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Soldador de Histórias
EMERSON LINHARES
Editor-Chefe
A vida é uma verdadeira faculdade, diz a sabedoria popular. É por intermédio de experiências, seja aqui ou alhures, que vamos montando, página a página, os capítulos de nossa história.
Famoso por suas obras de arte, o norte-americano Andy Warhol determinou que um dia cada pessoa terá seus quinze minutos de fama.
Resolvo colocar isso em prática ao conversar com Tibúrcio Freire Rodrigues, que conhecemos por Tiburcinho, rapaz de 48 anos, inteligente e educado, mesmo após ingerir alguns goles seja de cerveja ou da velha caninha.
Foi em diversas conversas no espetinho de seu Anísio, no Santa Delmira, que deu aquele estalo comum aos jornalistas, que em tudo vêem uma matéria, principalmente se ela merece o destaque.
A experiência de vida de Tiburcinho pode não ser a oitava maravilha do mundo. E daí? Só o fato de ter sido jogador de futebol, ter ganhado uma das edições do concurso “A Mais Bela Voz” e ter trabalhador em grandes empresas, como a Usina Siderúrgica da Bahia (USIBA), que lhe sustentava a boemia quando novo, mereceu o meu apreço e para ele esses notórios 15 minutos de uma fama que não ofende, nem o transformará numa pessoa arrogante.
Tiburcinho é da fauna de pessoas que têm algo para contar. É daqueles que não se arrepende do que fez e se mostra feliz.
Nascido aos quatorze de abril de 1955, em Governador Dix-sept Rosado, Tibúrcio Freire Rodrigues veio para Mossoró com nove meses de nascido. Só para ilustrar, na época a cidade era comarca de Mossoró, tendo como prefeito Vingt Rosado.
Morou durante anos no bairro Boa Vista, possivelmente perto do que viria a ser seu primeiro trabalho, em 1969, como empregado da Socel. “Eu era enchedor e pesador de sal”, disse ele.
Com o tempo dividido entre a Socel e as peladas nos campinhos da redondeza (hoje quase em extinção), Tiburcinho – que cursou até o 2° ano do 2° grau – despertou o interesse de Dequinha Gonzaga (para quem não sabe, Dequinha jogou pelo Potiguar, pelo Flamengo do Rio de Janeiro e pela Seleção Brasileira de Futebol de 1956 a 1958).
Tendo o apoio do renomado jogador, Tiburcinho foi tentar a vida em outros Estados, como Bahia e Sergipe (veja matéria). Como o salário de atleta não dava, empregou-se na Usiba, em Salvador. Por lá ficou três anos. Também exerceu várias funções em diversas empresas prestadoras de serviço para a Petrobras. Sua especialidade: solda.
Tiburcinho teve outras experiências. Foi marinheiro por um ano e seis meses, o que lhe facilitou a adaptação imediata em uma plataforma marítima, tão logo deu baixa na Marinha.
Retornou a Mossoró em 1980, onde trabalhou na Montec, Vipetro, Pecos e Fábrica de Cimento, só para citar algumas.
Hoje trabalha como autônomo e montou sua modesta oficina nos fundos de sua residência. É reconhecido pela Casa Arte, evento organizado por arquitetos da cidade, como o melhor soldador do Rio Grande do Norte.
Casado há mais de 20 anos, tem dois filhos e um neto.
Futebol não dava dinheiro
Dequinha Gonzaga foi o responsável pela ida de Tiburcinho para o futebol em outros Estados, após observá-lo em algumas peladas amadoras.
Primeiro veio Sergipe, quando jogou quatro meses pelo Lagartense, equipe da cidade de Lagarto. Isso em 1973.
Já de 74 para 75, Tiburcinho jogou pelo Galícia, time da capital baiana. Chegou a treinar no Vitória, também da Bahia, mas não ficou o suficiente. “Nesse tempo, o futebol não pagava muito bem”, sintetizou, afirmando que perdeu o interesse quando se empregou na Usiba. Foi a sua sentença: futebol nunca mais.
Com um bom dinheiro no bolso, Tiburcinho se considerava um boêmio exemplar. Tinha transporte. Conheceu Caubi Peixoto, que lhe ensinara a como interpretar música. E também Wilson Miranda, cantor e compositor, que lhe incentivou a cantar. “Não era o meu destino”, disse Tiburcinho, antes de cantarolar uma das músicas de Miranda.
Vencedor de A Mais Bela Voz
A música é uma das grandes paixões de Tiburcinho, mas ele mesmo atesta que não tinha talento. Entrou em contato com ela por intermédio de tertúlias.
Entre sério e sorridente na sobriedade, Tiburcinho solta a voz como o “ébrio” Vicente Celestino. “Conceição, eu me lembro muito bem...”.
Os passos trôpegos não tiram a firmeza de seus pensamentos: “Eu não sou ninguém”, repete um dos seus bordões, já conhecido dos vizinhos.
Mas, voltando ao assunto, se Caubi o ensinou a como interpretar música, porém foi com um dos grandes sucessos de Roberto Carlos que Tiburcinho ganhou o título de “A Mais Bela Voz”, organizado pela Rádio Rural, no longínquo 1970.
Lembrou que Túlio Ciarlini, irmão da prefeita Rosalba Ciarlini, também participou do evento. Ficou em segundo com composição própria. “Na época, quem acompanhava eram Os Bárbaros e Os Inflamáveis”, diz, citando alguns integrantes.
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Mossoró-RN, domingo, 27 de abril de 2003