Mossoró-RN, domingo 23 de julho de 2006

Biblioteca Municipal Ney Pontes Duarte

GERALDO MAIA
gmaia@bol.com.br

No dia 15 de julho próximo passado deu-se a inaugura-ção da sede própria  da Biblioteca Ney  Pontes Duarte, cinqüenta e oito anos após a sua criação. Foi uma grande festa para a inaugu-ração de uma grande obra. Eu estive presente ao evento e enquanto assistia as soleni-dades, lembrava-me de um texto que tinha lido de uma mensagem datada de 31 de março de 1949, que  o então prefeito Jerônimo Dix-sept Rosado Maia apresentava à Câmara Municipal de Mosso-ró, dando conta do seu pri-meiro ano de gestão. Com relação ao setor cultural, dizia o prefeito:

"Um compromisso assumido com o povo, foi o de que não descuraríamos do alevantamento cultural dos mossoroenses. A Biblioteca Popular, a Biblioteca Dinâmica, não um mero depósito de livros, seria o meio mais eficiente de atender aos desejos de aprimoramento de cultura, dos que não tinham poder aquisitivo, correspondente ao preço astronômico do livro. E também de despertar tantas outras vocações, para as letras e para as ciências, vocações estioladas à falta do estímulo eficiente. De facilitar os profissionais pobres, ao que não podia comprar livros técnicos o conhecimento que possibilitaria o aperfeiçoamento do seu ofício.

A 5 de abril de 1948, apenas cinco dias depois de empossados, criávamos pelo Decreto número quatro (4), a Biblioteca Pública de Mossoró. E nomeávamos uma Comissão Organizadora. A todos os que têm contribuído, através de um trabalho beneditino, para a Organização da biblioteca, principalmente a José Ferreira da Silva, Francisco de Assis Silva, José Maria Gonçalves Guerra, Hugo Costa Cruz, Rafael Fernandes de Negreiros, João Damasceno da Silva Oliveira, José Romualdo de Souza, Jerônimo Vingt-un Rosado Maia e a professora América Fernandes Rosado Maia, deixamos aqui o nosso agradecimento muito sincero.

Cedido um salão pelo Clube Ipiranga que, em um magnífico gesto, superou antigos compromissos assumidos de tornar pública a sua biblioteca particular, gesto que se traduziu pela doação de todo o seu patrimônio bibliotecário, um acervo superior a trezentos volumes, foram logo iniciados os seus serviços de adatação. Ao mesmo tempo que se iniciava a catalogação dos livros, que iam sendo recebidos por doação. A cada um deles eram dadas quatro catalogações: a do livro - inventário, decimal, ficha por autor e ficha por nome do livro.  Em linhas gerais, seguiram os organizadores as recomendações do Instituto Nacional do Livro, Entidade Oficial a que foi logo filiada a biblioteca, sob o número R.M. 3357. Tem a biblioteca recebido doações valiosas. A todos os brasileiros que nos têm dado o seu apoio, ao êxito desse empreendimento, deixamos aqui o nosso reconhecimento. E dizemos brasileiros e não só mossoroenses porque de todos os quadrantes da Pátria têm nos chegado cooperação decisiva.

Finalmente, a 30 de setembro de 1948, associando a maior data da História de Mossoró, esse grato acontecimento cultural, inauguramos a Biblioteca Pública de Mossoró, com 1.888 obras em 2131 volumes..."

Essa história eu já tinha ouvido do professor Vingt-un Rosado, que depois publicou na sua séria "Minhas Memórias da Batalha da Cultura - Livro I. O que não tem no livro é que a idéia da biblioteca partiu dele, Vingt-un Rosado, um eterno criador de bibliotecas. O mérito maior de Dix-sept Rosado foi cumprir a promessa apenas cinco dias após assumir o mandato.

Voltando minha atenção para o espetáculo cênico que estava sendo apresentado na fachada da nova biblioteca, dei-me conta de que o que estava acontecendo ali era, na realidade, uma grande louvação a memória do professor Vingt-un Rosado. Ele que foi o idealizador, foi também o mais ferrenho trabalhador, juntamente com sua esposa, D. América, da catalogação e arrumação da biblioteca.  E foi com a biblioteca que nasceu a "Batalha da Cultura", batalha essa que teve em Vingt-un seu comandante, um verdadeiro General da cultura do "País de Mossoró".

 

Festa de Santana

Marcos Bezerra
Jornalista - marcos.bezerra@redeintertv.com.br

Acho que o mundo das letras é um espaço democrático. Por isso tomo a liberdade de falar de uma festa que, apesar de parecer dizer respeito apenas aos caicoenses, é bem nossa, dos potiguares. Talvez esteja nessa vontade de receber bem os visitantes, com uma hos-pitalidade que beira o exa-gero, o sucesso do evento. Pergunte a quem já foi, ou vá você mesmo.

Pois é, começou o maior evento sóciorreligioso do Rio Grande do Norte. Foi assim que aprendi, desde menino, nas transmissões da Emissora de Educação Rural e nos sermões de padre Antenor, o eterno pároco de Santana. Talvez, mais que alguns conterrâneos, traga comigo, gravado nas paredes da memória, o quadro vivo que é a confraternização de todos, caicoenses e visitantes, em torno da padroeira.

Criei-me ao lado da Matriz de Santana. É dela a primeira lembrança que tenho de igreja. Tão pequeno que, sentado no banco, balançava as pernas sem tocar no descanso para os pés. E recebia uma bronca por isso. Era pra prestar atenção no que o padre dizia, muito embora não entendesse nada do sermão. Lembro bem da imagem de uma santa que, dedo colado nos lábios, pedia silêncio. Mamãe fazia medo e dizia que era com a gente. A imagem continua lá. Mas não vi, na última visita, o anjinho que balançava a cabeça afirmativamente quando colocávamos uma moeda em sua bandeja. Mamãe tinha que levar mais de uma, para evitar briga entre mim e meu irmão. Só depois a gente descobriu que o anjo também ficava satisfeito com um palito de picolé... Mais um corretivo e promessas de castigo pelo pecado.

A missa dominical só deixava de ser obrigação no período da festa. Nas novenas a igreja estava sempre cheia e Dona Cícera não tinha como segurar dois meninos encapetados, mais interessados nos parques, que eram montados na frente de casa.

A adoração àqueles brinquedos começava ainda na chegada dos caminhões dos parques de diversões. O mais imponente era o Parque Lima, que ocupava o canteiro principal com cavalinhos, roda-gigante e aviões. A montagem era coisa de juntar menino. A gente cercava os trabalhadores, admirados como tudo se encaixava e doidos para ajudar. No calor úmido que fazia o mês de julho os homens tomavam muita água, que buscávamos com presteza. O gesto rendia simpatia e, de vez em quando, uma "corrida" de graça. Em casa, mais bronca, por causa de copos e garrafas sujos de graxa.

Era tempo também de jogar futebol de manivela, chupar rolete de cana, comer cachorro-quente e pipoca e comprar balões de gás que voavam longe ao menor descuido. Tempo de ganhar uma "pareia" de roupa nova, cortada e costurada em casa.

Vi nascer o que é hoje o maior evento da festa, a Feirinha de Santana, quando ela era mesmo uma feirinha. Umas poucas barracas de artesanato e produtos da terra. Minha mãe era tesoureira do Apostolado da Oração e sempre me levava junto para ajudar com as coisas da banca. Depois a feira virou o que é hoje; para mim um exemplo de confraternização que serve a qualquer povo. Tão importante que o feriado religioso da cidade não é o 26 de julho, Dia de Santana, mas a última quinta-feira da festa. E quinta-feira tem mais uma. Pena o trabalho me impedir de participar; tomar uma cerveja na sombra das tamarineiras da praça e me deliciar com as comidas típicas do sertão.

Depois vieram os passeios na praça; as festas; os namoros. O objetivo declarado da turma de adolescentes era namorar as meninas de fora. Ficar com alguém de Natal, ou de outra cidade grande - e elas nos pareciam sempre mais bonitas - rendia bons pontos de popularidade e assuntos para as conversas do início de agosto, quando as ruas e praças em torno da matriz perdiam o burburinho do povo em festa. Estranho que, depois, morando em Natal, arranjava sempre de namorar as moças de Caicó.

Nesse tempo já não ia para a Festa de Santana sozinho; tinha sempre um ou mais amigos para levar para a casa dos pais. E estes não demoravam a se apaixonar pelo clima tipicamente interiorano da cidade. Depois de rodar na praça íamos para o clube da moda, de onde só saíamos nos últimos acordes da banda. Do clube direto para as barracas do mercado, tomar caldo de carne e recuperar um pouco das energias perdidas. Às seis da manhã, acompanhar a alvorada, com a banda sinfônica da cidade.

Viramos adultos; constituímos família; fomos cada um para um lado, mas nos reencontramos na festa. - Bom ver você. Bom ver nossos filhos pequenos repetindo o gosto pelos parques, modernos e impessoais - já não são chamados pelo nome. A filha de 14 anos agora é a menina bonita de Natal que os garotos de Caicó querem namorar. Tempo que corre; vida que segue.

Interessante que nenhum dos meus quatro filhos nasceu em Caicó. São duas meninas natalenses e dois meninos mossoroenses. Acho que o destino ficou me devendo essa. Já prestou atenção numa galinha choca cuidando de seus pintinhos? No aperreio quando um deles se desgarra do resto do grupo? Pois sou assim, quase uma galinha choca a fazer meus pintinhos voltarem ao bando; no caso, às origens caicoenses.

Este ano não vai ter parque na frente de casa. A cidade ganhou um espaço exclusivo para a festa - a Ilha de Santana. Vou lá conhecer. Volto a Caicó, para passar debaixo do Arco do Triunfo, rezar um terço na Matriz de Santana e acompanhar a procissão. A fé na Avó de Jesus Cristo se renova ano após ano. "Salve Santana Gloriosa, nosso amparo e nossa luz..." A letra do hino trago decorada; é parte de mim; devoto de Santana. Orgulho-me desta condição que, de tão presente nos municípios do sertão nordestino, ganhou música impecável do Quinteto Violado. "Todo ano tem, uma festa famosa na região. É a Festa de Santana, Padroeira do Sertão...".

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