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Os
índios Mouxorós
GERALDO MAIA gmaia@bol.com.br
Antes da chegada do colonizador, a
terra já era ocupada. Mas na passagem devas-tadora dos
povoadores dos sertões, os primitivos habi-tantes foram
sendo escravi-zados, massacrados e expulsos de suas
terras e nelas os po-voadores fincaram os mou-rões das
porteiras dos currais de gado. Já não havia mais lugar
para os nativos. E quem eram esses nativos? Eram
os Mouxorós, Monxorós ou Mos-sorós, da tribo cariri,
que habitaram a região até quase metade do século XVIII,
o século do povoamento mos-soroense.
Segundo alguns historiadores, como
é o caso de J.C.R. Milliet de Saint-Adolphe, autor do
"Dicionário Geográfico, Histórico e Descritivo
do Império do Brasil", foi dessa tribo que veio
o nome do rio. E do rio o nome da cidade. Explica o
mesmo, quando se refere ao rio Apodi: "Dá-se d'ordinário
o nome de Mossoró a sua embocadura, por causa da vizinhança
das salinas, e d'uma aldeia desse nome". Existia,
portanto, uma aldeia indígena denominada Mossoró, Mouxorós
ou Monxorós, e habitada pelos indígenas deste nome.
Sobre essa tribo, pouco sabemos. Nas
histórias oficiais do Rio Grande do Norte, quase nada
encontramos. Apenas Câmara Cascudo se ocupa do assunto.
Segundo ele, "os Mouxorós ou Monxorós (Mossorós),
cariris, vagavam pelas margens do atual Mossoró em seu
derradeiro trecho e também Upanema. Com os Pégas
se uniram e com eles mataram muito gado, provocando
correria repressiva dos curraleiros de Campo Grande
(Augusto Severo) contra eles. Habitaram depois a serra
dos Dormentes (Portalegre), outrora de Manoel Nogueira
Ferreira, situador valente".
Informa ainda Cascudo que "Carlos
Vital Borromeu e seu irmão Clemente Gomes d'Amorim,
em 1740, ajudados pelos Paiacús, desalojaram os Pégas
e Mossorós dos aldeamentos serranos. Passaram então
a viver na serra da Cipilhada, posteriormente denominada
Serra de João do Vale". Nonato Mota, em "Notas
Históricas", Comércio de Mossoró, 12 de julho de
1914", completa a história informando que "os
Pégas e Mossorós foram transferidos para a aldeia de
Mopibu ou Mipibu, onde se dissolveram etnicamente",
esparsos e fracos ante a tentação do álcool, levando
uma vida totalmente diferente da que estavam acostumados,
sendo obrigados a trabalhar, plantando e colhendo,
tarefa que a tribo confiava às mulheres, descaracterizando
as funções da tribo.
Não se sabe de onde vieram os Mossorós.
Se vieram do Ceará, pelo Jaguaribe ou pelo planalto
para o Apodi. Sabe-se, no entanto, que eram fortes,
ágeis, indômitos, atrevidos, incansáveis. Eram bons
caçadores e achavam no gado trazido pelos colonizadores,
alvos fáceis para as suas flechas. Da caça abatida tiravam
a carne que era comida assada ou chamuscada. Dormiam
no chão nu, ignorando e depois quase desprezando a rede
de algodão dos tupis, tendo a esteira como requinte
para os fracos, segundo informação de Cascudo. Corriam
dias inteiros, lépidos, gritando, rindo, cantando.
As mulheres eram oleiras. Não tão
hábeis como às cunhãs tupis, mas faziam os utensílios
que necessitavam; plantavam e colhiam. Os homens iam
à caça, com armas de arremesso, a pesca, a colheitas
de frutos e mel de abelha. Não tinham reservas nem celeiros.
Faziam vinho de raízes e frutos, fermentando-os, apressados
pela salivação. Sob o efeito do vinho, dançavam, em
rodas, erguendo os braços, festejando a Lua Nova
num bailado que durava a noite toda.
Não podiam ser civilizados. Só podiam
existir como tinham sempre vivido, livres, vivendo da
caça e da pesca, dançando, gritando aos ventos
o sabor da liberdade. Quando foram pacificados, não
se habituaram a paz da disciplina dos brancos.
Sem liberdade, não resistiram; morreram todos.
E assim passaram os Mossorós deixando
para a terra que um dia lhe pertenceu o legado do nome
e do amor pela liberdade. Essa liberdade, que emana
da terra, tem sido o brado forte e retumbante do povo
mossoroense.
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0720 - Mossoró/Natal
Marcos Bezerra Jornalista
- marcos.bezerra@redeintertv.com.br
Não acredito que tenha sido uma premonição
- não é minha idéia aproveitar o momento -, mas havia
algo de desconforto naquela tarde de domingo. Um ar
pesado, que nem a vitória da seleção brasileira sobre
a Austrália, na Copa da Alemanha, conseguiu dissipar.
Cuidei para não ficar um único minuto sozinho, buscando
sempre estar ao lado de pessoas queridas, mesmo que
para isso precisasse atravessar a cidade, quando bem
poderia ter pego o ônibus na parada do centro de Mossoró,
a famosa subida da ponte. Atribuí isso à tristeza do
fim de tarde, à despedida da nam-orada, ao fato de estar
num canto que já foi meu e à indefinição sobre onde
é o meu canto. Refém dos humores do olho esquerdo, continuo
sem uma data definida de retorno.
Entrei no ônibus quase na hora da
saída, 18h30. Como sempre faço preferi levar a bagagem
comigo. Com um pouco de esforço a bolsa coube no bagageiro.
Chamou-me atenção uma moça que insistia em viajar naquele
ônibus. O seguinte entrava em Assu e ela achava que
a viagem ia ficar muito demorada. Por mais que o cobrador
e o motorista dissessem que o carro estava lotado, a
moça não se conformava. Teve que ir falar com o gerente.
Enfim, o ônibus em movimento. É impressionante
como a pavimentação da estação rodoviária está estragada.
Fui reclamando comigo mesmo. No asfalto um pouco de
alívio, mas acho que não foi uma boa idéia escolher
a cadeira n° 4. Parece que aqui o ônibus sacoleja mais.
Porque esse motorista está parando, aqui nem é ponto
de passageiro? Tomara que não venha ninguém se sentar
na cadeira ao lado; assim viajo mais confortável. No
centro mais gente para subir. As comemorações dos torcedores
do Baraúnas e da seleção brasileira, interditaram a
avenida Presidente Dutra. Lá vamos nós pela Leste-Oeste.
Uma volta enorme e novas paradas. Numa delas sobe uma
moça com um bebê e um idoso. Na última parada, minha
companheira de viagem, da poltrona 3. Lá se foram meus
planos. Pior que aqui na frente falta espaço para as
pernas.
Com uma camisa de flanela grossa no
rosto tento relaxar. Mas não é fácil, a estrada não
ajuda. A recuperação da ponte sobre o rio Angicos não
termina nunca? E essa buraqueira; vão deixar acabar
tudo para recuperar?
A inquietação me leva a pensar besteira.
Vou chegar às dez e meia da noite; pego um ônibus ou
ligo para o pessoal me buscar na parada? Fico com a
primeira opção e vou medindo os riscos de um assalto.
Nunca fui vítima de um e não sei qual seria minha reação.
Provavelmente tentaria correr. Aí a imaginação vai criando
situações; para dormir só tirando todas as idéias da
cabeça. Não consigo. Essas luzes; ainda estamos passando
em Assu. Na cortina entreaberta, do outro lado do ônibus,
identifico postos de combustíveis e restaurantes, onde
tantas vezes parei. Fecho os olhos, não durmo e percebo
o clarão dos faróis dos carros que viajam em sentido
contrário. Tiro os sapatos, coloco os sapatos, me cubro
com a camisa e quando finalmente consigo cochilar...
Não lembro de ter ouvido barulho de
freios, lembro de uma luz mais forte e uma pancada seca.
Acho que fui jogado de encontro ao vidro que separa
o corredor da cabine do motorista. Depois o mundo começou
a rodar. A lembrança do barulho do ônibus se arrastando
e nossos gritos ainda me causam arrepios.
O barulho parou, os gritos continuaram,
agora mais fortes. - Saiam de cima do meu pai, ele é
velhinho! - Meu celular, alguém viu meu celular? - Meus
óculos, cadê meus óculos? Essa voz era minha. Ao meu
lado minha vizinha de poltrona, com a cara no chão.
- Ei, moça, levante. Não me passava pela cabeça que
ela podia estar gravemente ferida. Para mim, naquele
momento, todos estavam bem, o pior já havia passado.
Alguém nos chama de fora. - Vocês tiveram sorte, nós
somos "irmãos" e viemos ajudar. Eu saio, o
motorista está na frente do ônibus, ouço mais do que
vejo, ele tinha fraturas expostas nas pernas. Gritos
que se misturam, escuto, escutamos, apenas os mais próximos.
Sinto apenas um corte na mão e resolvo ajudar as pessoas
a saírem. - O carro está pegando fogo. Pânico! Mas que
carro? Graças a Deus não era o ônibus. Não sei quanto
tempo nem quantas pessoas passaram pelo pára-brisa,
com cuidado para não bater no motorista, que pedia desesperadamente
para ser tirado dali e reclamava de alguém que havia
invadido a pista. - Cara, você salvou todos nós, parabéns!
Um toque no ombro para dar força.
Senti-me culpado por não poder ajudar
mais, mas naquela escuridão enxergava pouco. Recuperei
minha bolsa no bagageiro e uma passageira que era médica
me guiou até um restaurante na beira da estrada. Era
para lá que todos iam. De repente já era sangue demais
na mão direita, pedaços de vidro me ferindo sob as roupas.
A gente ia se ajeitando do jeito que dava, lavando os
ferimentos com sabão, ajudando uns aos outros. Dentro
da casa uma mãe se desesperava - o bebê tinha um ferimento
na boca. Quem podia emprestava força aos que pareciam
mais frágeis. Por todos os cantos gente chorando, em
estado de choque. Outros ligavam para os parentes para
contar do acidente. Esperei mais um pouco. Encontrei
o idoso, com a filha e a neta. Só aí nos reconhecemos;
era meu primo, em segundo grau, tinha um corte na cabeça
e o socorro chegou logo para ele. Na outra mesa minha
vizinha da poltrona 3, chorando de dor, parecia ter
fraturado o ombro. Foi levada para o hospital num carro
da polícia. Havia uma fogueira na pista. Na certa alguém
acendeu para alertar os motoristas para o perigo. Pensei.
Retornei ao ônibus para tentar procurar
meus óculos, o motorista não estava mais lá. Encontrei
alguns objetos e entreguei a um policial. O Irmão que
primeiro nos socorreu achou outros dois óculos antes
de encontrar o meu, milagrosamente inteiro. Agora poderia
ajudar. Mas não havia mais ninguém para ajudar e eu
começava a cair na real.
Na pista a fogueira ainda ardia. Era
a pick-up, que havia provocado a tragédia. O motorista,
provavelmente morreu no choque, antes de ter o corpo
carbonizado. Rezei por ele, como sempre fazia na cobertura
jornalística de algum acidente.
Mas dessa vez não anotei a placa do
carro para responder depois, quando me perguntaram.
Não sabia dizer de uma moça que havia perdido o braço;
quantos feridos? Não entendia o acidente, como os dois
veículos ficaram tão distantes um do outro. Só quando
embarquei em outro ônibus para Natal, descobri que o
nosso havia virado ao contrário na pista. - Então a
coisa foi grave!
Agradeci a Deus por estar bem, liguei
para os meus para contar que estava bem e chorei silenciosamente.
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