Mossoró-RN, domingo 25 de junho de 2006

AOS MENINOS DE RUA
Caio César Muniz
Poeta (Mossoró/RN)

Quem são estes meninos
Sem nome, noite afora?
Filhos de quem
E onde moram?
Por que ninguém lhes diz
Para irem dormir,
Como devem dormir
Todas as crianças?

Que gula é esta
Que têm,
Que quase arrancam
Das nossas bocas
O alimento
Que nos farta
E que lhes falta? 

De que justiça
Falam os "justos"
Que não vejo cuidar
Destas crianças?

Infância perdida,
Sonhos vãos
Meninos sem nome
Que se perdem
Noite afora.

VOCÊ
Ângela Rodrigues de Oliveira
Estudante de Filosofia da Uern (Mossoró/RN)

Quando você entrou
Em minha vida
Veio de mansinho,
Quieta, parecendo amiga,
Foi ficando, não era importante,
apenas presente;
Não ocupava espaço,
Mas estava sempre lá.
Aos poucos assumiu
Espaço, ocupou lacunas
E tornou-me vazia.
Arrancou-me certezas,
Robou-me a segurança,
Bagunçou meus conceitos.
Destruiu minha paz!
E você que era apenas
Alguém encontrado ao acaso
Invadiu minha vida
Acabou com minha harmonia!
Uma vida inteira
Foi desmoronando!
Sua presença
Antes tão insignificante
Passou a ser constante em meus dias!
Você, que sem convite
Entrou em minha casa
E levou parte de mim
Destruiu o que havia de
Mais sagrado em meu EU
A confiança!
Você - a outra!
Que mesmo negada
Sei que existe...
Você, de novo nada
Apenas um ponto perdido
Em um lugar esquecido.

DESEJO
Zenóbio Oliveira
Cinegrafista (Mossoró/RN)
zeaguilhadas@mikrocenter.com.br

A paixão do teu corpo é chama intensa,
Que acende em mim esse desejo insano,
De rasgar-te a pele, num ato leviano,
Sugar de ti, toda essa febre imensa.

E na edaz labareda da presença,
Do teu corpo diabólico e profano,
Queimar o meu desejo desumano,
E tudo de paixão que me pertença.

Quero lançar-me, como louco impávido,
Ao fogaréu do teu abraço ávido,
A consumir, de vez, meu coração,

Mas a paixão é, senão, fogo de palha,
Queima ligeiro e deixa na borralha,
As cinzas mortas da desilusão.

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

EFEMERIDADES
José de Sousa Xavier
Poeta macauense radicado em Natal

Parece inútil
a postura das rochas:
ficar em pé, inerte,
bilhões de anos
enquanto a vida passa,
e tudo se move em seu redor.
E eu, que giro e giro
na matéria que gira
ao longo da história,
enganando o tempo,
não encontro artifícios
para deixar de ser
tão-somente fútil
no meu barro estéril
que sequer um século
na carne efêmera,
que sobrevive frágil,
não se sedimenta.

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