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Em busca da verdade


por Fernando Miragaya
TV Press

Quando fez "workshop" para a novela "A Padroeira", Maria Ribeiro teve uma experiência desagradável. Em um exercício para ambientação à época de 1717, na qual se passa a novela, a atriz teve de comer com as mãos. Ela reconhece que se alimentar sem os tradicionais garfo e faca nunca passou pela sua cabeça. No entanto, esta bela morena carioca, que interpreta a Rosa Maria na trama das seis da Globo, não se fez de rogada. Pegou os alimentos com a mão e os comeu. Tudo em nome de uma prerrogativa da carreira de ator, que é quase uma obsessão para Maria Ribeiro: passar veracidade ao público. "Foi horrível. Sabe aquele filme do Jack Nicholson, onde ele tem fixação por higiene ao comer e limpa os pratos e os talheres no restaurante? Sou assim. Mas tive de fazer e ser verdadeira", enaltece a atriz, referindo ao filme "Melhor é Impossível", de James L. Brooks.

Mas não foi só comer com as mãos que Maria Ribeiro teve de aprender. Durante o workshop, a atriz e o restante do elenco tiveram palestras com historiadores sobre o século XVIII, além de aulas de corpo, prosódia e, como ela própria define, de "desetiqueta", onde comer com as mãos era um dos exercícios. Ao mesmo tempo, assistiu a filmes que retratam o período ou que tinham personagens com o perfil de Rosa Maria, que ela considera uma mulher meio selvagem que não aceita a submissão das mulheres da época. A atriz viu "O Piano", de Jane Campion, onde Holly Hunter não se curva aos homens, e "Nell", de Michael Apted, para pegar o lado selvagem da protagonista vivida por Jodie Foster. "Se faço uma garota atual, sei o universo em que ela vive. Mas nesta novela é preciso estudar para saber como eram as circunstâncias da época", explica.

Outra característica da personagem que chamou a atenção de Maria Ribeiro foi a religiosidade. Rosa é uma das mais fervorosas devotas de Nossa Senhora Aparecida na novela. "A questão da fé é fundamental na época. A população não tinha explicação para as doenças e catástrofes e tudo era interpretado como castigo de Deus", ressalta. Curiosamente, Maria Ribeiro não pode ser classificada como uma pessoa religiosa. Apesar de batizada na Igreja Católica, ela não segue nenhuma doutrina específica. "Faço força para acreditar. Rezo, principalmente no avião, pois tenho medo", admite a atriz, lembrando do poeta João Cabral de Mello Neto. "O João Cabral era ateu, mas, às vésperas de morrer, teve medo do Diabo", exemplifica.

Maria Ribeiro pode não ter rezado para atuar em "A Padroeira", mas o papel marca o retorno da atriz às novelas, um trabalho que ela há muito tempo vinha perseguindo. O último - e único - trabalho do gênero da atriz foi "História de Amor", em 1996. Desde então, Maria fez apenas algumas participações em episódios do "Você Decide", do extinto seriado "Mulher" e em "Malhação". Mas engana-se quem pensa que a atriz estava evitando fazer tevê. Pelo contrário. Maria fez diversos testes para novelas como "Por Amor", "Porto dos Milagres" e "O Cravo e A Rosa". "Estava com saudades de fazer novela", admite.

Nesse hiato de cinco anos, Maria Ribeiro se dedicou à arte que é a base de sua carreira: o teatro. Encenou seis peças e fez um filme. "Trabalhei muito nesse período. No Brasil, parece que se você não faz novela não é ator", reclama. Embora o discurso queira valorizar o teatro, Maria Ribeiro não é daquelas atrizes que tratam a tevê como subcultura. "Acho a tevê maravilhosa. Não sou do tipo que diz ‘estou fazendo tevê mas gosto mais de teatro’. Acho nojento quem faz tevê achando que é um veículo menor", alfineta.

No entanto, Maria Ribeiro reconhece que estava desacostumada com o ritmo frenético da televisão. Mesmo assim, prefere não recorrer a desculpas ou justificativas comuns do meio artístico. Apesar de se tratar de dois veículos diferentes, ela diz que a arte de interpretar é a mesma. E, mais uma vez, recorre à função básica do ator que é passar veracidade no que faz. "Esse negócio de ‘interpretação para tevê’, ‘interpretação para teatro’, é bobagem. Tem sempre de buscar a verdade do personagem", teoriza.

 

Postura reservada

Apesar de jovem, Maria Ribeiro destoa um pouco das atrizes de sua geração. Raramente é flagrada em festas e badalações. Ela também é figurinha rara em revistas que "devassam" a vida de artistas. É difícil encontrar Maria Ribeiro mostrando sua casa, falando do seu cotidiano ou de intimidades de sua vida pessoal ou sobre seu casamento com o também ator Paulo Betti. Tudo bem que a atriz fez bem poucas novelas - a atual das seis é seu segundo papel no gênero - e que o assédio sobre ela é bem menor que em atores mais assíduos da tevê. Mas ser reservada é uma das principais características da atriz. "Não faço questão de fazer ‘trocentas’ revistas. Tenho preocupação de fazer com que as pessoas acreditem no meu trabalho", exagera.

Essa preocupação de Maria Ribeiro aumenta pelo fato de estar fazendo uma novela de época. Para ela, uma exposição maior na mídia pode comprometer a aceitação e a credibilidade da personagem e do universo da novela perante o público. "Se a pessoa sabe o que eu como de manhã, o que eu faço à tarde, fica difícil. Todo mundo já sabe o que penso, como vão acreditar que eu sou a Rosa Maria e que vivo no século XVIII?", pondera a atriz, que também evita qualquer glamourização da carreira de ator. Apesar da evidência em público, para ela é uma profissão como outra qualquer. "Uma hora, você está fazendo novela e todo mundo pedindo autógrafo. Em outra, está estudando e ninguém vem pedir autógrafo. Você não pode acreditar nas duas coisas e pirar achando que é diferente dos outros", acredita.

 

Instantâneas

# Em sua estréia na tevê, na novela "História de Amor", Maria Ribeiro interpretou a Bianca.

# Maria Ribeiro chegou a fazer teste para viver a romântica Bianca em "O Cravo e A Rosa", após Leandra Leal anunciar que não iria mais fazer a personagem. Mas, pouco antes das gravações, Leandra acabou confirmada para o papel.

# Na época da Copa de 1998, Maria Ribeiro fez um comercial para a cerveja Brahma.

# Nos cinco anos afastada das novelas, a atriz fez seis peças dirigidas por Domingos Oliveira: "Confissões de Adolescente", "Cabaré Filosófico", "A Primeira Valsa", "O Inimigo do Povo", "Cabaré Filosófico 2" e "Separações". Maria também encenou "Capitu", dirigida por Marcos Vinícius Faustini.