Mossoró-RN, domingo 23 de julho de 2006

A palavra de Dorian Jorge Freire

Guerreando da redação

Uma tarde, uma bela tarde, na época eu já era um dos cobras da Última Hora, meio especializado em tarefas mais sérias e melhores, que davam cartaz e exigiam tutano, até já chefiara o grupo e não me saíra mal, uma tarde, uma bela tarde, o contínuo chegou dizendo que Josimar Moreira de Melo, diretor do jornal, queria falar comigo.

- Para já?

- Não, para agora.

Encontrei-o deitado na poltrona, sem sapatos, coçando o dedão do pé. No chão, folhas de papel, lápis de cores diversas, um copão d´água.  E veio a cantada. Disse-me desejar fazer mudanças, reorganizar os quadros, formar uma equipe nova. Não gostava de veteranos para certas tarefas. Preferia os jejunos, gente inexperiente, capaz de ser trabalhada, burilada, sem vedetismo e sem estrelismo. Mas andara me observando e me julgava maduro para o esquema. E ofereceu "a grande chance", a chance de assumir a coluna política do jornal.

Fiquei pregado na cadeira. C´est la gloire! Vi-me, em Mossoró, acicatado pelas perversidades da cidade, sonhando coisas em cadernos comprados na bodega de Saturnino Braga, esquina do Beco do Pau Não Cessa. E agora vinha às minhas mãos o inimaginável. Vi-me, na minha capitalzinha, obrando tarefas menores. E agora, a tarefa superior. Vi-me, naquele mesmo prédio, pedindo emprego, entregue às grandes esperas. E agora, de supetão, o oferecimento. Venha, a casa é sua. Era o que mais poderia querer. O que gente como a gente sonha dormindo e acordado. Mas fiz cu doce. Disse que não me interessaria o posto pelo posto. Melhor: não me interessaria fazer o papel de mocinho e andar de peias nos pés, simplesmente dando o recado.

- Porra, mas quem disse isso?

Claro que eu não seria o dono da casa e poderia meter os pés pelas mãos, determinar diretrizes, fazer e acontecer. Não. Mas estaria livre de injunções. Nada que eles não queiram, mas também nada apenas porque eles não querem. Quando não concordar, silencia, muda de assunto. Mas não assina em cruz.

- Você não tem rabo de palha, queremos que não o adquira. Que saiba resistir às investidas, às cantadas. As cantadas do dinheiro, claro que você chutará longe. Mas há as cantadas da amizade, dos favores, dos acenos, dos empregos oficiais. Mande tudo para aquele lugar. O que queremos e esperamos é que você diga o que pensa e não se incomode com ninguém. Ninguém, ouviu?

Ouvi. Era tudo o que eu queria e sonhava. E eu saberia desincumbir-me da tarefa. Não me custava coisa alguma ser incorruptível. Aliás, quase todos os colegas o eram na mesma dose. Os ladrões, na casa, em casa como aquela, nunca são os soldados... As boladas não vão para os seus bolsos que coram, que se envergonham, que se acanham.

Comecei a tarefa. Dando-lhe tudo. E me saí, modéstia à parte, muito bem. Em pouco tempo, todos aplaudiam. De anônimo, passei a ser conhecido, admirado, estimado. E também odiado. A casa me dava boa cobertura. As características próprias da tarefa a tornavam agradável, atraente. Nada que cheirasse a velharia, a artigo de fundo, a cagação de regra. Um tratamento coloquial, íntimo, irônico, descontraído. Nada de senhor fulano e doutor sicrano.

- Trate os medalhões com intimidade, pelos seus apelidos, diminutivos.

Fiz. E havia gente que me parava nas ruas, que me escrevia cartas, que me telefonava e telegrafava, para dizer: você é o meu prato de todos os dias, o meu café-da-manhã. Terei sido irritante, irreverente, às vezes rude e até injusto. Mas não descia a insultos, não caluniava, não me envolvia em porcarias. Mesmo assim, para cada amigo que arrumava, arrumava dez inimigos. Gente mais próxima me dizia: cuidado, quem não pode com o pote não pega na rodilha, um dia é da caça e outro do caçador, estão plantando um pé-de-cá-te-espero para você. Sabia. Não me iludia. Mas poderia recusar? Nem poderia, nem gostaria. Esperassem a virada e me fornicassem. Enquanto isso não acontecia, eu daria o meu recado. Porque já tomara o bonde e não poderia mais saltar. Como no circo de cavalinho, como na escada rolante.

A empresa não me criava o mínimo embaraço. Jamais me pediu coisas, jamais exigiu, jamais reclamou. Nunca impediu atacasse alguém ou poupasse alguém. Josimar não era homem de elogios fáceis, nem de broncas fáceis. Se ele calava, se não piava, era que tudo ia bem. Se algum troço não andasse nos trilhos, encontraria jeito de tornar clara a sua posição. Os colegas também não comentavam. Porque entre nós, jornalistas, ninguém comenta o trabalho de ninguém - muito menos as suas vitórias. Quando há fiascos, talvez. Mas os triunfos, deixa para lá.

Um dia, também um belo dia, cheguei possesso ao jornal. Era uma segunda-feira. E tudo começara torto. Ao acordar, notícias de falta de. De dinheiro para isso, de pagamento para aquilo, o tintureiro, a aula particular de Saudade, o sapato de Luis, o aluguel da casa, o presente para o sobrinho. No ônibus, nada foi melhor. O bicho vinha até o eixo. E havia um cobrador cafajeste de atrevido, uma mulher de peitos grandes a apertar nas minhas costas, o bodum de sovacos que já amanheciam suados, sapatos que me chutavam, empurrões, gente de cara fechada, gente de cara aberta. O submundo da periferia pobre, cansada, entregue. Pois bem: ao chegar lá, no jornal, sapequei uma verrina de inaudita violência. Parecia-me abusivo que o decano da profissão, homem de tanta cultura, mais pensador do que comentador, pusesse numa mesma gamela valores tão diferentes. Dissesse que todos éramos farinha do mesmo saco, vinho da mesma pipa. Como se todos aprovassem, de fato, as bandalheiras reais que havia no nosso lado, o empreguismo imoral, o rouba-e-não-faz, a safadeza miúda como a safadeza graúda. Como se já não fosse do domínio público que o nosso lado, como qualquer lado, era dividido entre os ideológicos e os fisiológicos. Entre a gente que pensa, que acredita, que quer melhorar coisas, que se lança com boa fé, e gente que se aproveita, que enriquece, que sacaneia, que amolece.

Fui violento, sim. E respondi que do lado de lá poderia haver - e havia - a mesma sujeira. Ou alguém poderia dizer, de boca limpa, que em cada fulano de lá havia um apóstolo de qualquer coisa? E os interesses pessoais? E os interesses de classe? E os interesses de grupos e clãs?

À noitinha do mesmo dia, que já não era mais um belo dia, começaram os telefonemas anônimos e ameaçadores. "Vamos lhe cortar as mãos". "Vamos lhe cortar os culhões". "Cafajeste comunista". E foram dias de ameaças, de desaforos, de ofensas que passaram a alcançar não só a mim, mas também aos meus familiares. Não me surpreendeu, é claro. Quem tinha olhos já via que, há muito tempo, fôra iniciada uma radicalização de posições políticas e ideológicas. Saía-se do campo do debate para a guerra suja. A reação se mobilizava. Arregimentava-se. Mexia-se à luz do dia e não mais à luz baça das boates e de seus gabinetes. Desde a renúncia de Jânio, deixara a sua falsa apatia e metera mãos à obra. Aliás, antes mesmo da renúncia de Jânio - desde os primeiros dias de seu governo, quando a UDN começou a verificar haver contribuído para levar a Brasília alguém que não seguiria o seu riscado, alguém de idéias - boas e más - próprias que queria impor as suas idéias a qualquer preço, mesmo ao preço da violência. A condecoração de Guevara foi a gota d´água. Mas mais importante foi o desentendimento com o embaixador de Washington. E mais importante, ainda, uma série de medidas populares, desvinculadas das jogadas da "eterna vigilância". A raiva já estava estabelecida e a decepção já se tornara ostensiva. Nas boates, nas redações de jornais, nos quartéis, nas salas de reuniões de federações e empresas, a conspiração começara e o diálogo estava encerrado. A turma que até então ouvia tudo caladinha, acanhadíssima de ser quadrada, perdeu a inibição e pôs as manguinhas de fora.

Aliás, sobre isso eu já andara conversando com Josimar. Ele me contara que um grupo de homens de empresas, de negócios muito sólidos, de relações muito numerosas, preparava coisas. Uma entidade, com o objetivo - de fachada - de estudar os problemas nacionais, conspirava abertamente. E tudo os protegia. A legislação, a maioria parlamentar, a hierarquia das igrejas, o próprio governo. O presidente podia brincar de mocinho nas horas vagas, mas na realidade era um com eles e nisso estava o âmago da contradição principal. Não tinha em mãos vara longa de chuçar onça.

Era aquele, pois, o pessoal dos telefonemas anônimos e ameaçadores. Contei a Josimar o que estava acontecendo comigo. Preocupou-se. Sabia mais do que dizia e achava que não seria engraçado, de forma alguma, pagar para ver. Mesmo porque, dias antes, haviam jogado uma bomba no jornal.  Mandou-me ao secretário de Segurança, um ex-promotor público que em nada lembrava o policial clássico. Disse-lhe os fatos, procurando minimizá-los, mortinho de acanhamento. Transformou a conversa em queixa registrada, permitiu a mim posse de arma e destacou uma rádio-patrulha para guardar minha casa e um policial para me acompanhar. Ridículo dos ridículos. Eu andava de revólver fazendo calo na cintura. E de guarda-costas. Não dava um peido sem o testemunho do homem onipresente, um rapaz simpático, pai de família, gente afável. Acompanhava-me ao restaurante, ficava de olho quando eu trabalhava, ia me buscar em casa e, às horas mortas, me levava de retorno. A rádio-patrulha fez sucesso na rua e, principalmente, entre a criançada. Passei a ser olhado como um cara importante. Mas achava tudo aquilo deplorável, sofrendo principalmente por causa de meus pais, doentes, que passaram a temer pela minha segurança.

Voltei a conversar com Josimar. Era preciso saber o que o jornal pensava, se a coisa iria tomar caminhos diferentes. "Largue o pau!", disse-me ele, garantindo-me que contaria com o seu apoio e o apoio do jornal. Larguei. Alguns dias depois, ganhei o bilhete. O bilhete da rua.

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