Mossoró-RN, domingo 25 de junho de 2006

 

Seis meses sem Vingt-un

O impacto causado pela partida de Vingt-un Rosado deixou muitas incertezas no cenário intelectual do Rio Grande do Norte.

Existia uma pergunta que pairava sobre a cabeça de todos, mas que ninguém tinha coragem de fazê-la: "O que vai ser da Coleção Mossoroense depois que Vingt-un partir?" Muitos apostavam até no fechamento das portas da Fundação que leva o seu nome e é responsável pela editora criada em 30 de setembro de 1949.

Eu sabia que haveria uma continuidade deste trabalho tão valoroso. Mossoró e o próprio Estado não deixariam morrer uma luta que na verdade era tão sua, porque, são os grandes beneficiados com este trabalho que Vingt-un realizou ao longo de mais de meio século, muitas vezes sozinho, muitas vezes lutando contra tudo e contra todos.

Prudente e zeloso pela sua Coleção, ele pediu a Dix-sept Sobrinho, seu filho, que desse seguimento a este projeto editorial e Dix-sept, já no dia 23 de dezembro - um dia após o sepultamento de seu pai - reuniu a família e alguns funcionários para traçar os rumos iniciais deste trabalho do qual ele só acompanhara até então, de longe, ocupado que é, com as crianças mossoroense, futuro do "país de Mossoró".

E não foram fáceis os primeiros momentos, pois todos nós estávamos atordoados, perdidos, sem chão e sem ar. Mesmo eu, que estava mais próximo de Vingt-un nas lides editoriais, não sabia ao certo pra onde ir.

Por muitas e muitas vezes recebi os livros recém-chegados das gráficas e os coloquei em frente à cadeira de Vingt-un, na cabeceira da mesa, como se ele fosse correr o olho em cima da publicação, como sempre fazia, para certificar-se do trabalho bem executado.

Por muitas vezes ainda ouvi o barulho da bengala que lhe apoiava os passos após o almoço rápido, voltando para a biblioteca.

Mas, parece que ele ainda estava ali, naquele ambiente, agora silencioso querendo nos mostrar caminhos, nos pedindo pra ter um pouco de calma porque as soluções viriam, com certeza.

A questão naquele primeiro instante era como continuar esta luta sem a influência que Vingt-un tinha, sem a força que seu nome tinha, sem o peso da sua teimosia.

Não sabíamos ainda que seu nome iria permanecer forte, que sua influência iria ultrapassar a barreira do seu tempo e que a sua teimosia agora, como uma doença boa de se ter, havia nos contaminado, claro, em proporções bem menores.

O Projeto Rota Batida II, inacabado, ainda teve o seu acompanhamento em todo o processo de editoração das obras contempladas e em fevereiro, a prefeitura de Mossoró renovou convênio que nos trouxe o alívio necessário naquele instante, quando as contas já começavam a se avolumar e nós, diferentemente de Vingt-un, não poderíamos tomar dinheiro emprestado aos agiotas.

Com um rumo já melhor definido, a Coleção Mossoroense segue, a produção editorial caiu consideravelmente, o que temos publicado são obras custeadas pelos próprios autores.

Lá na frente, vislumbramos dias melhores e seguimos para eles com esperança.

Perguntado sobre como ficou a hierarquia agora na Fundação Vingt-un Rosado, sempre respondo que está da mesma forma que antes: Jerônimo Dix-sept Rosado Sobrinho é o seu diretor-executivo desde a criação; Jerônimo Vingt-un Rosado Maia é, e sempre será, o seu eterno editor e eu, estou ao dispor deles enquanto lhes servirem os meus préstimos como editor-assistente.

Isso mesmo, enquanto esta Fundação achar que são úteis os meus serviços, serei eterno assistente de Vingt-un, com muita honra e com muito orgulho, sem constrangimento algum, assistente de um dos maiores intelectuais de todos os tempos do Rio Grande do Norte e do Brasil, uma das figuras mais maravilhosas que conheci em toda a minha curta vida e um dos maiores amigos que já possuí.

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