Mossoró-RN, domingo 25 de junho de 2006

A palavra de Dorian Jorge Freire

Meus amigos

Nunca fui aquilo que minha Mãe chamava de "tipo popular variado". Fazedor fácil de amigos. O meu circuito, desde pequeno, esteve sempre muito fechado. Os amigos, nunca os fiz sem dificuldades. Daí porque eles sempre foram os melhores, de tão escolhidos, de tão selecionados. E nunca me foi fácil preservá-los. O meu temperamento azougado os afasta. As amizades mais tímidas não se comprazem com o meu temperamento difícil. Afasta os amigos fáceis. Os mantém à distância. Desata as solidariedades superficiais, as camaradagens dúbias, débeis.

No entanto, os amigos sempre me foram necessários. Que digo? Essenciais. Constituem parte de mim e, geralmente, a melhor parte, a parte que me salva. Entrego-me às amizades sem discrição nem prudência, gesto largo de credibilidade absoluta. Embora exigente e cioso com as amizades, não as enfrento com um pé na frente e outro atrás. Dou-me a elas. Não as entendo senão absolutas, para o que der e vier, uma vez Flamengo sempre Flamengo, bons e maus momentos, vencendo provas, arrostando conflitos, desafiando espaço e tempo.

O que tenho perdido em quantidade, é muita coisa. Mas, convenho, o que ganho em qualidade é de justificar qualquer homem. Os amigos me explicam, me traduzem, testemunham o que sou e, principalmente, o que gostaria de ser. Constituem a minha família grande. Formada pelo amor e não apenas pela fatalidade indiferente do sangue. São o meu patrimônio. A minha herança. Lembro-me deles com carinho, procuro ser fiel à amizade que nos liga para a eternidade. Sou possessivo, confesso. Exclusivista, confesso. Até ciumento. Que posso fazer? Ego sum quisum. Perdoai...

Relembro os primeiros amigos que apareceram. Os que vieram antes da crise da adolescência. Caminharam nos meus primeiros traçados. Não eram muitos, já àquela época. Também não era amplo o raio de minha expansibilidade. Não sei por que, lá em casa não me permitiam incursões mais audazes. Quem era meu amigo, brincava lá em casa, entre as plantas de nosso jardim, debaixo da cajazeira, no sótão, no quartinho da escada, nos quartos lá detrás, nos corredores. E eu também ia às suas casas. Era gente miúda saída de famílias unidas à nossa pela amizade mais firme e mais velha. Não se tratava, Deus me livre, de discriminação. Nunca houve lugar para discriminação na nossa casa. Embora meus pais não tivessem sido heróis abolicionistas, nem desfilado na cidade de braços com negras libertas, deles nunca se ouviu o grito racista do "quem com porcos se mistura, farelos vem a comer". Nunca, jamais. Entre gente humilde, de condições sociais modestíssimas, tivemos amigos queridos. Lembro que um deles era interno na casa vizinha, no recolhimento de menores abandonados. Os filhos de nossos empregados eram nossos amigos. Não havia diferença no tratamento entre as crianças, que dificilmente as crianças suportam os limites que só a maldade futura estabelecerá. Os meus amigos não eram amigos circunstanciais. Que amigos assim, nunca os tive. Amigos fáceis. Amizades de temporada de Tibau: começam na temporada e terminam com ela. Mas fulanos que sempre estiveram ligados a mim e assim continuarão sempre.

É o caso de Airton Nogueira do Monte, Danilo Escóssia, Elder Heronildes da Silva. Quando começou a nossa amizade? Nem sei, nem sabem eles. Sempre fomos amigos. Desde sempre. Desde a eternidade. Nascemos amigos e, querendo Deus, seremos defuntos amigos. Dói-me, hoje, estejamos distantes. Às vezes me angustia a impressão de que eles esqueceram aquele nosso passado comum, se deslembraram do velho companheiro. Tantos são os caminhos dos homens. Tantas são as voltas da vida. Dói-me que os nossos filhos não se conheçam, não se dêem as mãos, não repitam, hoje, o que foi a mais bela aventura de nossa vida. Não os esqueço. Eles povoam os meus sonhos, aquela vida subconsciente que eu vivo, todas as noites, quando cerro os olhos e me transporto ao melhor do meu passado, na reconstituição que a saudade consegue produzir. Outros houve. Valdenício Miranda, filho de dona Laura. Ilo, neto ou bisneto do velho Romão Filgueira. Luizinho, filho de Otto Guerra. Murilo, filho do barbeiro Antonio Moura.

Muitos? Poucos? Que importância tem, em amizade, a quantidade? Eles e mais Maria Helena, Nadeje, as amigas de minha irmã, completavam o círculo das necessidades. Eram excelentes companheiros. Cada qual valendo por multidão, por grupo, por magote. A eles, disse acima, se incorporavam as amigas de Myriam. Tão incorporadas que a molecada que ficava fora do nosso círculo (porque dele se afastava e não porque fosse recusada) não me perdoava a proximidade das saias. E gritava, do coreto, o insulto que não me feriu nunca: bendito sois entre as mulheres... Bendito, sim. Porque aquelas meninas (que mulheres, que nada) eram excelentes, os seus nomes guardo no mais bem aprazível. Enchiam a nossa casa, descobriam brinquedos, inventavam coisas, preenchiam cada hora de infância com um encanto particular.  

As brincadeiras varavam o dia. À tarde, lá em casa. Os mais assíduos eram Airton (que carinhosamente chamávamos de Meu Branco), sua irmã Carminha, Danilo, Dadeje, prima nossa, filha de Mocinha. Mocinha Couto. Irmã de Zé Melado. Melado porque tinha cabelos ruivos, era entroncadinho, briguento, sabia os piores nomes feios que ecoavam na Rua Machado de Assis, no futuro celebrizada como rua de Jaime Hipólito Dantas, mais do que como rua que homenageia o famoso escritor. Meu Branco morava vizinho a nós, na casa grande, sobrado alto, que foi dos seus antepassados Nogueira. Sua mãe era minha madrinha Mariinha. Seu pai, Marcos Monte, trabalhava em Areia Branca, era homem sisudo, só aparecia nos finais de semana. Possuía um punhado de irmãos. Lurdinha, Carminha, José (o mais velho, fechado, bancário), Milton, Deusdedith, Walter. Meu Branco era o primeiro a chegar. E o mais assíduo. Danilo também vinha. Não lhe custava atravessar a praça. A distância, para Elder, também era pequena, já que morava na esquina da Machado de Assis com o Beco do Pau Não Cessa, que eu, se pudesse rebatizá-lo, haveria de chamar de Beco de Cícero Gadê.

Circos, dramas, procissões, lutas com espadas de pau, sermões no quarto da frente, brincadeiras de roda e de anel, pregar fotos de artistas de cinema nos álbuns (tempos de Alice Faye, Tyrone Power, Ann Sheridan, Shirley Temple, Errol Flynn, Douglas Fairbanks Jr., Olívia de Haviland, o Gordo e o Magro, Roy Rogers, Buck Jones, Ann Blyth...). Quando estávamos cansados, corríamos para o que fora um armário e em cuja porta eu pregara um nome, tirado de uma revista da época - O Malho. Ou íamos falar da guerra, que sabíamos estar matando pelo mundo distante, lá no quartinho de trás, onde meu Pai guardava caroço e macambira para as vacas que faziam plantão no curral interno de nossa casa. Éramos todos anti-fascistas. Ontem como hoje. Odiávamos Hitler e Mussolini e algo nos dizia que também muito ruim e perigoso era Hirohito e que o Japão, que víamos nos filmes de espionagem e cheios de torturas, ficava no centro da terra, na profundidade do chão, sob os nossos pés, apenas alguns metros acima de onde, sem dúvida, deveria situar-se o inferno.

Quem excedia a Meu Branco na arte de ser bom? Era-o sem esforço, naturalmente, instintivamente. A bondade era a sua natureza. E a simplicidade. Quem mais humano e leal? Quem mais companheiro certo? Quem dançava melhor o frevo de Pernambuco e melhor imitava as quedas que víamos os artistas caírem nas funções circenses? Meu Branco endurecia o corpo frágil, fino, e, rígido, se lançava ao chão. Só no último instante, a poucos centímetros da terra, num gesto quase imperceptível, as mãos sustentavam o corpo, amparavam o corpo, impediam o emborrachamento. A gente vibrava. Os imitadores falhavam. Era inimitável, era fenomenal. A gente conseguia permissão materna e armava o tablado no terraço lá de casa. E preparava o espetáculo de circo. Que trazia à nossa casa todos os vizinhos. Havia números de dança, de canto, dramas e comédias, demonstrações de queda, palhaçadas. Repetíamos o que víramos no circo. Nerino ou Garcia. E acreditávamos que muitos adultos choravam nos nossos dramas, o que nos conferia qualidades indiscutíveis de grandes artistas... E quem possuía a simplicidade de Elder? E a boa-fé de Murilo? Ou os ímpetos de Danilo, ímpetos que não escondem, até hoje, a sua natureza essencialmente boa?

Os tempos correram. O mundo mudou. Onde andarão os dias que morreram, que ficaram para trás, para um atrás que vai ficando cada vez mais remoto? Já surgiram cabelos brancos em nossas cabeças. Os nossos filhos, hoje, são mais velhos do que éramos naquele tempo inicial de nossa camaradagem. O que é feito de Meu Branco? Terá permanecido bom? A vida não lhe terá saído amarga? Terá podido aparar, com a arte de outrora, as quedas que acompanham a nossa caminhada? Cada qual seguiu o seu destino. Mas o que sinto, sentirão eles? A nostalgia funda da infância perdida, o respeito pela meninice que nós pudemos fazer sã? Já não rodamos a praça, já não trocamos confidências, já não fumamos às escondidas. Mas, de longe, separados pelo tempo, separados por um mundo de chão, de dias e de dores, não continuaremos sendo, essencialmente, aqueles mesmos amigos de ontem? Aquelas mesmas pessoas de ontem? O filho de dona Dolores, o filho de dona Mariinha, o filho de dona Dolora...

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