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Entrevista

 APOLÔNIO CARDOSO

APOLÔNIO CARDOSOAo leitor de O Mossoroense neste domingo, apresentamos uma entrevista/conversa que mantivemos com o festejado poeta, violeiro e respeitado advogado paraibano Apolônio Cardoso, um dos mais significativos e importantes nomes da arte poética na região Nordeste, autor de poemas célebres da literatura nacional como ‘Flor do Mocambo’ e ‘Flor do Cascalho’. Após morar em Mossoró por alguns anos, Apolônio Cardoso atualmente reside em sua terra natal, Campina Grande. Casado com uma mossoroense, nesta sua visita ele nos fala de algumas experiências suas como advogado, violeiro, delegado de polícia nas cidades de Fagundes, Juazeirinho e Cacimba de Dentro, interior paraibano, além das amizades em Mossoró e das muitas histórias que guarda na sua memória de poeta boêmio e amante da arte. “Quando eu morrer eu não quero que digam: morreu o doutor Apolônio Cardoso... Quero que digam assim: morreu o poeta Apolônio Cardoso, o autor de ‘Flor do Mocambo’! Só basta isso pra eu estar feliz.” Confira a entrevista.  

Por MARCOS FERREIRA

O MOSSOROENSE — Você é natural da Paraíba, de qual cidade?

APOLÔNIO CARDOSO — Eu sou paraibano de Campina Grande, nascido aos 14 de dezembro de 1938. Lá, entre muitas outras coisas, fui engraxate, menino de recado, ajudante disso, daquilo e todas essas ocupações que um garoto pobre do interior arruma para ganhar um trocado e ajudar no orçamento de casa.

OM — Como foi a sua vinda para Mossoró? Quando aconteceu?

AP —Aqui cheguei em fevereiro de 1960, com 18 anos de idade, sem um centavo de cobre. Saltei às quatro horas da tarde na velha estação ferroviária com uma violinha na mão, uma bolsa com roupas puídas e uma outra bolsa com alguns livros. Trazia o coração repleto de esperanças e os cabelos cheios de poeira. Nesse tempo eu ainda tinha cabelos.

OM — Quais motivos lhe trouxeram a Mossoró na sua juventude?

AP — A necessidade e a vontade de progredir como ser humano, como homem e cidadão. Vim na expectativa de melhores dias e maiores oportunidades de vida, de estudo, de trabalho. E não me decepcionei. Foram muitas as portas que se abriram e as mãos que se estenderam. Tenho muita gratidão com esta cidade.

OM — Aqui chegando, qual foi o ponto de apoio que encontrou?

AP — Fui bater à casa de Elizeu Ventania e João Liberalino. Com pouco tempo, nos apresentamos num bar do bairro Boa Vista. Foi a primeira vez que cantei em Mossoró. Era um dia de sábado. Nessa época, Elizeu e João eram artistas exclusivos da Rádio Difusora de Mossoró.   

OM — Nesse tempo, com apenas 18 anos de idade, você já era um violeiro habituado às rodas de cantoria? Como foi o seu encontro com a viola?

AP — Meu encontro com as rodas de poesia se deu muito cedo. Ainda menino, trabalhando como engraxate, eu ouvia aqueles grandes poetas do sertão, como José Gonçalves, José Antônio Barbosa, Patativa do Assaré, todos de saudosa memória, e comecei a me interessar pela cantoria. Pouco depois estava assobiando pelas ruas de Campina Grande a melodia das violas e cantarolando os versos dos grandes cantadores e poetas.  

OM — Assim, você se firmou mesmo como violeiro ainda na Paraíba?

AP — É verdade. Após algum tempo estudando as formas de versificação, percorrendo os caminhos da poesia e dedilhando a viola, passei a acompanhar grandes cantadores daquela região. Cantei com violeiros do calibre de Otacílio e Dimas Batista, Lourival e Canhotinho, que eram grandes feras do repente. Foram esses os meus professores e escola na cantoria.     

OM — Mas esse ingresso na arte do verso se deu puramente por influência dos cantadores?... Existe ou existiu mais alguém na sua família ligado ao exercício poético?

AP — A sua pergunta foi muito oportuna, já que na minha família houve um cidadão, tio de minha mãe, chamado João Taveira Cardoso, lá de Queimadas, região de Campina Grande, ao qual eu perguntei e ele me disse que eu era o primeiro da família a conduzir a bandeira da poesia. Então, antes disso, eu julgava que fosse mesmo uma questão de hereditariedade. Hoje, acho possível que seja um dom, alguma coisa da graça de Deus.  

OM — Que tipo de incentivo você recebeu na época em que despontava nesse meio literário?

AP — Como eu disse, devido à minha pouca idade, ninguém me dava muito cabimento, não. Um dia, porém, um dos cantadores olhou para mim e pergunto: — Como é seu nome, menino? Apolônio Cardoso, respondi. Ele virou-se para mim e disse: — Você tem nome de poeta, sabia?... Foi esse o primeiro estímulo que recebi na minha trajetória pela poesia.  

OM — Mas Apolônio Cardoso é realmente um bom nome. Outro grande poeta com esse sobrenome é o pernambucano Joaquim Cardozo, com “Z”, já falecido, que era engenheiro, matemático e teórico de arquitetura.

AP — Eu gosto muito do meu nome. O meu avô materno chamava-se Apolônio Cardoso Taveira. Portanto, o meu nome poderia ter sido Apolônio Cardoso Taveira Neto ou Apolônio Cardoso da Silva Neto. Não sei como seria, mas eu agradeço à minha mãe por este nome que ela botou a mim.  

OM — A literatura, especialmente a poesia, lhe trouxe alguma contribuição importante para a sua vida material ou profissional?

AP — Tudo que tenho, ou o pouco que tenho, eu credito também à minha ligação com a poesia e a cultura de um modo geral. Se hoje não tenho bens econômicos, dinheiro satisfatório e bastante, é pela minha indiferença pelas coisas materiais, por esse meu espírito boêmio, vagabundo, mas um vagabundo no bom sentido. No mais, eu acho que tenho o suficiente pra viver, tenho uma casa pra morar, tenho filhos e esposa maravilhosos, um carro velho pra andar, algum trocado pra tomar uma cerveja, uma viola pra tocar, o nome que eu tenho e um amigo como você, então, o quê é que eu quero mais da vida?

OM — Quer dizer que você se sente um homem realizado tanto na vida literária quanto social?  

AP — Sinto-me, sim. Mas quando eu morrer eu não quero que digam: morreu o doutor Apolônio Cardoso... Quero que digam assim: morreu o poeta Apolônio Cardoso, o autor de ‘Flor do Mocambo’! Só basta isso pra eu estar feliz.

OM — Além de Flor do Mocambo, qual o outro poema de sua autoria que mais lhe agrada?

AP — Gosto de muita coisa que já compus, outras nem tanto, mas entre os versos que me trouxeram maior publicidade está também o poema Flor do Cascalho, que, juntamente com Flor do Mocambo, obtiveram várias gravações por este país afora. Sobre Flor do Mocambo, uma senhora uma vez me disse assim, ao me identificar o como o autor dos versos: “É o senhor o autor desse poema?... Então o senhor já pode Morrer!”. São depoimentos desses, desinteressados, que fazem valer a tinta da pena.

OM — Você é casado com uma mossoroense?

AP — É verdade. Casei-me com Maria Creuza Araújo, era este o seu nome antes do casamento. Uma filha do grande e saudoso Zé Moreira, que foi preso como comunista; que lutou pelo petróleo brasileiro, pelas causas dos trabalhadores, operários, e que aqui está sepultado. Mas morreu sem nada, sozinho, velho e esquecido com o mísero salário mínimo que é pago neste país, um salário que representa não mais do que uma vergonha, uma afronta à integridade moral e social do homem brasileiro.  

OM — Como você e sua esposa se conheceram?   

AP — Bom, como eu disse antes, eu cheguei a Mossoró e fui logo cantar com Elizeu Ventania e João Liberalino num bar do bairro Boa Vista, onde os pais dela moravam. E foi nessa primeira apresentação que nos conhecemos. Ela foi se aproximando de mim, muito novinha, bonitinha, e aí ela me seduziu. O pretexto para aproximar-se foi um pente, que ela me pediu para pentear o cabelo. Nessa época era muito chique o rapaz andar com pente. Daí começamos a conversar e depois namoramos. Após um bom namoro, nós nos casamos no ano de 1962, na igreja de Nossa Senhora da Conceição, aqui na entrada de Mossoró. No plano civil, o casamento foi no cartório do saudoso Joca Bruno.   

OM — Quando você começou a sua carreira como advogado?  

AP — Eu me formei no ano de 1974, pela Fundação Universidade Região Nordeste, de Capina Grande-PB, hoje Universidade Estadual. Antes, eu era professor, passei a advogar dois anos depois, e agora estou com vinte e seis anos de advocacia. E em Mossoró eu fiz muitos júris. Inaugurei aquele fórum novo, o Fórum Municipal Doutor Silveira Martins, juntamente com o colega advogado Ricardo Freire. E quero aproveitar a oportunidade para fazer uma pequena homenagem ou justiça a esse que tenho como um dos mais brilhantes advogados que atuaram em Mossoró. As causas pelas quais ele se encontra como está não cabe mim interrogar nem censurar, mas quero dizer que o Rio Grande do Norte está perdendo um grande advogado.      

OM — Você tem lembranças desagradáveis de sua atividade jurídica, ossos do ofício guardados no túmulo da memória?  

AP — Realmente, a advocacia e uma profissão espinhosa. Há casos em que o advogado fica muito exposto a interpretações negativas de uma ou outra parte. Principalmente quando cuidados da defesa de um grande criminoso. Alguns nos são muito gratos pelo trabalho que fazemos, mas há pessoas que levam a coisa para o lado da emoção e esquecem o papel do advogado. Por exemplo, houve gente que já me ameaçou por eu ter feito uma determinada defesa. Uma vez, passando por uma cidade aqui do Estado, que não quero citar qual, um homem próximo a um poste disse assim ao me ver passando: “Ah, um revólver aqui!” Isto é, só podia ser para atirar em mim. E já ouvi um rapaz falar assim, me marcando: “Foi você quem defendeu aquele cabra safado que assassinou meu pai, não foi?”. Já ouvi esse tipo de coisa e tive de me afastar com medo, pois a reação do ser humano é muito imprevisível nessas horas.  

OM — Além do seu trabalho como advogado, você tem ainda uma experiência como delegado de polícia. Fale um pouco dessa outra função.  

AP — Minha experiência como delegado se deu quando eu assumi a delegacia das cidades de Juazeirinho, Cacimba de Dentro e Fagundes, na Paraíba. E quando eu chegava na cidade, que eu saía no comércio com a polícia, aí alguém do povo perguntava: “Como é o nome do senhor?”. Apolônio Cardoso, eu respondia. “Apolônio Cardoso, aquele poeta?... Mas como é que pode um poeta delegado”. E muita gente me achava estranho naquele papel. Eu mesmo me sentia desconfortável naquela situação: um homem da minha alma andar com um 38 na cintura, os bolsos cheios de bala, para prender gente que, no mais dais vezes, eu devia era soltá-las.

OM — E você já soltou alguém que julgasse preso injustamente?   

AP — A primeira delegacia que assumi foi a de Cacimba de Dentro. Cheguei ao distrito por volta das quatro horas da tarde, parei o Fusquinha na frente e entrei. Estavam um sargento, um cabo e dois soldados. Apresentei-me como o novo delegado, eles me receberam muito respeitosamente, foram me pondo a par de tudo e aí eu perguntei se havia alguém detido ali. Informaram que sim, um cidadão que fora detido por mau comportamento alcoólico. Pedi para vê-lo. Estava lá num canto, sentado no cimento frio, só de cueca. Dei-lhe boa-tarde e ele me perguntou: “Quem é o senhor?” Sou o novo delegado daqui. E por que você está preso?... “Eu tomei umas canas doidas aí pelo meio da rua, andei dando uns gritos, falando alto e mandaram me prender”. Chamei o sargento e perguntei, foi só isso mesmo? Foi, me respondeu o sargento. Então traga a roupa dele e pode abrir o xadrez. Ele está liberado. E fiz a seguinte recomendação ao preso: o senhor agora vá para casa, peça uma meiota na bodega vizinha, encha a cara, dentro de casa, tire a ressaca, coma bastante e vá dormir. O sargento olho para mim e disse: “E o senhor é assim, delegado?”. E foi que lhe respondi: e o senhor acha que eu vou deixar um colega preso?!... Depois, eu fiquei sabendo que essa história correu a cidade toda. E por essas e outras eu fui vendo que a função de delegado não tinha muito a ver com meu espírito sereno. Ainda passei três anos como delegado, mas depois laguei tudo e voltei a ser professor, e hoje sou aposentado como professor de História lá pela Paraíba.    

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Mossoró-RN, domingo, 26 de janeiro de 2003