Mossoró-RN, domingo 25 de junho de 2006

Os índios Mouxorós

GERALDO MAIA
gmaia@bol.com.br

Antes da chegada do colonizador, a terra já era ocupada. Mas na passagem devas-tadora dos povoadores dos sertões, os primitivos habi-tantes foram sendo escravi-zados, massacrados e expulsos de suas terras e nelas os po-voadores fincaram os mou-rões das porteiras dos currais de gado. Já não havia mais lugar para os nativos. E quem eram esses nativos?  Eram os Mouxorós, Monxorós ou Mos-sorós, da tribo cariri, que habitaram a região até quase metade do século XVIII, o século do povoamento mos-soroense.

Segundo alguns historiadores, como é o caso de J.C.R. Milliet de Saint-Adolphe, autor do "Dicionário Geográfico, Histórico e Descritivo do Império do Brasil", foi dessa tribo que veio o nome do rio. E do rio o nome da cidade. Explica o mesmo, quando se refere ao rio Apodi: "Dá-se d'ordinário o nome de Mossoró a sua embocadura, por causa da vizinhança das salinas, e d'uma aldeia desse nome".  Existia, portanto, uma aldeia indígena denominada Mossoró, Mouxorós ou Monxorós, e habitada pelos indígenas deste nome.

Sobre essa tribo, pouco sabemos. Nas histórias oficiais do Rio Grande do Norte, quase nada encontramos. Apenas Câmara Cascudo se ocupa do assunto. Segundo ele, "os Mouxorós ou Monxorós (Mossorós), cariris, vagavam pelas margens do atual Mossoró em seu  derradeiro trecho e também Upanema. Com os Pégas se uniram e com eles mataram muito gado, provocando correria repressiva dos curraleiros de Campo Grande (Augusto Severo) contra eles. Habitaram depois a serra dos Dormentes (Portalegre), outrora de Manoel Nogueira Ferreira, situador valente".

Informa ainda Cascudo que "Carlos Vital Borromeu e seu irmão Clemente Gomes d'Amorim, em 1740, ajudados pelos Paiacús, desalojaram os Pégas e Mossorós dos aldeamentos serranos. Passaram então a viver na serra da Cipilhada, posteriormente denominada Serra de João do Vale".  Nonato Mota, em "Notas Históricas", Comércio de Mossoró, 12 de julho de 1914", completa a história informando que "os Pégas e Mossorós foram transferidos para a aldeia de Mopibu ou Mipibu, onde se dissolveram etnicamente", esparsos e fracos ante a tentação do álcool, levando uma vida totalmente diferente da que estavam acostumados, sendo obrigados a trabalhar,  plantando e colhendo, tarefa que a tribo confiava às mulheres, descaracterizando as funções da tribo.

Não se sabe de onde vieram os Mossorós. Se vieram do Ceará, pelo Jaguaribe ou pelo planalto para o Apodi. Sabe-se, no entanto, que eram fortes, ágeis, indômitos, atrevidos, incansáveis. Eram bons caçadores e achavam no gado trazido pelos colonizadores, alvos fáceis para as suas flechas. Da caça abatida tiravam a carne que era comida assada ou chamuscada. Dormiam no chão nu, ignorando e depois quase desprezando a rede de algodão dos tupis, tendo a esteira como requinte para os fracos, segundo informação de Cascudo. Corriam dias inteiros, lépidos, gritando, rindo, cantando.

As mulheres eram oleiras. Não tão hábeis como às cunhãs tupis, mas faziam os utensílios que necessitavam; plantavam e colhiam. Os homens iam à caça, com armas de arremesso, a pesca, a colheitas de frutos e mel de abelha. Não tinham reservas nem celeiros. Faziam vinho de raízes e frutos, fermentando-os, apressados pela salivação. Sob o efeito do vinho, dançavam, em rodas, erguendo os braços, festejando a  Lua Nova num bailado que durava a noite toda.

Não podiam ser civilizados. Só podiam existir como tinham sempre vivido, livres, vivendo da caça e da pesca, dançando,  gritando aos ventos o sabor da liberdade. Quando foram pacificados, não se habituaram  a paz da disciplina dos brancos. Sem liberdade,  não resistiram; morreram todos.

E assim passaram os Mossorós deixando para a terra que um dia lhe pertenceu o legado do nome e do amor pela liberdade. Essa liberdade, que emana da terra, tem sido o brado forte e retumbante do povo mossoroense.

 

0720 - Mossoró/Natal

Marcos Bezerra
Jornalista - marcos.bezerra@redeintertv.com.br

Não acredito que tenha sido uma premonição - não é minha idéia aproveitar o momento -, mas havia algo de desconforto naquela tarde de domingo. Um ar pesado, que nem a vitória da seleção brasileira sobre a Austrália, na Copa da Alemanha, conseguiu dissipar. Cuidei para não ficar um único minuto sozinho, buscando sempre estar ao lado de pessoas queridas, mesmo que para isso precisasse atravessar a cidade, quando bem poderia ter pego o ônibus na parada do centro de Mossoró, a famosa subida da ponte. Atribuí isso à tristeza do fim de tarde, à despedida da nam-orada, ao fato de estar num canto que já foi meu e à indefinição sobre onde é o meu canto. Refém dos humores do olho esquerdo, continuo sem uma data definida de retorno.

Entrei no ônibus quase na hora da saída, 18h30. Como sempre faço preferi levar a bagagem comigo. Com um pouco de esforço a bolsa coube no bagageiro. Chamou-me atenção uma moça que insistia em viajar naquele ônibus. O seguinte entrava em Assu e ela achava que a viagem ia ficar muito demorada. Por mais que o cobrador e o motorista dissessem que o carro estava lotado, a moça não se conformava. Teve que ir falar com o gerente.

Enfim, o ônibus em movimento. É impressionante como a pavimentação da estação rodoviária está estragada. Fui reclamando comigo mesmo. No asfalto um pouco de alívio, mas acho que não foi uma boa idéia escolher a cadeira n° 4. Parece que aqui o ônibus sacoleja mais. Porque esse motorista está parando, aqui nem é ponto de passageiro? Tomara que não venha ninguém se sentar na cadeira ao lado; assim viajo mais confortável. No centro mais gente para subir. As comemorações dos torcedores do Baraúnas e da seleção brasileira, interditaram a avenida Presidente Dutra. Lá vamos nós pela Leste-Oeste. Uma volta enorme e novas paradas. Numa delas sobe uma moça com um bebê e um idoso. Na última parada, minha companheira de viagem, da poltrona 3. Lá se foram meus planos. Pior que aqui na frente falta espaço para as pernas.

Com uma camisa de flanela grossa no rosto tento relaxar. Mas não é fácil, a estrada não ajuda. A recuperação da ponte sobre o rio Angicos não termina nunca? E essa buraqueira; vão deixar acabar tudo para recuperar?

A inquietação me leva a pensar besteira. Vou chegar às dez e meia da noite; pego um ônibus ou ligo para o pessoal me buscar na parada? Fico com a primeira opção e vou medindo os riscos de um assalto. Nunca fui vítima de um e não sei qual seria minha reação. Provavelmente tentaria correr. Aí a imaginação vai criando situações; para dormir só tirando todas as idéias da cabeça. Não consigo. Essas luzes; ainda estamos passando em Assu. Na cortina entreaberta, do outro lado do ônibus, identifico postos de combustíveis e restaurantes, onde tantas vezes parei. Fecho os olhos, não durmo e percebo o clarão dos faróis dos carros que viajam em sentido contrário. Tiro os sapatos, coloco os sapatos, me cubro com a camisa e quando finalmente consigo cochilar...

Não lembro de ter ouvido barulho de freios, lembro de uma luz mais forte e uma pancada seca. Acho que fui jogado de encontro ao vidro que separa o corredor da cabine do motorista. Depois o mundo começou a rodar. A lembrança do barulho do ônibus se arrastando e nossos gritos ainda me causam arrepios.

O barulho parou, os gritos continuaram, agora mais fortes. - Saiam de cima do meu pai, ele é velhinho! - Meu celular, alguém viu meu celular? - Meus óculos, cadê meus óculos? Essa voz era minha. Ao meu lado minha vizinha de poltrona, com a cara no chão. - Ei, moça, levante. Não me passava pela cabeça que ela podia estar gravemente ferida. Para mim, naquele momento, todos estavam bem, o pior já havia passado. Alguém nos chama de fora. - Vocês tiveram sorte, nós somos "irmãos" e viemos ajudar. Eu saio, o motorista está na frente do ônibus, ouço mais do que vejo, ele tinha fraturas expostas nas pernas. Gritos que se misturam, escuto, escutamos, apenas os mais próximos. Sinto apenas um corte na mão e resolvo ajudar as pessoas a saírem. - O carro está pegando fogo. Pânico! Mas que carro? Graças a Deus não era o ônibus. Não sei quanto tempo nem quantas pessoas passaram pelo pára-brisa, com cuidado para não bater no motorista, que pedia desesperadamente para ser tirado dali e reclamava de alguém que havia invadido a pista. - Cara, você salvou todos nós, parabéns! Um toque no ombro para dar força.

Senti-me culpado por não poder ajudar mais, mas naquela escuridão enxergava pouco. Recuperei minha bolsa no bagageiro e uma passageira que era médica me guiou até um restaurante na beira da estrada. Era para lá que todos iam. De repente já era sangue demais na mão direita, pedaços de vidro me ferindo sob as roupas. A gente ia se ajeitando do jeito que dava, lavando os ferimentos com sabão, ajudando uns aos outros. Dentro da casa uma mãe se desesperava - o bebê tinha um ferimento na boca. Quem podia emprestava força aos que pareciam mais frágeis. Por todos os cantos gente chorando, em estado de choque. Outros ligavam para os parentes para contar do acidente. Esperei mais um pouco. Encontrei o idoso, com a filha e a neta. Só aí nos reconhecemos; era meu primo, em segundo grau, tinha um corte na cabeça e o socorro chegou logo para ele. Na outra mesa minha vizinha da poltrona 3, chorando de dor, parecia ter fraturado o ombro. Foi levada para o hospital num carro da polícia. Havia uma fogueira na pista. Na certa alguém acendeu para alertar os motoristas para o perigo. Pensei.

Retornei ao ônibus para tentar procurar meus óculos, o motorista não estava mais lá. Encontrei alguns objetos e entreguei a um policial. O Irmão que primeiro nos socorreu achou outros dois óculos antes de encontrar o meu, milagrosamente inteiro. Agora poderia ajudar. Mas não havia mais ninguém para ajudar e eu começava a cair na real.

Na pista a fogueira ainda ardia. Era a pick-up, que havia provocado a tragédia. O motorista, provavelmente morreu no choque, antes de ter o corpo carbonizado. Rezei por ele, como sempre fazia na cobertura jornalística de algum acidente.

Mas dessa vez não anotei a placa do carro para responder depois, quando me perguntaram. Não sabia dizer de uma moça que havia perdido o braço; quantos feridos? Não entendia o acidente, como os dois veículos ficaram tão distantes um do outro. Só quando embarquei em outro ônibus para Natal, descobri que o nosso havia virado ao contrário na pista. - Então a coisa foi grave!

Agradeci a Deus por estar bem, liguei para os meus para contar que estava bem e chorei silenciosamente.

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