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Enélio
Petrovich
O guardião da memória
norte-rio-grandense
Enélio Lima Petrovich
está na presidência do Instituto Histórico e Geográfico
do Rio Grande do Norte (IHGRN) há 38 anos, onde desenvolve
um inigualável trabalho em favor da cultura do RN. Ex-secretário
de Estado, publicista, advogado, historiador, escritor,
jornalista, imortal da Academia Norte-riograndense de
Letras (ANL), e acima de tudo, discípulo de Câmara Cascudo,
Enélio Petrovich tem como missão de vida zelar pela
memória potiguar.
Por Alexandro Gurgel alex-gurgel@oi.com.br
O Mossoroense -
O senhor está há 38 anos à frente do Instituto Histórico
e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN) e foi eleito
novamente para o biênio 2007-2009, prestes a ficar 40
anos no cargo. Para o senhor, o que representa esse
tempo todo na administração de umas das mais importantes
instituições para o Estado?
Enélio Petrovich
- Esse período como presidente do IHGRN é um tempo
gratificante. A presidência é uma função sem remuneração
e sua finalidade é preservar o patrimônio do Rio Grande
do Norte. O cargo é gratificante e aceitei de bom grado.
É quase uma homenagem ao meu tio-avô Nestor Lima, a
quem eu devo minha formação cultural. Eu só perco, em
tempo de direção, para duas pessoas: Dona Noilde Ramalho
que tem mais de 60 anos como diretora da Escola Doméstica
de Natal e para Fidel Castro, que é ditador desde 1958.
OM - Em meio ao
grande acervo do IHGRN, quais as peças mais importantes
para a História e a Geografia do RN?
EP - Aqui, temos
o maior acervo de documentos do Estado entre livros,
periódicos, revistas, etc. É difícil citar. Mas, posso
dizer que temos a estola de Padre Miguelinho, o primeiro
telefone de Natal, temos o Barleus, um livro precioso
que marca os oito anos da presença holandesa no Nordeste
Brasileiro com Mauricio de Nassau. Esse livro é escrito
em latim, tem ilustrações de Franz Post e é raríssimo
porque só existem três exemplares no Brasil. Um livro
datado de 1647. Temos ainda a primeira pia batismal,
o primeiro cofre do município, a mesa de Pedro Velho,
etc. Temos uma vasta documentação sobre o Estado do
Rio Grande do Norte na parte geográfica e histórica.
Além de tudo isso, temos um acervo de livros fabuloso.
Várias bibliotecas de importantes intelectuais e ex-governadores
que doaram ao IHGRN.
OM - O IHGRN também
guarda o bilhete escrito pelo cangaceiro Lampião, em
1927, e enviado ao então prefeito mossoroense Rodolfo
Fernandes, pedindo um resgate para não invadir a cidade.
Na véspera da comemoração dos 80 anos da Resistência,
os mossoroenses estão solicitando que esse documento
volte para a cidade. O IHGRN vai devolver o bilhete?
EP - Há um mês,
recebi uma comissão lá de Mossoró para conversar a respeito
desse bilhete e eu prometi entregar. Desde que assumi
a presidência do IHGRN nunca vi esse bilhete. Estamos
procurando com muito cuidado, muita perseverança, mas
até agora não o encontramos. Eu disse que esse bilhete,
a princípio, deve ter sido entregue ao Instituto na
gestão de doutor Aldo Fernandes Raposo de Melo, através
de Raul Fernandes. De 1963 pra cá, não consta nada a
respeito do bilhete. Estamos procurando e se for localizado
entregarei com muito prazer.
OM - De que maneira
o IHGRN vai homenagear o centenário de nascimento do
escritor e folclorista Raimundo Nonato da Silva?
EP - Estou providenciando
o centenário dele para agosto, o mês que ele nasceu.
Nós vamos fazer uma solenidade em Martins, onde Raimundo
Nonato nasceu, e outra aqui no IHGRN. Ele era uma figura
humana excepcional, uma grande pessoa que dedicou sua
vida inteira à pesquisa, à literatura, ao patrimônio
histórico, às tradições potiguares, etc. É um homem
que deve ser homenageado no seu centenário de nascimento.
OM - Como o senhor
absorve os megaeventos que visam preservar a história
e a cultura do Rio Grande do Norte?
EP - São válidos.
Tudo que for feito para a preservação da memória merece
o apoio e que seja acatado por todos nós que estamos
dentro deste contexto cultural.
OM - Como o senhor
se sente fazendo parte da Academia Norte-riograndense
de Letras (ANL)?
EP - Eu digo
muito em tom de blague que nos somos "imortais
morríveis". Entrei na ANL na cadeira de Virgílio
Trindade, na cadeira número 4 que pertenceu a Lourival
Açucena e fui saudado pelo grande Mestre Câmara Cascudo,
numa solenidade muito bonita. É um galardão que muito
me orgulha e tenho colaborado para que a Academia seja
um veículo de comunicação na Literatura do Rio Grande
do Norte.
OM - O senhor não
acha que é muito tímido o número de intelectuais mossoroenses
na ANL?
EP - Há valorosos
estudiosos da nossa história que são mossoroenses e
que dedicam suas vidas ao instrumento da nossa cultura.
Há algumas vagas abertas na Academia e quem desejar
se inscrever não há problema. Mas, a ANL está contemplada
com vários mossoroenses como João Batista Cascudo Rodrigues,
Elder Heronildes da Silva, o saudoso Vingt-un Rosado
- uma figura humana fabulosa, que me deixa muita saudade
quando lembro dele. Portanto, a Academia está de portas
abertas para quem quiser ser "imortal morrível".
OM - O senhor teve
um relacionamento muito próximo com Câmara Cascudo.
Em poucas palavras, como o senhor definiria o mestre?
EP - Cascudo
foi um gênio. É um único gênio do Rio Grande do Norte.
Eu digo muito que não foi a guerra que projetou Natal,
foi Cascudo. Eu tive muito contato com ele, tanto aqui
no IHGRN quanto na sua residência. Ele sempre foi uma
bússola através da qual eu fiz minha trajetória cultural.
Quando conheci Cascudo eu ainda era garoto. Minha mãe
era prima de dona Dáhlia. Minha aproximação com ele
cresceu mais quando assumi a presidência do Instituto
e com Cascudo mantive uma relação social e cultural
muito intensa. É muito difícil fazer uma definição de
Cascudo em poucas palavras. Mas, ele foi o samaritano
da cultura norte-rio-grandense. Cascudo foi um grande
homem. Da sua boca nunca saía palavras de mágoas e ele
dizia sempre: "Nunca some os desenganos".
E eu tenho essa frase escrita na minha mesa. Para mim,
Câmara Cascudo é um guia permanente.
OM - O que é necessário
para ser sócio do Instituto Histórico e Geográfico do
Rio Grande do Norte (IHGRN)?
EP - Juntar
o currículo, umas obras publicadas no campo da pesquisa,
sobretudo em Geografia e História (regional ou nacional)
e encaminha a presidência. Nós temos uma comissão de
sindicância que aprecia os trâmites e decide se é sócio
efetivo (morando em Natal) ou correspondente (quando
mora fora de Natal). Ainda temos sócio benemérito e
sócio honorário. Depois que a comissão dá um parecer
favorável, a documentação vai a plenário e se aprova
o novo sócio.
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