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O
homem da história
Geraldo Maia gmaia@bol.com.br
No último dia 23 de
abril, o pesquisador Raimundo Soares de Brito, o nosso
"Raibrito", completou 87 anos de idade. Nascido
em Caraúbas, a 23 de abril de 1920, veio para Mossoró
em 1940, ainda jovem, e permanece até os dias atuais.
Segundo Raibrito, o seu interesse para a pesquisa histórica
começou quando foi fazer o treinamento para a admissão
como Agente de Estatística, em Natal, no ano de 1941/42,
e teve que preencher dados sobre a história socioeconômica
de sua terra-natal. Aquilo o levou a iniciar as suas
anotações para o futuro. Essas anotações viriam a se
tornar, mas tarde, no livro "Caraúbas Centenária",
em 1959.
Tinha sido mordido
pela "mosca azul", como ele gosta de dizer
ao se referir a sua dedicação à pesquisa. Raibrito é
um pesquisador incansável, que sem qualquer ajuda
de governo, instituições ou pessoas organizou um arquivo
fabuloso com mais de quinze mil biografias de tantos
quantos têm ou tiveram alguma influência em Mossoró
e região. Nem mesmo um Acidente Vascular Cerebral (AVC)
foi capaz de tirar o seu entusiasmo. Aos 87 anos
de idade, mantém a rotina de acordar cedo e ler os jornais,
de onde tira o material que alimenta o seu acervo. Mossoró
inteira, estudantes, jornalistas e pesquisadores, recorrem
diariamente à sua casa, a casa de número 23 da rua Henry
Koster, em busca de informações. Raimundo Brito, o intelectual,
é um homem simples que se orgulha de poder ajudar a
todos que o procuram.
Como pesquisador e
historiador já publicou mais de quarenta títulos pela
Coleção Mossoroense, sobre temas que versam principalmente
sobre Mossoró e o Oeste Potiguar. Como disse certa vez
o saudoso mestre Vingt-un Rosado, "Os seus livros
e as suas plaquetes permanecerão, através do tempo,
como uma contribuição extraordinária ao conhecimento
da gente e da terra do oeste potiguar".
A sua dedicação pela
história de Mossoró tem lhe rendido frutos nos últimos
anos. Foi destacado em 1995 com o título de "Doutor
Honoris Causa" da então Universidade Regional do
Rio Grande do Norte e em 1997 agraciado com o diploma
"Amigo da Cultura". Raibrito, um autodidata,
é hoje presidente da Academia de Letras de Mossoró (AMOL),
sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Estudos do
Cangaço (SBEC), sócio efetivo do Instituto Histórico
e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN) e sócio
efetivo do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP).
Está em vias de ser empossado como sócio efetivo
da Comissão de Folclore do Rio Grande do Norte.
Raimundo Brito é um
homem de memória privilegiada. Testemunha ocular da
nossa história viu e vivenciou os homens e fatos que
fazem parte da história potiguar. Uma conversa informal
com Raibrito, se constitui numa verdadeira aula de conhecimentos
gerais, principalmente no que diz respeito a região
de Mossoró.
Um pesquisador incansável,
capaz de estudar um mesmo assunto por quase quarenta
anos, como é o caso do livro que escreveu sobre os patronos
das ruas de Mossoró.
No seu último trabalho
publicado, digo último publicado porque vários títulos
estão aguardando ainda publicação, intitulado "Eu,
Ego e os outros, raibrito traça uma espécie de auto-biografia
através dos tipos populares que foi encontrando ao longo
da vida, em cada cidade onde morou.
Boa parte da sua hemeroteca
pode ser acessada através do site: www.raibrito.com.br,
graças a um patrocínio da Petrobras através da Lei "Câmara
Cascudo" de Incentivo a Cultura. Outros projetos
estão sendo elaborados para a preservação física do
seu acervo, que é a verdadeira memória do Oeste Potiguar.
Apesar dos muitos títulos
honoríficos que possui, Raibrito continua sendo um homem
simples como sempre foi. Um estranho que chegou a Mossoró
e por seus próprios meios tornou-se pedra angular da
sua História. Poderíamos plagiar Camões para dele
dizer: "Porque de feitos tais, por mais que se
diga, mais me há de ficar inda por dizer".
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Deus
torce como nós
Marcos Bezerra Jornalista
- marcos.bezerra@redeintertv.com.br
Não sei precisar quem
inventou a expressão usada com freqüência pela imprensa
especializada. Ouve-se, ou lê-se de vez em quando, um
"os deuses do futebol". Que eles conspiraram
contra isso ou contra aquilo; que os tais deuses não
deixaram uma bola entrar; que botaram outra para dentro
do gol. Vai ver que, atualmente, eles andam trabalhando
em conjunto para impedir o milésimo gol do atacante
Romário. Isso lá no Rio de Janeiro. Sim, porque se o
futebol tem deuses, assim mesmo no plural, é bem possível
que sobre algum para o Rio Grande do Norte. E eu diria
que os deuses potiguares não devem estar tão satisfeitos
com o que acontece no nosso universo futebolístico.
Nem tanto pelo que rola nos gramados do estado - o campeonato
estadual, na opinião de quem foi repórter esportivo
mas nunca usou essa condição para se arvorar como entendido
no assunto, até que deu pro gasto -, mas pela questão
da violência entre os torcedores.
As manchetes e fotos
dos jornais durante a semana não me deixam falar sozinho.
Elas mostravam o trabalho da polícia para conter os
torcedores mais exaltados.
Inicialmente a notícia
principal passou despercebida; até alguém descobrir
que havia uma moça em estado de coma no Hospital Walfredo
Gurgel, vítima da briga entre facções de torcidas organizadas.
Era a estudante Maria Kaliene Josino, atingida por uma
pedrada quando voltava do estádio frasqueirão no domingo
22 de abril. Ela morreu na madrugada da quinta-feira,
vítima de traumatismo craniano, Kaliene era casada e
tinha duas filhas pequenas. Os jornais só não conseguiram
chegar a um acordo quanto à idade da moça: 17, 18 ou
19 anos. Certa era suspeita - quase certeza -
da polícia; de que a pedra tenha sido jogada por integrantes
de gangues infiltradas nas torcidas organizadas de ABC
e/ou América.
O crime aconteceu em
plena avenida Engenheiro Roberto Freire, a mais movimentada
da zona sul da capital. A torcedora, que tinha acabado
de assistir ao primeiro jogo da decisão do campeonato
estadual de 2007, voltava para casa de ônibus. Quando
o motorista diminuiu a velocidade para pegar um passageiros
os vândalos atacaram o veículo. Kaliene estava numa
das janelas e foi atingida na cabeça, provavelmente
um paralelepípedo.
Até hoje a pessoa que
atirou a pedra não foi identificada e, a não ser que
um de seus colegas de gangue denuncie o crime, possivelmente
nunca será. Ironia do destino: Kaliene, que era abecedista,
pode ter sido morta por um torcedor de seu próprio time.
Escrevi aqui, não faz
muito tempo, que atos deste só podem ser tratados como
burrice. Acho também que isso parece doença crônica
das classes menos favorecidas. Pois bem; alguém a pé,
matando alguém que vai de ônibus. Quer estupidez maior?
Como resposta a polícia
preparou uma operação especial para este fim de semana.
Oitocentos homens estarão trabalhando para garantir
a segurança do clássico. Eles vão atuar nas proximidades
do estádio Frasqueirão e também em quatro áreas críticas.
Quatro bairro de Natal onde os confrontos entre os torcedores
são quase certos.
Quer dizer que além
de exigir um aparato policial, comparável apenas aos
grandes eventos do estado, estes marginais travestidos
de torcedores ainda botam o resto da população em risco?
Sim, porque retirando oitocentos policiais do efetivo,
deve restar pouco. Ainda mais por que praticamente metade
dos policiais da região metropolitana estão cumprindo
prisão domiciliar por causa da última greve. Os "deuses
da estupidez" devem estar conspirando contra todos
nós.
Queria ter tempo e
dinheiro para levar os meus para bem longe daqui neste
fim de semana.
- Peraí, assim você
já está exagerando!
Exagerando, eu? Algúem
parou para recordar que o jogo do último domingo terminou
empatado. Que os torcedores do América ficaram satisfeitos
pois continuam precisando apenas de um empate para levar
o título estadual? Que os torcedores do ABC também saíram
animados, afinal o time não só ignorou o favoritismo
do adversário como, assim disseram os principais comentaristas
esportivos, se portou melhor em campo? Imagine agora
que um dos dois clubes vai sair derrotado e que os torcedores
do time perdedor vai colecionar provocações!
Neste quesito demos
aula de civilidade.
- Demos quem, cara
pálida?
Nós, do interior.
Sim, moro aqui, mas não peco minhas raízes sertanejas.
Não lembro de ter visto nada igual no primeiro
título estadual de uma equipe do interior. Corintians
de Caicó e ABC se enfrentaram no Estádio Marizão no
já distante ano de 2001. Deu Corintians; se não estou
enganado, vitória por 1 a 0, gol de Pedro Costa, que
não tinha nome nem jeito de jogador de futebol. Lembro
bem a calmaria da cidade.
Lembro também o mar
vermelho e branco que tomou conta da avenida Presidente
Dutra quando do título do Potiguar, em 2004. Quatro
a zero no Nogueirão, um a zero no Machadão, em Natal,
e a torcida enfrentando o sol, no "pingo do meio
dia", para fazer festa com os heróis da conquista.
Ficamos todos bronzeados, talvez até para combinar com
as cores do clube, milhares de pessoas e nenhum incidente
grave.
Pra completar ainda
teve o título do Baraúnas, em 2006. Com o agravante
de que foram duas decisões e contra o maior rival, o
Potiguar. Situação mais inflamável impossível e deu
no que deu: futebol; festa dupla para os tricolores
e, até onde eu tomei conhecimento, nada de mais grave.
Diferente dos deuses
pagãos do futebol Deus não tem um time preferido. E,
se fosse escolher, torceria por um time do interior.
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Caem
as chuvas
Gilbamar de Oliveira gilbamarbezerra@ig.com.br
Quando chove e tudo
se alaga as cidades apresentam claramente a nítida impressão
de que estão, assim, um tanto deprimidas, de que lhes
tomaram algo significativo. Como se tivessem chorado.
Eis que, quase nos parece com tamanha intensidade, um
simulacro de angústia perpassa no ar e até os pássaros
se escondem nos ninhos ou sob as folhas das árvores,
encolhidos e mudos; eles tiritam de frio se a chuva
é grossa e demorada. Bem assim os vira-latas e os gatos
sem dono, meio que tresloucados à procura de abrigo
mas dependendo de si mesmos para escapar da água forte
caindo do espaço.
Desesperados, os bichos
disparam por entre as pessoas e desaparecem como num
passe de mágica, escondendo-se nos lugares mais imprevisíveis.
Ocorre uma abrupta mudança no período invernoso, é bem
perceptível essa transformação.
O céu se fecha hermético
num instante, impenetrável e sisudo, e a paisagem
cinzenta a descortinar-se se espalha arrasadora como
a proporcionar um espetáculo, dir-se-ia, insípido, no
qual as cores perderam o viço e esboroaram. Os homens
também correm cabisbaixos fugindo dos pingos grossos
em busca de algum lugar onde possam aguardar o aguaceiro
terminar, alguns sobraçando pacotes e portando guarda-chuvas
distorcidos pelo vento, os sapatos já encharcados pelas
poças formadas rapidamente tão logo o firmamento abre
a torneira e derrama o toró. E aparecem as gripes, as
viroses e por aí vai.
Percebe-se um acabrunhamento,
quiçá um sub-reptício vislumbre de enfado nos circunstantes
ante o cair das chuvas, especialmente se acontecem de
repente, inesperadas mesmo, malgrado o tempo nuble visível,
ainda que sorrateiro. Um momento!, não que o sol causticante
a imperar quase o ano todo seja melhor que o intervalo
invernoso, claro que não, longe disso. As chuvas são,
obviamente, muito bem vindas e, até, aguardadas às ânsias.
Negar, porém, os problemas advindos com elas é realmente
impossível. Porque são notórios os transtornos quando
desaba o mundão dágua, não é verdade? Se é amanhecer,
sobrevem à maioria o receio de chegar atrasado ao trabalho;
se meio dia, renova-se o corre-corre pois é hora do
almoço; vindo o entardecer e persistindo o tempo chuvoso,
já então todos almejam por logo os pés nos degraus do
lar e suspirar aliviados por estarem em casa, mesmo
que a roupa esteja abusadamente ensopada. Os privilegiados
ao volante de seus automóveis possantes, por sua vez,
também se atormentam com as agruras da chuvarada, embora
em proporções mínimas. Como, por exemplo, entrar e sair
do carro aos trancos para não se molhar demais, entre
outros pequenos entraves. É muito pouco? Deveras! Todavia,
cada um sabe onde o sapato aperta, não é mesmo?
Por conseguinte, vê-se
que muitos olhares se irradiam com a abençoada chegada
do inverno, mormente os agricultores e pessoas ligadas
ao campo; já outros se acabrunham chateados vendo a
chuva atrapalhar, às vezes, seus planos. E é essa diversidade
de pontos de vista que abrilhanta o viver, posto que
cada ser humano é um universo próprio, com suas peculiaridades
e picuinhas. As chuvas são necessárias e indubitavelmente
importantes e, a Deus querer, não vão deixar de cair.
Não implica isso, contudo, que ruas e residências da
periferia, principalmente, tomadas pelas águas, a queda
de árvores, as goteiras, o lamaçal em tantos lugares
e outras adversidades deixem de ser antipáticas para
muita gente. E, por vezes, calamitosas.
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