Mossoró-RN, domingo 29 de abril de 2007

O homem da história

Geraldo Maia
gmaia@bol.com.br

No último dia 23 de abril, o pesquisador Raimundo Soares de Brito, o nosso "Raibrito", completou 87 anos de idade. Nascido em Caraúbas, a 23 de abril de 1920, veio para Mossoró em 1940, ainda jovem, e permanece até os dias atuais. Segundo Raibrito, o seu interesse para a pesquisa histórica começou quando foi fazer o treinamento para a admissão como Agente de Estatística, em Natal, no ano de 1941/42, e teve que preencher dados sobre a história socioeconômica de sua terra-natal. Aquilo o levou a iniciar as suas anotações para o futuro. Essas anotações viriam a se tornar, mas tarde, no livro "Caraúbas Centenária", em 1959.

Tinha sido mordido pela "mosca azul", como ele gosta de dizer ao se referir a sua dedicação à pesquisa. Raibrito é um  pesquisador incansável, que sem qualquer ajuda de governo, instituições ou pessoas organizou um arquivo fabuloso com mais de quinze mil biografias de tantos quantos têm ou tiveram alguma influência em Mossoró e região. Nem mesmo um Acidente Vascular Cerebral (AVC) foi capaz de tirar o seu entusiasmo.  Aos 87 anos de idade, mantém a rotina de acordar cedo e ler os jornais, de onde tira o material que alimenta o seu acervo.  Mossoró inteira, estudantes, jornalistas e pesquisadores, recorrem diariamente à sua casa, a casa de número 23 da rua Henry Koster, em busca de informações. Raimundo Brito, o intelectual, é um homem simples que se orgulha de poder ajudar a todos que o procuram.

Como pesquisador e historiador já publicou mais de quarenta títulos pela Coleção Mossoroense, sobre temas que versam principalmente sobre Mossoró e o Oeste Potiguar. Como disse certa vez o saudoso mestre Vingt-un Rosado, "Os seus livros e as suas plaquetes permanecerão, através do tempo, como uma contribuição extraordinária ao conhecimento da gente e da terra do oeste potiguar".

A sua dedicação pela história de Mossoró tem lhe rendido frutos nos últimos anos. Foi destacado em 1995 com o título de "Doutor Honoris Causa" da então Universidade Regional do Rio Grande do Norte e em 1997 agraciado com o diploma "Amigo da Cultura".  Raibrito, um autodidata, é hoje presidente da Academia de Letras de Mossoró (AMOL), sócio-fundador da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC), sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN) e sócio efetivo do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP).  Está em vias de ser empossado como sócio efetivo da Comissão de Folclore do Rio Grande do Norte.                      

Raimundo Brito é um homem de memória privilegiada. Testemunha ocular da nossa história viu e vivenciou os homens e fatos que fazem parte da história potiguar. Uma conversa informal com Raibrito, se constitui numa verdadeira aula de conhecimentos gerais, principalmente no que diz respeito a região de Mossoró.

Um pesquisador incansável, capaz de estudar um mesmo assunto por quase quarenta anos, como é o caso do livro que escreveu sobre os patronos das ruas de Mossoró.  

No seu último trabalho publicado, digo último publicado porque vários títulos estão aguardando ainda publicação, intitulado "Eu, Ego e os outros, raibrito traça uma espécie de auto-biografia através dos tipos populares que foi encontrando ao longo da vida, em cada cidade onde morou.

Boa parte da sua hemeroteca pode ser acessada através do site: www.raibrito.com.br, graças a um patrocínio da Petrobras através da Lei "Câmara Cascudo" de Incentivo a Cultura.  Outros projetos estão sendo elaborados para a preservação física do seu acervo, que é a verdadeira memória do Oeste Potiguar.

Apesar dos muitos títulos honoríficos que possui, Raibrito continua sendo um homem simples como sempre foi. Um estranho que chegou a Mossoró e por seus próprios meios tornou-se pedra angular da sua História.  Poderíamos plagiar Camões para dele dizer: "Porque de feitos tais, por mais que se diga, mais me há de ficar inda por dizer".

 

Deus torce como nós

Marcos Bezerra
Jornalista - marcos.bezerra@redeintertv.com.br

Não sei precisar quem inventou a expressão usada com freqüência pela imprensa especializada. Ouve-se, ou lê-se de vez em quando, um "os deuses do futebol". Que eles conspiraram contra isso ou contra aquilo; que os tais deuses não deixaram uma bola entrar; que botaram outra para dentro do gol. Vai ver que, atualmente, eles andam trabalhando em conjunto para impedir o milésimo gol do atacante Romário. Isso lá no Rio de Janeiro. Sim, porque se o futebol tem deuses, assim mesmo no plural, é bem possível que sobre algum para o Rio Grande do Norte. E eu diria que os deuses potiguares não devem estar tão satisfeitos com o que acontece no nosso universo futebolístico. Nem tanto pelo que rola nos gramados do estado - o campeonato estadual, na opinião de quem foi repórter esportivo mas nunca usou essa condição para se arvorar como entendido no assunto, até que deu pro gasto -, mas pela questão da violência entre os torcedores.

As manchetes e fotos dos jornais durante a semana não me deixam falar sozinho. Elas mostravam o trabalho da polícia para conter os torcedores mais exaltados.

Inicialmente a notícia principal passou despercebida; até alguém descobrir que havia uma moça em estado de coma no Hospital Walfredo Gurgel, vítima da briga entre facções de torcidas organizadas. Era a estudante Maria Kaliene Josino, atingida por uma pedrada quando voltava do estádio frasqueirão no domingo 22 de abril. Ela morreu na madrugada da quinta-feira, vítima de traumatismo craniano, Kaliene era casada e tinha duas filhas pequenas. Os jornais só não conseguiram chegar a um acordo quanto à idade da moça: 17, 18 ou 19 anos. Certa era suspeita -  quase certeza - da polícia; de que a pedra tenha sido jogada por integrantes de gangues infiltradas nas torcidas organizadas de ABC e/ou América.

O crime aconteceu em plena avenida Engenheiro Roberto Freire, a mais movimentada da zona sul da capital. A torcedora, que tinha acabado de assistir ao primeiro jogo da decisão do campeonato estadual de 2007, voltava para casa de ônibus. Quando o motorista diminuiu a velocidade para pegar um passageiros os vândalos atacaram o veículo. Kaliene estava numa das janelas e foi atingida na cabeça, provavelmente um paralelepípedo.

Até hoje a pessoa que atirou a pedra não foi identificada e, a não ser que um de seus colegas de gangue denuncie o crime, possivelmente nunca será. Ironia do destino: Kaliene, que era abecedista, pode ter sido morta por um torcedor de seu próprio time.

Escrevi aqui, não faz muito tempo, que atos deste só podem ser tratados como burrice. Acho também que isso parece doença crônica das classes menos favorecidas. Pois bem; alguém a pé, matando alguém que vai de ônibus. Quer estupidez maior?

Como resposta a polícia preparou uma operação especial para este fim de semana. Oitocentos homens estarão trabalhando para garantir a segurança do clássico. Eles vão atuar nas proximidades do estádio Frasqueirão e também em quatro áreas críticas. Quatro bairro de Natal onde os confrontos entre os torcedores são quase certos.

Quer dizer que além de exigir um aparato policial, comparável apenas aos grandes eventos do estado, estes marginais travestidos de torcedores ainda botam o resto da população em risco? Sim, porque retirando oitocentos policiais do efetivo, deve restar pouco. Ainda mais por que praticamente metade dos policiais da região metropolitana estão cumprindo prisão domiciliar por causa da última greve. Os "deuses da estupidez" devem estar conspirando contra todos nós.

Queria ter tempo e dinheiro para levar os meus para bem longe daqui neste fim de semana.

- Peraí, assim você já está exagerando!

Exagerando, eu? Algúem parou para recordar que o jogo do último domingo terminou empatado. Que os torcedores do América ficaram satisfeitos pois continuam precisando apenas de um empate para levar o título estadual? Que os torcedores do ABC também saíram animados, afinal o time não só ignorou o favoritismo do adversário como, assim disseram os principais comentaristas esportivos, se portou melhor em campo? Imagine agora que um dos dois clubes vai sair derrotado e que os torcedores do time perdedor vai colecionar provocações!

Neste quesito demos aula de civilidade.

- Demos quem, cara pálida?

 Nós, do interior. Sim, moro aqui, mas não peco minhas raízes sertanejas.  Não lembro de ter visto nada igual no primeiro título estadual de uma equipe do interior. Corintians de Caicó e ABC se enfrentaram no Estádio Marizão no já distante ano de 2001. Deu Corintians; se não estou enganado, vitória por 1 a 0, gol de Pedro Costa, que não tinha nome nem jeito de jogador de futebol. Lembro bem a calmaria da cidade.

Lembro também o mar vermelho e branco que tomou conta da avenida Presidente Dutra quando do título do Potiguar, em 2004. Quatro a zero no Nogueirão, um a zero no Machadão, em Natal, e a torcida enfrentando o sol, no "pingo do meio dia", para fazer festa com os heróis da conquista. Ficamos todos bronzeados, talvez até para combinar com as cores do clube, milhares de pessoas e nenhum incidente grave.

Pra completar ainda teve o título do Baraúnas, em 2006. Com o agravante de que foram duas decisões e contra o maior rival,  o Potiguar. Situação mais inflamável impossível e deu no que deu: futebol; festa dupla para os tricolores e, até onde eu tomei conhecimento, nada de mais grave.

Diferente dos deuses pagãos do futebol Deus não tem um time preferido. E, se fosse escolher, torceria por um time do interior.

 

Caem as chuvas

Gilbamar de Oliveira
gilbamarbezerra@ig.com.br 

Quando chove e tudo se alaga as cidades apresentam claramente a nítida impressão de que estão, assim, um tanto deprimidas, de que lhes tomaram algo significativo. Como se tivessem chorado. Eis que, quase nos parece com tamanha intensidade, um simulacro de angústia perpassa no ar e até os pássaros se escondem nos ninhos ou sob as folhas das árvores, encolhidos e mudos; eles tiritam de frio se a chuva é grossa e demorada. Bem assim os vira-latas e os gatos sem dono, meio que tresloucados à procura de abrigo mas dependendo de si mesmos para escapar da água forte caindo do espaço.

Desesperados, os bichos disparam por entre as pessoas e desaparecem como num passe de mágica, escondendo-se nos lugares mais imprevisíveis. Ocorre uma abrupta mudança no período invernoso, é bem perceptível essa transformação.

O céu se fecha hermético num instante, impenetrável e sisudo,  e a paisagem cinzenta a descortinar-se se espalha arrasadora como a proporcionar um espetáculo, dir-se-ia, insípido, no qual as cores perderam o viço e esboroaram. Os homens também correm cabisbaixos fugindo dos pingos grossos em busca de algum lugar onde possam aguardar o aguaceiro terminar, alguns sobraçando pacotes e portando guarda-chuvas distorcidos pelo vento, os sapatos já encharcados pelas poças formadas rapidamente tão logo o firmamento abre a torneira e derrama o toró. E aparecem as gripes, as viroses e por aí vai.

Percebe-se um acabrunhamento, quiçá um sub-reptício vislumbre de enfado nos circunstantes ante o cair das chuvas, especialmente se acontecem de repente, inesperadas mesmo, malgrado o tempo nuble visível, ainda que sorrateiro. Um momento!, não que o sol causticante a imperar quase o ano todo seja melhor que o intervalo invernoso, claro que não, longe disso. As chuvas são, obviamente, muito bem vindas e, até, aguardadas às ânsias. Negar, porém, os problemas advindos com elas é realmente impossível. Porque são notórios os transtornos quando desaba o mundão dágua, não é verdade? Se é amanhecer, sobrevem à maioria o receio de chegar atrasado ao trabalho; se meio dia, renova-se o corre-corre pois é hora do almoço; vindo o entardecer e persistindo o tempo chuvoso, já então todos almejam por logo os pés nos degraus do lar e suspirar aliviados por estarem em casa, mesmo que a roupa esteja abusadamente ensopada. Os privilegiados ao volante de seus automóveis possantes, por sua vez, também se atormentam com as agruras da chuvarada, embora em proporções mínimas. Como, por exemplo, entrar e sair do carro aos trancos para não se molhar demais, entre outros pequenos entraves. É muito pouco? Deveras! Todavia, cada um sabe onde o sapato aperta, não é mesmo?

Por conseguinte, vê-se que muitos olhares se irradiam com a abençoada chegada do inverno, mormente os agricultores e pessoas ligadas ao campo; já outros se acabrunham chateados vendo a chuva atrapalhar, às vezes, seus planos. E é essa diversidade de pontos de vista que abrilhanta o viver, posto que cada ser humano é um universo próprio, com suas peculiaridades e picuinhas. As chuvas são necessárias e indubitavelmente importantes e, a Deus querer, não vão deixar de cair. Não implica isso, contudo, que ruas e residências da periferia, principalmente, tomadas pelas águas, a queda de árvores, as goteiras, o lamaçal em tantos lugares e outras adversidades deixem de ser antipáticas para muita gente. E, por vezes, calamitosas.

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