CLÁUDIO MONTEIRO
 
 ATUALIZAÇÕES ÀS QUINTAS
 


  REFINARIA NO RN NÃO É "BENESSE"

Num país com dimensões continentais como o Brasil, as decisões de Estado deveriam  sempre respeitar essa característica. Deveriam, também, levar em conta a descentralização paulatina do desenvolvimento econômico, o crescimento histórico e a necessidade de eliminar disparidades e desigualdades regionais. Deveriam, mas nem sempre foi ou é assim. Em vários setores e segmentos de nossa economia, entre eles, e em especial, o do craqueamento e refino do petróleo.

 As refinarias de petróleo foram instaladas, ao longo dos anos, da Bahia para baixo. Desde a década de 30, com pequenas indústrias particulares e depois, a partir de 1950, com a inauguração de Mataripe, na Grande Salvador, primeiro empreendimento de porte e primeira refinaria estatal do país. Privilegiavam, à época com razão, os estados do Sul e Sudeste, regiões onde se concentravam as reservas petrolíferas até então conhecidas, onde havia também a maior concentração populacional e onde se localizava, quase que exclusivamente, o parque industrial brasileiro. Assim é que foram construídas, depois, refinarias no Rio de Janeiro; São Paulo; Paraná; Minas Gerais e Rio Grande do Sul.  

Mas os tempos mudaram, o desenvolvimento econômico  -  mesmo que mal planejado e acompanhado de graves mazelas sociais  -  chegou a outras regiões do país; a população delas  cresceu vertiginosamente; significativa parcela de indústrias migrou ou abriu filiais produtoras e, finalmente tão quão importante, substanciais reservas petrolíferas foram descobertas acima do eixo dos tradicionais estados produtores. Tudo isso, entretanto, não foi acompanhado, do que seria mais lógico e justo, também da construção de mais uma ou duas refinarias menores, porém completas, nos estados produtores "de cima" do mapa.  A Petrobras, já então a detentora do monopólio estatal do petróleo, desde 1953, quando foi criada no governo do presidente Getúlio Vargas, optou por expandir e ampliar as refinarias  já existentes, com exceção da construção de uma de pequeno porte no Amazonas.   

Por conta disso, boa parte tanto do petróleo bruto, como dos derivados trafegam, desnecessariamente, pelo país através de navios, dutos ou estradas rodoviárias encarecendo brutalmente o preço final ao consumidor, notadamente a gasolina, o diesel e o GLP, o chamado gás de cozinha, essenciais para a vida e a economia.  

Por tudo isso -  e muito mais  -  já está na hora do Nordeste "de cima" ter sua refinaria de petróleo. Não contemplado por "benesse governamental", mas sim por direito adquirido ao desenvolvimento socioeconômico, ao pleno emprego, ao consumo digno e, sobretudo, estribado na realidade de sua produção. E, neste particular, o Rio Grande do Norte é o candidato mais natural, sem desqualificar os outros estados. Por vários motivos. Primeiro, que o RN é hoje, com cerca de 90/100 mil barris-dia, o segundo maior produtor  -  perdendo apenas para o Rio de Janeiro  -  e o maior produtor de petróleo em terra. Segundo, porque já estão funcionando plantas de produção e refino de gás natural, diesel, e em fase de construção a de querosene de aviação. Na prática, já existe quase 50% de uma refinaria. Faltam apenas complementos estruturais e uma boa planta de refino de gasolina para se ter uma refinaria completa. Seria jogar dinheiro fora começar tudo do zero em outro Estado. Terceiro, só para não me alongar, o Ceará, com todo respeito também um forte candidato, já abriga a única fábrica-refinaria de lubrificantes da Petrobras, a Lubnor.

Uma boa semana para todos  -  o advento da quebra do monopólio não tira da Petrobras a responsabilidade de implantar, sem depender necessariamente da iniciativa privada, a nova refinaria no RN -  próxima quinta eu volto traduzindo a Economia para o seu dia-a-dia!

 

CLÁUDIO MONTEIRO

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Mossoró-RN, quinta-feira, 27 de março de 2003