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Biblioteca
Municipal Ney Pontes Duarte
GERALDO MAIA gmaia@bol.com.br
No dia 15 de julho próximo passado
deu-se a inaugura-ção da sede própria da Biblioteca
Ney Pontes Duarte, cinqüenta e oito anos após
a sua criação. Foi uma grande festa para a inaugu-ração
de uma grande obra. Eu estive presente ao evento e enquanto
assistia as soleni-dades, lembrava-me de um texto que
tinha lido de uma mensagem datada de 31 de março de
1949, que o então prefeito Jerônimo Dix-sept Rosado
Maia apresentava à Câmara Municipal de Mosso-ró, dando
conta do seu pri-meiro ano de gestão. Com relação ao
setor cultural, dizia o prefeito:
"Um compromisso assumido com
o povo, foi o de que não descuraríamos do alevantamento
cultural dos mossoroenses. A Biblioteca Popular, a Biblioteca
Dinâmica, não um mero depósito de livros, seria o meio
mais eficiente de atender aos desejos de aprimoramento
de cultura, dos que não tinham poder aquisitivo, correspondente
ao preço astronômico do livro. E também de despertar
tantas outras vocações, para as letras e para as ciências,
vocações estioladas à falta do estímulo eficiente. De
facilitar os profissionais pobres, ao que não podia
comprar livros técnicos o conhecimento que possibilitaria
o aperfeiçoamento do seu ofício.
A 5 de abril de 1948, apenas cinco
dias depois de empossados, criávamos pelo Decreto número
quatro (4), a Biblioteca Pública de Mossoró. E nomeávamos
uma Comissão Organizadora. A todos os que têm contribuído,
através de um trabalho beneditino, para a Organização
da biblioteca, principalmente a José Ferreira da Silva,
Francisco de Assis Silva, José Maria Gonçalves Guerra,
Hugo Costa Cruz, Rafael Fernandes de Negreiros, João
Damasceno da Silva Oliveira, José Romualdo de Souza,
Jerônimo Vingt-un Rosado Maia e a professora América
Fernandes Rosado Maia, deixamos aqui o nosso agradecimento
muito sincero.
Cedido um salão pelo Clube Ipiranga
que, em um magnífico gesto, superou antigos compromissos
assumidos de tornar pública a sua biblioteca particular,
gesto que se traduziu pela doação de todo o seu patrimônio
bibliotecário, um acervo superior a trezentos volumes,
foram logo iniciados os seus serviços de adatação. Ao
mesmo tempo que se iniciava a catalogação dos livros,
que iam sendo recebidos por doação. A cada um deles
eram dadas quatro catalogações: a do livro - inventário,
decimal, ficha por autor e ficha por nome do livro.
Em linhas gerais, seguiram os organizadores as
recomendações do Instituto Nacional do Livro, Entidade
Oficial a que foi logo filiada a biblioteca, sob o número
R.M. 3357. Tem a biblioteca recebido doações valiosas.
A todos os brasileiros que nos têm dado o seu apoio,
ao êxito desse empreendimento, deixamos aqui o nosso
reconhecimento. E dizemos brasileiros e não só mossoroenses
porque de todos os quadrantes da Pátria têm nos chegado
cooperação decisiva.
Finalmente, a 30 de setembro de 1948,
associando a maior data da História de Mossoró, esse
grato acontecimento cultural, inauguramos a Biblioteca
Pública de Mossoró, com 1.888 obras em 2131 volumes..."
Essa história eu já tinha ouvido do
professor Vingt-un Rosado, que depois publicou na sua
séria "Minhas Memórias da Batalha da Cultura -
Livro I. O que não tem no livro é que a idéia da biblioteca
partiu dele, Vingt-un Rosado, um eterno criador de bibliotecas.
O mérito maior de Dix-sept Rosado foi cumprir a promessa
apenas cinco dias após assumir o mandato.
Voltando minha atenção para o espetáculo
cênico que estava sendo apresentado na fachada da nova
biblioteca, dei-me conta de que o que estava acontecendo
ali era, na realidade, uma grande louvação a memória
do professor Vingt-un Rosado. Ele que foi o idealizador,
foi também o mais ferrenho trabalhador, juntamente com
sua esposa, D. América, da catalogação e arrumação da
biblioteca. E foi com a biblioteca que nasceu
a "Batalha da Cultura", batalha essa que teve
em Vingt-un seu comandante, um verdadeiro General da
cultura do "País de Mossoró".
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Festa de Santana
Marcos Bezerra Jornalista
- marcos.bezerra@redeintertv.com.br
Acho que o mundo das letras é um espaço
democrático. Por isso tomo a liberdade de falar de uma
festa que, apesar de parecer dizer respeito apenas aos
caicoenses, é bem nossa, dos potiguares. Talvez esteja
nessa vontade de receber bem os visitantes, com uma
hos-pitalidade que beira o exa-gero, o sucesso do evento.
Pergunte a quem já foi, ou vá você mesmo.
Pois é, começou o maior evento sóciorreligioso
do Rio Grande do Norte. Foi assim que aprendi, desde
menino, nas transmissões da Emissora de Educação Rural
e nos sermões de padre Antenor, o eterno pároco de Santana.
Talvez, mais que alguns conterrâneos, traga comigo,
gravado nas paredes da memória, o quadro vivo que é
a confraternização de todos, caicoenses e visitantes,
em torno da padroeira.
Criei-me ao lado da Matriz de Santana.
É dela a primeira lembrança que tenho de igreja. Tão
pequeno que, sentado no banco, balançava as pernas sem
tocar no descanso para os pés. E recebia uma bronca
por isso. Era pra prestar atenção no que o padre dizia,
muito embora não entendesse nada do sermão. Lembro bem
da imagem de uma santa que, dedo colado nos lábios,
pedia silêncio. Mamãe fazia medo e dizia que era com
a gente. A imagem continua lá. Mas não vi, na última
visita, o anjinho que balançava a cabeça afirmativamente
quando colocávamos uma moeda em sua bandeja. Mamãe tinha
que levar mais de uma, para evitar briga entre mim e
meu irmão. Só depois a gente descobriu que o anjo também
ficava satisfeito com um palito de picolé... Mais um
corretivo e promessas de castigo pelo pecado.
A missa dominical só deixava de ser
obrigação no período da festa. Nas novenas a igreja
estava sempre cheia e Dona Cícera não tinha como segurar
dois meninos encapetados, mais interessados nos parques,
que eram montados na frente de casa.
A adoração àqueles brinquedos começava
ainda na chegada dos caminhões dos parques de diversões.
O mais imponente era o Parque Lima, que ocupava o canteiro
principal com cavalinhos, roda-gigante e aviões. A montagem
era coisa de juntar menino. A gente cercava os trabalhadores,
admirados como tudo se encaixava e doidos para ajudar.
No calor úmido que fazia o mês de julho os homens tomavam
muita água, que buscávamos com presteza. O gesto rendia
simpatia e, de vez em quando, uma "corrida"
de graça. Em casa, mais bronca, por causa de copos e
garrafas sujos de graxa.
Era tempo também de jogar futebol
de manivela, chupar rolete de cana, comer cachorro-quente
e pipoca e comprar balões de gás que voavam longe ao
menor descuido. Tempo de ganhar uma "pareia"
de roupa nova, cortada e costurada em casa.
Vi nascer o que é hoje o maior evento
da festa, a Feirinha de Santana, quando ela era mesmo
uma feirinha. Umas poucas barracas de artesanato e produtos
da terra. Minha mãe era tesoureira do Apostolado da
Oração e sempre me levava junto para ajudar com as coisas
da banca. Depois a feira virou o que é hoje; para mim
um exemplo de confraternização que serve a qualquer
povo. Tão importante que o feriado religioso da cidade
não é o 26 de julho, Dia de Santana, mas a última quinta-feira
da festa. E quinta-feira tem mais uma. Pena o trabalho
me impedir de participar; tomar uma cerveja na sombra
das tamarineiras da praça e me deliciar com as comidas
típicas do sertão.
Depois vieram os passeios na praça;
as festas; os namoros. O objetivo declarado da turma
de adolescentes era namorar as meninas de fora. Ficar
com alguém de Natal, ou de outra cidade grande - e elas
nos pareciam sempre mais bonitas - rendia bons pontos
de popularidade e assuntos para as conversas do início
de agosto, quando as ruas e praças em torno da matriz
perdiam o burburinho do povo em festa. Estranho que,
depois, morando em Natal, arranjava sempre de namorar
as moças de Caicó.
Nesse tempo já não ia para a Festa
de Santana sozinho; tinha sempre um ou mais amigos para
levar para a casa dos pais. E estes não demoravam a
se apaixonar pelo clima tipicamente interiorano da cidade.
Depois de rodar na praça íamos para o clube da moda,
de onde só saíamos nos últimos acordes da banda. Do
clube direto para as barracas do mercado, tomar caldo
de carne e recuperar um pouco das energias perdidas.
Às seis da manhã, acompanhar a alvorada, com a banda
sinfônica da cidade.
Viramos adultos; constituímos família;
fomos cada um para um lado, mas nos reencontramos na
festa. - Bom ver você. Bom ver nossos filhos pequenos
repetindo o gosto pelos parques, modernos e impessoais
- já não são chamados pelo nome. A filha de 14 anos
agora é a menina bonita de Natal que os garotos de Caicó
querem namorar. Tempo que corre; vida que segue.
Interessante que nenhum dos meus quatro
filhos nasceu em Caicó. São duas meninas natalenses
e dois meninos mossoroenses. Acho que o destino ficou
me devendo essa. Já prestou atenção numa galinha choca
cuidando de seus pintinhos? No aperreio quando um deles
se desgarra do resto do grupo? Pois sou assim, quase
uma galinha choca a fazer meus pintinhos voltarem ao
bando; no caso, às origens caicoenses.
Este ano não vai ter parque na frente
de casa. A cidade ganhou um espaço exclusivo para a
festa - a Ilha de Santana. Vou lá conhecer. Volto a
Caicó, para passar debaixo do Arco do Triunfo, rezar
um terço na Matriz de Santana e acompanhar a procissão.
A fé na Avó de Jesus Cristo se renova ano após ano.
"Salve Santana Gloriosa, nosso amparo e nossa luz..."
A letra do hino trago decorada; é parte de mim; devoto
de Santana. Orgulho-me desta condição que, de tão presente
nos municípios do sertão nordestino, ganhou música impecável
do Quinteto Violado. "Todo ano tem, uma festa famosa
na região. É a Festa de Santana, Padroeira do Sertão...".
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