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Seis meses sem Vingt-un
O impacto causado pela partida de
Vingt-un Rosado deixou muitas incertezas no cenário
intelectual do Rio Grande do Norte.
Existia uma pergunta que pairava sobre
a cabeça de todos, mas que ninguém tinha coragem de
fazê-la: "O que vai ser da Coleção Mossoroense
depois que Vingt-un partir?" Muitos apostavam até
no fechamento das portas da Fundação que leva o seu
nome e é responsável pela editora criada em 30 de setembro
de 1949.
Eu sabia que haveria uma continuidade
deste trabalho tão valoroso. Mossoró e o próprio Estado
não deixariam morrer uma luta que na verdade era tão
sua, porque, são os grandes beneficiados com este trabalho
que Vingt-un realizou ao longo de mais de meio século,
muitas vezes sozinho, muitas vezes lutando contra tudo
e contra todos.
Prudente e zeloso pela sua Coleção,
ele pediu a Dix-sept Sobrinho, seu filho, que desse
seguimento a este projeto editorial e Dix-sept, já no
dia 23 de dezembro - um dia após o sepultamento de seu
pai - reuniu a família e alguns funcionários para traçar
os rumos iniciais deste trabalho do qual ele só acompanhara
até então, de longe, ocupado que é, com as crianças
mossoroense, futuro do "país de Mossoró".
E não foram fáceis os primeiros momentos,
pois todos nós estávamos atordoados, perdidos, sem chão
e sem ar. Mesmo eu, que estava mais próximo de Vingt-un
nas lides editoriais, não sabia ao certo pra onde ir.
Por muitas e muitas vezes recebi os
livros recém-chegados das gráficas e os coloquei em
frente à cadeira de Vingt-un, na cabeceira da mesa,
como se ele fosse correr o olho em cima da publicação,
como sempre fazia, para certificar-se do trabalho bem
executado.
Por muitas vezes ainda ouvi o barulho
da bengala que lhe apoiava os passos após o almoço rápido,
voltando para a biblioteca.
Mas, parece que ele ainda estava ali,
naquele ambiente, agora silencioso querendo nos mostrar
caminhos, nos pedindo pra ter um pouco de calma porque
as soluções viriam, com certeza.
A questão naquele primeiro instante
era como continuar esta luta sem a influência que Vingt-un
tinha, sem a força que seu nome tinha, sem o peso da
sua teimosia.
Não sabíamos ainda que seu nome iria
permanecer forte, que sua influência iria ultrapassar
a barreira do seu tempo e que a sua teimosia agora,
como uma doença boa de se ter, havia nos contaminado,
claro, em proporções bem menores.
O Projeto Rota Batida II, inacabado,
ainda teve o seu acompanhamento em todo o processo de
editoração das obras contempladas e em fevereiro, a
prefeitura de Mossoró renovou convênio que nos trouxe
o alívio necessário naquele instante, quando as contas
já começavam a se avolumar e nós, diferentemente de
Vingt-un, não poderíamos tomar dinheiro emprestado aos
agiotas.
Com um rumo já melhor definido, a
Coleção Mossoroense segue, a produção editorial caiu
consideravelmente, o que temos publicado são obras custeadas
pelos próprios autores.
Lá na frente, vislumbramos dias melhores
e seguimos para eles com esperança.
Perguntado sobre como ficou a hierarquia
agora na Fundação Vingt-un Rosado, sempre respondo que
está da mesma forma que antes: Jerônimo Dix-sept Rosado
Sobrinho é o seu diretor-executivo desde a criação;
Jerônimo Vingt-un Rosado Maia é, e sempre será, o seu
eterno editor e eu, estou ao dispor deles enquanto lhes
servirem os meus préstimos como editor-assistente.
Isso mesmo, enquanto esta Fundação
achar que são úteis os meus serviços, serei eterno assistente
de Vingt-un, com muita honra e com muito orgulho, sem
constrangimento algum, assistente de um dos maiores
intelectuais de todos os tempos do Rio Grande do Norte
e do Brasil, uma das figuras mais maravilhosas que conheci
em toda a minha curta vida e um dos maiores amigos que
já possuí.
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