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A
palavra de Dorian Jorge Freire
Guerreando da redação
Uma tarde, uma bela tarde, na época
eu já era um dos cobras da Última Hora, meio especializado
em tarefas mais sérias e melhores, que davam cartaz
e exigiam tutano, até já chefiara o grupo e não me saíra
mal, uma tarde, uma bela tarde, o contínuo chegou dizendo
que Josimar Moreira de Melo, diretor do jornal, queria
falar comigo.
- Para já?
- Não, para agora.
Encontrei-o deitado na poltrona, sem
sapatos, coçando o dedão do pé. No chão, folhas de papel,
lápis de cores diversas, um copão d´água. E veio
a cantada. Disse-me desejar fazer mudanças, reorganizar
os quadros, formar uma equipe nova. Não gostava de veteranos
para certas tarefas. Preferia os jejunos, gente inexperiente,
capaz de ser trabalhada, burilada, sem vedetismo e sem
estrelismo. Mas andara me observando e me julgava maduro
para o esquema. E ofereceu "a grande chance",
a chance de assumir a coluna política do jornal.
Fiquei pregado na cadeira. C´est la
gloire! Vi-me, em Mossoró, acicatado pelas perversidades
da cidade, sonhando coisas em cadernos comprados na
bodega de Saturnino Braga, esquina do Beco do Pau Não
Cessa. E agora vinha às minhas mãos o inimaginável.
Vi-me, na minha capitalzinha, obrando tarefas menores.
E agora, a tarefa superior. Vi-me, naquele mesmo prédio,
pedindo emprego, entregue às grandes esperas. E agora,
de supetão, o oferecimento. Venha, a casa é sua. Era
o que mais poderia querer. O que gente como a gente
sonha dormindo e acordado. Mas fiz cu doce. Disse que
não me interessaria o posto pelo posto. Melhor: não
me interessaria fazer o papel de mocinho e andar de
peias nos pés, simplesmente dando o recado.
- Porra, mas quem disse isso?
Claro que eu não seria o dono da casa
e poderia meter os pés pelas mãos, determinar diretrizes,
fazer e acontecer. Não. Mas estaria livre de injunções.
Nada que eles não queiram, mas também nada apenas porque
eles não querem. Quando não concordar, silencia, muda
de assunto. Mas não assina em cruz.
- Você não tem rabo de palha, queremos
que não o adquira. Que saiba resistir às investidas,
às cantadas. As cantadas do dinheiro, claro que você
chutará longe. Mas há as cantadas da amizade, dos favores,
dos acenos, dos empregos oficiais. Mande tudo para aquele
lugar. O que queremos e esperamos é que você diga o
que pensa e não se incomode com ninguém. Ninguém, ouviu?
Ouvi. Era tudo o que eu queria e sonhava.
E eu saberia desincumbir-me da tarefa. Não me custava
coisa alguma ser incorruptível. Aliás, quase todos os
colegas o eram na mesma dose. Os ladrões, na casa, em
casa como aquela, nunca são os soldados... As boladas
não vão para os seus bolsos que coram, que se envergonham,
que se acanham.
Comecei a tarefa. Dando-lhe tudo.
E me saí, modéstia à parte, muito bem. Em pouco tempo,
todos aplaudiam. De anônimo, passei a ser conhecido,
admirado, estimado. E também odiado. A casa me dava
boa cobertura. As características próprias da tarefa
a tornavam agradável, atraente. Nada que cheirasse a
velharia, a artigo de fundo, a cagação de regra. Um
tratamento coloquial, íntimo, irônico, descontraído.
Nada de senhor fulano e doutor sicrano.
- Trate os medalhões com intimidade,
pelos seus apelidos, diminutivos.
Fiz. E havia gente que me parava nas
ruas, que me escrevia cartas, que me telefonava e telegrafava,
para dizer: você é o meu prato de todos os dias, o meu
café-da-manhã. Terei sido irritante, irreverente, às
vezes rude e até injusto. Mas não descia a insultos,
não caluniava, não me envolvia em porcarias. Mesmo assim,
para cada amigo que arrumava, arrumava dez inimigos.
Gente mais próxima me dizia: cuidado, quem não pode
com o pote não pega na rodilha, um dia é da caça e outro
do caçador, estão plantando um pé-de-cá-te-espero para
você. Sabia. Não me iludia. Mas poderia recusar? Nem
poderia, nem gostaria. Esperassem a virada e me fornicassem.
Enquanto isso não acontecia, eu daria o meu recado.
Porque já tomara o bonde e não poderia mais saltar.
Como no circo de cavalinho, como na escada rolante.
A empresa não me criava o mínimo embaraço.
Jamais me pediu coisas, jamais exigiu, jamais reclamou.
Nunca impediu atacasse alguém ou poupasse alguém. Josimar
não era homem de elogios fáceis, nem de broncas fáceis.
Se ele calava, se não piava, era que tudo ia bem. Se
algum troço não andasse nos trilhos, encontraria jeito
de tornar clara a sua posição. Os colegas também não
comentavam. Porque entre nós, jornalistas, ninguém comenta
o trabalho de ninguém - muito menos as suas vitórias.
Quando há fiascos, talvez. Mas os triunfos, deixa para
lá.
Um dia, também um belo dia, cheguei
possesso ao jornal. Era uma segunda-feira. E tudo começara
torto. Ao acordar, notícias de falta de. De dinheiro
para isso, de pagamento para aquilo, o tintureiro, a
aula particular de Saudade, o sapato de Luis, o aluguel
da casa, o presente para o sobrinho. No ônibus, nada
foi melhor. O bicho vinha até o eixo. E havia um cobrador
cafajeste de atrevido, uma mulher de peitos grandes
a apertar nas minhas costas, o bodum de sovacos que
já amanheciam suados, sapatos que me chutavam, empurrões,
gente de cara fechada, gente de cara aberta. O submundo
da periferia pobre, cansada, entregue. Pois bem: ao
chegar lá, no jornal, sapequei uma verrina de inaudita
violência. Parecia-me abusivo que o decano da profissão,
homem de tanta cultura, mais pensador do que comentador,
pusesse numa mesma gamela valores tão diferentes. Dissesse
que todos éramos farinha do mesmo saco, vinho da mesma
pipa. Como se todos aprovassem, de fato, as bandalheiras
reais que havia no nosso lado, o empreguismo imoral,
o rouba-e-não-faz, a safadeza miúda como a safadeza
graúda. Como se já não fosse do domínio público que
o nosso lado, como qualquer lado, era dividido entre
os ideológicos e os fisiológicos. Entre a gente que
pensa, que acredita, que quer melhorar coisas, que se
lança com boa fé, e gente que se aproveita, que enriquece,
que sacaneia, que amolece.
Fui violento, sim. E respondi que
do lado de lá poderia haver - e havia - a mesma sujeira.
Ou alguém poderia dizer, de boca limpa, que em cada
fulano de lá havia um apóstolo de qualquer coisa? E
os interesses pessoais? E os interesses de classe? E
os interesses de grupos e clãs?
À noitinha do mesmo dia, que já não
era mais um belo dia, começaram os telefonemas anônimos
e ameaçadores. "Vamos lhe cortar as mãos".
"Vamos lhe cortar os culhões". "Cafajeste
comunista". E foram dias de ameaças, de desaforos,
de ofensas que passaram a alcançar não só a mim, mas
também aos meus familiares. Não me surpreendeu, é claro.
Quem tinha olhos já via que, há muito tempo, fôra iniciada
uma radicalização de posições políticas e ideológicas.
Saía-se do campo do debate para a guerra suja. A reação
se mobilizava. Arregimentava-se. Mexia-se à luz do dia
e não mais à luz baça das boates e de seus gabinetes.
Desde a renúncia de Jânio, deixara a sua falsa apatia
e metera mãos à obra. Aliás, antes mesmo da renúncia
de Jânio - desde os primeiros dias de seu governo, quando
a UDN começou a verificar haver contribuído para levar
a Brasília alguém que não seguiria o seu riscado, alguém
de idéias - boas e más - próprias que queria impor as
suas idéias a qualquer preço, mesmo ao preço da violência.
A condecoração de Guevara foi a gota d´água. Mas mais
importante foi o desentendimento com o embaixador de
Washington. E mais importante, ainda, uma série de medidas
populares, desvinculadas das jogadas da "eterna
vigilância". A raiva já estava estabelecida e a
decepção já se tornara ostensiva. Nas boates, nas redações
de jornais, nos quartéis, nas salas de reuniões de federações
e empresas, a conspiração começara e o diálogo estava
encerrado. A turma que até então ouvia tudo caladinha,
acanhadíssima de ser quadrada, perdeu a inibição e pôs
as manguinhas de fora.
Aliás, sobre isso eu já andara conversando
com Josimar. Ele me contara que um grupo de homens de
empresas, de negócios muito sólidos, de relações muito
numerosas, preparava coisas. Uma entidade, com o objetivo
- de fachada - de estudar os problemas nacionais, conspirava
abertamente. E tudo os protegia. A legislação, a maioria
parlamentar, a hierarquia das igrejas, o próprio governo.
O presidente podia brincar de mocinho nas horas vagas,
mas na realidade era um com eles e nisso estava o âmago
da contradição principal. Não tinha em mãos vara longa
de chuçar onça.
Era aquele, pois, o pessoal dos telefonemas
anônimos e ameaçadores. Contei a Josimar o que estava
acontecendo comigo. Preocupou-se. Sabia mais do que
dizia e achava que não seria engraçado, de forma alguma,
pagar para ver. Mesmo porque, dias antes, haviam jogado
uma bomba no jornal. Mandou-me ao secretário de
Segurança, um ex-promotor público que em nada lembrava
o policial clássico. Disse-lhe os fatos, procurando
minimizá-los, mortinho de acanhamento. Transformou a
conversa em queixa registrada, permitiu a mim posse
de arma e destacou uma rádio-patrulha para guardar minha
casa e um policial para me acompanhar. Ridículo dos
ridículos. Eu andava de revólver fazendo calo na cintura.
E de guarda-costas. Não dava um peido sem o testemunho
do homem onipresente, um rapaz simpático, pai de família,
gente afável. Acompanhava-me ao restaurante, ficava
de olho quando eu trabalhava, ia me buscar em casa e,
às horas mortas, me levava de retorno. A rádio-patrulha
fez sucesso na rua e, principalmente, entre a criançada.
Passei a ser olhado como um cara importante. Mas achava
tudo aquilo deplorável, sofrendo principalmente por
causa de meus pais, doentes, que passaram a temer pela
minha segurança.
Voltei a conversar com Josimar. Era
preciso saber o que o jornal pensava, se a coisa iria
tomar caminhos diferentes. "Largue o pau!",
disse-me ele, garantindo-me que contaria com o seu apoio
e o apoio do jornal. Larguei. Alguns dias depois, ganhei
o bilhete. O bilhete da rua.
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