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Com
ódio e com medo
CARLOS
ALBERTO FERNANDES
A nova
estratégia de Segurança Nacional do presidente
Bush deixa a todos nós confusos e perplexos,
diante de suas reais intenções belicistas
com relação ao mundo. Primeiro, os EUA não
permitirão que outros países desafiem sua
superioridade militar; segundo, eles incorporaram
uma paranóia sobre as intenções do mundo
com relação à América do Norte, na medida
em que acham que devem atacar primeiro,
impedindo qualquer capacidade de reação
de seus reais ou virtuais inimigos. Essa
perspectiva já é realidade, pois os países
e organismos internacionais são pressionados
a ratificar as decisões político-militares
dos americanos a respeito do Iraque, achem
essas decisões corretas ou não. Sem sombra
de dúvidas, a interpretação do comportamento
de um país como ameaça à superioridade militar
americana é inteiramente unilateral e inspirada,
veladamente, no ódio e no medo. Articulistas
internacionais acham que, se os países e
organismos internacionais não ratificarem
a ação de agressão (para os EUA, de defesa),
perderão dois atributos fundamentais da
convivência e da sobrevivência burocrática
das nações: a “significância” e o “financiamento”.
A significância,
tudo bem: fere, mas não mata. O financiamento,
esse sim: fere, dói e mata (como diz o adágio
popular, ele mexe com a parte mais sensível
do corpo...). Obviamente que esse comportamento
do poder maior norte-americano tende a contaminar
todo o tecido social, tornando seus danosos
efeitos muito maiores do que aqueles resultantes
das armas biológicas. O ar tornar-se-á respirável
não para manter a vida, mas para preservar
a morte. Com efeito, uma outra guerra se
dá no campo econômico. Daí não será exagero
inferir que esse comportamento bélico alimentará
os mercados e grande parte das ações na
área econômica. E, uma vez que a economia
é o início e o fim de tudo (já que a vida
é uma questão econômica, como diria Marx),
obviamente ninguém pode duvidar que a indústria
bélica – responsável pelo poderio militar
e econômico – se constituirá no instrumento
mais eficaz para a satisfação de todos os
ódios e todos os medos. Por incrível que
pareça, essa é mais ou menos a posição de
Horst Köhler, diretor-gerente do FMI, quando
afirma que uma guerra rápida dos EUA contra
o Iraque pode ter efeitos positivos para
a economia global. Nesse ato falho, vê-se
quanta barbaridade pode-se afirmar em nome
da virtual estabilidade do mercado financeiro.
Quanta
aleivosia. Por que não deixar que o mercado
por si mesmo seja provedor da felicidade
humana, como defendia Adam Smith? Essa é
que seria a real doutrina do liberalismo
econômico. A base do capitalismo. E não
a doutrina neofascista ou, tirando por menos,
a análise passionalista do sr. Köhler. Se
é verdade que um confronto com desfecho
rápido deixaria a situação mais clara para
os mercados, uma alternativa para o mercado
emergente do Brasil seria estancar abruptamente
o processo democrático, pois assim tudo
ficaria claro. A ética espúria que
inspira os especuladores internacionais
seria preservada. A “indefinição” que desestabiliza
estaria extinta. A manutenção dos lucros,
sem a presença do “trabalho”, estaria assegurada.
Mas, independentemente dos que cultuam fervorosamente
o poder dos mercados e dos que monitoram
complacentemente a sua temperatura e humor,
a sociedade brasileira vai caminhar nessa
luta “sem ódio e sem medo”. Jamais ela vai
concordar com a amoralidade de um mercado
que aposta em tudo (até na guerra) para
minimizar as suas incertezas.
Com relação
à doutrina Bush, não adianta a invenção
de minimizações semânticas. Os ensinamentos
de Maquiavel voltam escancaradamente à cena
política americana – os fins justificam
os meios. Os EUA são um país ferido. Ferido
na sua segurança, o governo opta pela intolerância.
Ferido por um inimigo invisível, o império
está desassossegado. Nessas circunstâncias,
a inquietação e o oportunismo se estabelecem,
e todos os pretextos são caminhos para o
cultivo do ódio e a instalação do medo.
Carlos
Alberto Fernandes é economista, professor
da UFRPE, diretor geral da Revista Continente
Multicultural.
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