fomos à igreja até ontem e Maria Luíza foi também. Acreditamos que a vida está nas mãos de Deus.
Eu sei que a AFS está alerta também e está olhando toda esta situação. Mas também nós vamos continuar tomando conta dela como nossa filha.
Abraços e beijos da família americana,
Kim e David.”
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Mossoró-RN, domingo, 23 de março de 2003