|
Morte
virou tabu entre as pessoas
CRISTIANO
ROJAS Da Redação rojas@omossoroense.com.br
O
tempo é o senhor da razão. Arrendatário
da vida. Tem gente até que bate duas vezes
na boca ante a palavra morte. Tornou-se
quase que um tabu. Talvez a crescente violência
explique em parte esse receio.
Antigamente
a morte natural ou por doença era precedida
de um verdadeiro ritual. Havia toda uma
preparação. Antes de morrer se confessava,
fazia seu testamento, se despedia da família
e em geral morria em casa cercado pelos
filhos.
Quando
veio a falecer precocemente em 1993, aos
52 anos, a professora Maria Gurgel da Silva
se preparou com detalhes para o momento
final que se aproximava em virtude de um
câncer.
ANTES
DE TUDO – Antes de partir ela deixou
garantido um seguro para cada um dos quatro
filhos, uma reserva usada para pagar gastos
eventuais com o funeral e por fim se despediu
de todos eles através de um bilhete.
O teólogo
irlandês Leonard Martin é um dos que defendem
o resgate desse velho ritual perdido através
do tempo até mesmo como forma de valorizar
a vida a qual ele chama de Ortotanásia.
“Em linhas
gerais, o importante é resgatar a arte de
morrer bem, que nada mais é do que morrer
tranqüilo”, explica o especialista em bioética
e membro da Comissão Nacional de Ética em
Pesquisa (CONEP).
Leonard
Martin diz que a morte precisa ser encarada
de frente, pois faz parte da vida e mais
cedo ou mais tarde todo mundo morrerá, reafirmando
que o modelo adotado pelas famílias católicas
no passado deve ser resgatado.
Sofrimento
é o problema mais complexo
Na visão
do teólogo o problema do sofrimento é o
mais complexo, por que o sofrimento é psicológico.
Tem a ver com o sentimento de ser isolado,
de ser abandonado pela família e se sentir
abandonado pelos médicos.
“O que
causa muito sofrimento nas pessoas é o sentimento
de que está sendo um peso para a família.
A pessoa chega a achar que não vale mais
nada, que não está sendo mais produtiva
e que é apenas mais um peso para a família”,
conta Martin.
CONTEXTUALIZAÇÃO
– Segundo ele, dentro desse contexto é importante
resgatar uma visão mais humana do ser humano.
Perceber que o valor do ser humano não depende
de sua produtividade. O valor das pessoas
depende de ser amado. Não de saber amá-las,
mas de ser amado.
“É preciso
amar o próximo, criar um contexto de carinho,
apoio, solidariedade, por que isso é muito
importante”, aconselha. As alternativas
precisam de investimento em tempo, de carinho
e de humanidade.
Um outro
problema muito comum que acompanha o sofrimento
é a questão econômica da família, às vezes
por não ter como custear tratamentos caros
ou por que se sente frustrada de ter passado
a vida toda acumulando dinheiro para garantir
um nível de vida para a família e de repente
vê esse dinheiro sendo gasto em remédios,
médicos, UTI e assim por diante.
Avanços
tecnológicos ajudam no alívio da dor
Para Leonard
Martin, é importante ajudar as pessoas a
descobrirem um jeito de morrer com tranqüilidade,
em paz, sem se submeter a processos de tratamento
excessivos, mas também sem ser privados
dos cuidados básicos necessários.
Há uma
necessidade de se resgatar o morrer bem,
principalmente diante de tanta tecnologia
e ciência na área médica e nas possibilidades
técnicas da luta prolongada do processo
de morrer.
“Não há
mais motivos para que pessoas morram com
tanta dor como antigamente, por que existem
os fármacos e as formas de sedação que podem
tranqüilizar a pessoa eliminando essa dor,
pelo menos na grande maioria dos casos”,
diz.
FARMACOLOGIA
– Com os avanços da farmacologia aplicada,
da anestesia e analgesia, não há mais motivos
para que muitos pacientes sofram dores agudas
na fase terminal de determinados casos.
“Tem muitos
remédios disponíveis, pelo menos em teoria.
A dificuldade é que esses medicamentos muitas
vezes não são disponibilizados a muitas
pessoas, ou por que o médico não conhece
ou por que são muito caros”, avalia o teólogo.
Leonard
Martin reconhece que embora seja tecnicamente
possível se trabalhar a questão da dor,
ainda assim existe o problema financeiro
de muitos e depende também de uma vontade
política enorme para se fazer isso.
|